Por Ana Paula Barcellos
Nesta segunda (12), a cidade ganhou mais uma divisão, como se dois mundos coexistissem sem se tocar. Na Câmara Municipal, a Comissão de Justiça, Legislação e Redação aprovou o PL 52/2025, que autoriza secretários, diretores e superintendentes a acumular salários: o original de seus cargos cedidos e até 90% da remuneração na prefeitura. Do outro lado, as professoras dos CEIs anunciam greve, pedindo um reajuste que lhes garanta o mínimo: dignidade. O abismo entre essas realidades é a crônica que Londrina escreve hoje.
O PL 52/2025, votado ontem, contraria o artigo 39, § 4º, da Constituição Federal, que veta o acúmulo de vencimentos de cargos públicos com outros subsídios. A proposta, de autoria do Executivo, permite que um secretário some, por exemplo, seu salário de origem (digamos, R$ 15.000,00) e mais 90% do valor do cargo na prefeitura (outros R$ 19.710,00, considerando os R$ 21.900,00 fixados para secretários em 2024). Isso pode elevar a remuneração a quase R$ 35.000,00 mensais, enquanto outros setores imploram por centavos. Na Comissão, a vereadora Paula Vicente (PT) foi uma das vozes contra o projeto, denunciando a imoralidade de tal medida em tempos de crise. “É um desrespeito à Constituição e à população”, afirmou.

E o salário das professoras?
Enquanto isso, nas portas dos CEIs, a greve das professoras vai paralisar 30 unidades. Elas exigem 12,9% de reajuste para repor perdas inflacionárias desde 2019, segundo o Sindicato dos Servidores. A prefeitura oferece 4,17%, aprovado em fevereiro, mas as professoras rejeitam: “Não cobre nem a inflação”, dizem. Com salários médios de R$ 2.500,00, enfrentam salas lotadas e falta de materiais. “Cuidamos do futuro da cidade, mas quem cuida de nós?”, pergunta uma professora.
O contraste é brutal. Um secretário pode acumular mais de dez vezes o que uma professora ganha, enquanto ela precisa parar para ser ouvida. Paula Vicente, com sua oposição ao PL, representa um fio de resistência na Câmara, mas a aprovação do projeto mostra o quanto a elite política sai vencendo. A justificativa do Executivo – “transparência” e “moralidade” – soa cínica para quem vê o orçamento priorizar os de cima. A greve persiste, os CEIs fecham, e as crianças esperam. Londrina, cidade em que promessas não se cumprem, revela sua desigualdade em cores vivas. Cabe ao povo decidir se aceita calado!

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab
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