Não sei se quero continuar casada, mas não tenho motivo para me separar

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Por Telma Elorza

“Estou casada há cinco anos, temos boas condições financeiras, moramos bem, mas me sinto frustrada. Quando me casei, estava com meu atual marido há apenas um ano (nos conhecíamos desde a infância) e vivíamos bem. Mas depois do casamento, parece que tudo mudou. Achei que ia ter um casamento perfeito, com filhos perfeitos, casa perfeita e agora me vejo presa num relacionamento morno, sem perspectivas e sem filhos. Mas não tenho justificativa para pedir o divórcio e sei que isso vai me fazer a vilã para as nossas famílias. Será que terei que aguentar essa vida sem sentindo para o resto da minha vida? Um filho melhoria a situação?”

Ah, amiga, senta aqui, pega um café e vamos conversar seriamente. Tá pronta?

Então, eu já começo a dizendo que um filho não vai melhorar sua situação, não. Mas depois eu explico melhor.

O que eu quero que você entenda é que existe uma armadilha muito cruel que é vendida para nós,  mulheres, desde que somos criancinhas, que é a ideia que é o casamento é a linha de chegada da felicidade. Lembra de todos os desenhos da Disney em que o príncipe resgata a princesa e vivem felizes para sempre? Pois é.

Toda essa história de felizes para sempre está condicionada a você encontrar “o homem certo”, fazer uma festa de arromba (bolso) na cerimônia do casamento, montar uma casa linda e confortável e ter filhos lindos e sorridentes. Aí garantiria sua felicidade eterna.

Só que a vida real não é uma comédia romântica da Netflix e muito menos um desenho da Disney. Aliás, você já reparou que os filmes e desenhos param exatamente aí, na união do casal? O depois quase nunca é mostrado.

E se a gente fica insatisfeita depois do “final feliz” do casamento, geralmente dão um jeito de culpar a nós, mulheres, claro, que nunca nos contentamos com o que temos. Mas é exatamente o contrário. Você não fracassou. O que está vivendo agora é mais comum do que imagina.

Muita gente confunde estabilidade com felicidade. O casal trabalha, tem boas condições financeiras, não briga e aparenta estar bem. Só que, por dentro, existe esse vazio difícil de explicar. O pior é que, como não há uma traição ou violência, a mulher se sente culpada por estar infeliz. “Eu não posso me queixar, tenho uma vida boa”. Já pensou isso, né?

Pouco tempo para se conhecerem antes do casamento

Talvez um dos pontos mais importantes da sua história esteja escondido num detalhe: vocês namoraram apenas um ano antes do casamento. Isso pesa, sim. Conhecer alguém desde a infância não é a mesma coisa que viver uma intimidade adulta com aquela pessoa. Minha avó falava que você não conhece uma pessoa até comer um fardo de sal (mais ou menos uns 10 quilos de sal. O que é muita coisa) juntos.

Um namoro curto, embalado pela empolgação de um casamento próximo, às vezes impede que o casal conheça defeitos, incompatibilidades e expectativas reais de vida um do outro.  No namoro, a gente costuma mostrar “as partes boas” da nossa personalidade, tipo um trailer empolgante de um filme de ação, para conquistar o outro. Mas, com o tempo, vamos percebendo que o filme não é assim tão maravilhoso e que está mais para uma produção meia boca do que um filme tipo Missão Impossível, por exemplo.

E é nessa hora que você, percebendo todos os hábitos irritantes e as diferenças emocionais e de expectativas entre os dois, decide se quer continuar ou não com o relacionamento.

Vocês pularam uma etapa importante ao deixarem de se conhecerem por completo. Provavelmente estava apaixonada, não só pelo seu então namorado, mas também pela ideia de casar-se (como, repito, foi incutido em todas as mulheres desde bebês). O problema é que o casamento é construído no cotidiano e poucas vezes tem a ver com aquilo que a gente imagina. Expectativas X realidade quase nunca são compatíveis.

Vou fazer uma pergunta e quero que responda com sinceridade. Agora que sabe de tudo isso, você está infeliz com o casamento ou frustrada com a vida adulta como um todo? Seja sincera com você mesma. Porque isso faz toda a diferença.

O problema é o relacionamento ou abandono dos sonhos?

Às vezes realmente o problema é o relacionamento. Com a convivência se decepcionou com o “escolhido”, que não era bem a pessoa que acreditava que era. Mas, em outras, a pessoa percebe que, ao ser pedida em casamento pelo “príncipe encantado”, abandonou os sonhos que tinha de, sei lá, fazer um doutorado, montar uma empresa, morar fora do país, ser piloto de Drift.

E agora se vê presa na rotina de trabalhar sem parar – para manter o padrão de vida -, cumprir as expectativas das famílias, ter filhos, posar de casal feliz. Tudo isso pode gerar uma sensação de prisão, porque não era seu sonho.

E, como eu disse lá em cima, um filho não vai mudar nada disso. Pelo contrário, filhos ampliam tudo o que já existe. Se o casal está bem, tem boa conexão, vivem um bom relacionamento, o filho vai amadurecer a relação. Mas se você já esta insatisfeita num relacionamento, um filho não vai ajudá-la. Pelo contrário. Vai aumentar o seu desgaste e gerar mais sofrimento a você e, provavelmente, à criança.  

Dito tudo isso, minha amiga, agora é hora de considerar mudanças na sua vida. Esqueça que você não tem uma “justificativa” forte para se separar. Sim, existe uma pressão enorme para a mulher permaneça casada se não tem motivo para se separar. E mesmo quando tem, ainda assim somos pressionadas a perdoar uma traição e, até, relevar algum tipo de violência. Porém, infelicidade também é um problema legítimo.

Mas, calma. Antes de pedir o divórcio, que tal analisar as seguintes questões:

  • ainda existe amor?  Ou é apenas costume de estar junto dele?
  • existe diálogo? Já conversaram sobre suas respectivas expectativas desse casamento?
  • vocês se enxergam como parceiros?
  • há espaço para reconstrução do relacionamento?
  • e, principalmente, você sente vontade de tentar ou já desistiu emocionalmente dessa relação?

Sugiro que tente uma terapia para se autodescobrir, inclusive para separar uma expectativa fantasiosa do casamento da realidade possível. Porque, mesmo que se separe e busque outra pessoa, já aviso que nenhum casamento será perfeito, principalmente se as questões são internas. E se decidir que sim, o problema é o relacionamento, o melhor será divorciar-se. E não tenha medo de parecer a “vilã”. As vilãs se divertem mais, pode reparar.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora namorou só um ano antes de casar e agora está infeliz e frustrada, mas não tem motivos "sérios" para se divorciar
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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