Por Ana Paula Barcellos
Londrina acorda com o guincho das betoneiras e o ronco dos guindastes. É novembro de 2025, e a cidade engole mais concreto que ar fresco. Eu rolo o feed do Instagram num dia qualquer, entre uma mordida no pão e o noticiário da COP30 que está por toda parte – metas de carbono zero, discursos sobre salvar o planeta. Aí pinta essa postagem: “Zona Leste de Londrina vive boom imobiliário com mais de mil unidades em obras”.
Mil apartamentos brotando do chão, valendo R$ 250 milhões, graças ao Arco Leste, esse viaduto que liga tudo como se a cidade fosse um shopping center sem fim. O Secovi Norte solta os números frios: 35% dos terrenos valorizados, condomínios com infraestrutura completa. Nas ruas Delmira Lúcia e Lázaro Zamenhoff, já tem mais de mil apartamentos em andamento, e a expectativa é de 50 novos empreendimentos até 2027! Crescimento vertical, eles chamam. Eu chamo de pilha de caixas de concreto sufocando o horizonte. Nesse ritmo, Londrina vai virar, literalmente, um túmulo.
Eu paro o scroll e fico pensando. Ontem mesmo, separei o lixo com cuidado: plásticos num saco, papel no outro, o pouco de orgânico produzido separado certinho. Reciclei as garrafas de vidro, evitei o banho de 10 minutos pra não desperdiçar os 200 litros que a indústria joga fora em uma hora de produção. Não tenho carro, evito plásticos descartáveis. Pra quê? Cada torre que sobe na Zona Leste devora árvores, compacta o solo, multiplica o asfalto que ferve no verão.
Londrina, que já tem seus 570 mil habitantes espalhados em bairros que se fundem como gordura derretida, agora vai engolir mais gente verticalmente. Mais carros nas ruas, mais energia pros elevadores e ar-condicionados que sugam a rede elétrica como vampiros. Mais emissões de CO2 na construção: cimento é o segundo maior emissor global depois da energia, e aqui estamos, erguendo 1.000 unidades como se não significasse nada.
Penso nos lagos que correm menos limpos agora. Lembra da contaminação por esgoto? O calor urbano sobe: estudos mostram que prédios altos retêm mais sol, transformam bairros em fornos. E o verde? Vai pro beleléu. Não bastava a Gleba, Zona Leste agora também é um canteiro de obras onde o pássaro some e o ar cheira a poeira. Sustentabilidade? Que sustentabilidade?
Londrina ri na cara da COP30
Os empreendedores falam de “infraestrutura completa”, mas esquecem o custo: mais lixo pros aterros, mais água pros canos que vazam, esgoto que sem querer vai parar onde não deve (sempre vai, veja o caso recente do Igapó), mais poluição pros pulmões de quem mora ali embaixo. A COP grita redução de emissões, mas o boom imobiliário de Londrina ri na cara dela. É como se o planeta fosse um balão furado, e a gente – eu, você, os vizinhos – soprasse com canudinhos enquanto os tubarões perfuram com facas.
Eu me sinto idiota às vezes. Aqueles cinco minutos a menos no chuveiro? Uma gota no oceano de esgoto industrial. Separar recicláveis? Uma formiga carregando migalha enquanto o elefante pisa o formigueiro. Somos grãos de areia, é a verdade. Mas o pior é saber que não é só indiferença: é ganância pura. Prefeitos inauguram viadutos como troféus, construtoras faturam bilhões, e o meio ambiente? Paga a conta com secas mais longas, verões de 40 graus e enchentes que levam tudo. Londrina cresce pra cima porque é mais barato que crescer pra dentro – repensar o trânsito, investir em transporte público, preservar o que resta de mata. Mas não. Vertical é o novo mantra, e a gente só engole.
Saio pra rua, o ar abafado, choveu e piorou. As árvores nanicas não dão conta do recado. E parar não adianta. Talvez o grão de areia role, talvez una com outros e vire duna. Ou talvez não. O que eu sei é que amanhã vou separar o lixo de novo. Não por ilusão, mas por raiva. Porque se o sistema não se importa, pelo menos eu não finjo que não vejo.
Imagem principal gerada por IA/Grok
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE


Uma resposta
Temos 84 fundos de vale, centenas de pequenas nascentes, poucos veem como um ativo ambiental, a concessionaria vai buscar água há 30km no Rio Tibagi e sem uma grande represa poderemos se ocorrer uma seca como secou o volumoso Rio Madeira, ficarmos sem água, ah mas temos o aquífero guarani, só que clandestinamente ou não poços artezianos são perfurados e as águas subterrâneas existe por herança das florestas e da permeabilidade do solo que insistem em reduzir.