Londrina quente, tempestades sem freio

A large tree has fallen across a street, blocking it completely

Por Ana Paula Barcellos

Não dá pra esquecer: Londrina acordou no último dia 8 com o peso da noite anterior nos galhos partidos. No dia 7, uma tempestade varreu a cidade como se quisesse lembrar que o céu não perdoa o descuido.

Mais de 130 árvores caíram nas ruas, bloqueando vias e esmagando calçadas – números da Defesa Civil que somam 144 registros só na área urbana, sem contar as que despencaram em quintais particulares. Vento a quase 80 km/h, granizo miúdo e 32 casas destelhadas.

A prefeitura decretou emergência, mandou mutirões para limpar o entulho e distribuir lonas, mas o estrago já estava feito: 10 mil imóveis sem luz, e a Zona Norte ficou no escuro.

Não é surpresa – e vale lembrar que a cidade alaga com qualquer chuva forte.

Enquanto limpávamos os restos aqui, num vizinho, um monstro maior rugia. Em Rio Bonito do Iguaçu, um tornado F4 – ventos acima de 330 km/h – devastou 90% dos imóveis na tarde do mesmo dia 7. Seis mortos, mais de 800 feridos, casas reduzidas a palitos.

O rastro de destruição: sete quilômetros de escombros. E os dados, frios como a tempestade que passou, apontam o dedo para o que veio antes: a região perdeu 60% da Mata Atlântica nos últimos 30 anos.

Hoje, 67,9% da área é agropecuária, só 24% floresta remanescente. Sem árvores para frear o ímpeto do ar quente e úmido, o tornado ganhou força. “Sem florestas, as cidades ficam mais vulneráveis”, disse um climatologista, e o mapa do desmatamento na região Centro-Sul do estado confirma: o vazio verde convida o caos.

Tempestades cada vez mais comuns, que passam destruindo tudo. E a gente continua sem fazer nada para minimizar a força da mudanças climáticas
Foto: Freepik

Tempestade em aproximação

Aqui em Londrina, o alerta da Defesa Civil já virou sinônimo de ansiedade. Toda vez que o app pisca – “tempestade em aproximação” –, o pulso acelera. E com razão. Árvores centenárias, sem poda ou tratamento, apodrecem por dentro e tombam na primeira rajada. No lugar? Uma muda nanica, que leva décadas para sombrear uma rua. A manutenção? Quase zero. A prefeitura remove o que cai, mas previne pouco – e o ciclo se repete.

Tem mais: não há projeto decente para frear o aquecimento urbano. Tetos verdes ou brancos – aqueles que refletem o sol e retêm água – poderiam ser o respiro, mas Londrina patina. Na Câmara Municipal, busquei vestígios de PLs com esse objetivo, alguma iniciativa visando incentivos para empresas e instituições instalarem esses sistemas. O que encontrei? Nada robusto.

Há debates genéricos sobre sustentabilidade, mas sem projeto de lei ou iniciativa específica. Lá em cima, no Congresso Federal, um PL de 2024 visa obrigar a instalação de telhados verdes em prédios públicos, mas aqui? Silêncio. Enquanto isso, prédios de concreto brotam como cogumelos, selando o solo e o céu.

Foto: Teto Ecológico

E o povo? Muita gente aqui ainda vê folhas e flores como sujeira. A prefeitura autoriza podas de árvores saudáveis e o desmatamento urbano avança. No calor, a cultura de queimar mato persiste – é esquentar pra ver as chamas aparecerem, fumaça tóxica no ar.

A fiscalização da SEMA existe no papel – denúncias on-line, multas de R$ 50 a milhões –, mas na rua? Rara. Queimadas comuns, sem punição eficaz, e o ar fica irrespirável. E a cidade de pedra, que não para de verticalizar, ignora o aviso.

Qual o futuro climático dessa Londrina de asfalto e aço? Fácil deduzir: Mais alertas de tempestades, mais árvores no chão, mais alagamentos. Sem freio ao desmatamento, sem tetos que refresquem, sem fiscalizar o fogo “à moda antiga”, vamos colher o que plantamos: ou melhor, o que não plantamos. O tornado de Rio Bonito foi mais um aviso, as árvores caídas também. O que a gente vai fazer a respeito?

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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