O delírio da classe média

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Por Ana Paula Barcellos

Londrina, minha cidade de coração quente e cabeça confusa, é um palco onde o delírio da classe média brilha sob os holofotes do interior paranaense. Aqui, ganhar 10 mil reais por mês é passaporte para se sentir rico; 50 mil, então, é praticamente uma coroa de magnata. Mas, junto com o salário inflado, vem o nariz empinado, o olhar de desdém e uma mania de grandeza que transforma o shopping – um mercado grande com ar-condicionado – em passarela de gala. É o hospício da ostentação, onde o povo se arruma para comprar sabonete importado e julga o tênis do vizinho como se fosse jurado de reality show.

Em Londrina, o status se mede por carrões reluzentes (quem nunca viu o Porshe que chia quando para em cada esquina da Paranagua ou o Ferrari que anda de quadra em quadra na Gleba sem conseguir desenvolver velocidade?) e cafés gourmet em esquinas instagramáveis. Entre os goles de café superfaturado e as conversas sobre viagens ao exterior, há uma busca frenética por validação social. Mas, sob a fachada de prosperidade, escondem-se ansiedades: boletos acumulam, dívidas enormes de cartão de crédito, e o vazio existencial faz eco. As mesmas grifes, o mesmo cabelo, o mesmo estilo: é sempre o mesmo teatro, o mesmo roteiro.

Não é só Londrina, claro. Esse fenômeno tem raízes nacionais, mas aqui ele ostenta, junto com nosso sotaque caipira, uma intensidade de novela. Observo o funcionário da loja de artigos de luxo, com renda de três salários mínimos, tratando clientes como se fosse herdeiro de uma dinastia. Ou o motorista de Uber Comfort, que critica o passageiro de chinelo enquanto sonha com o dia em que vai “chegar lá”. Chegar onde, meu caro? No topo de uma pirâmide que não existe? É um delírio coletivo.

Nossas raízes históricas explicam parte do enrosco. Londrina nasceu do sonho dos colonos, do café, da terra vermelha que prometia riqueza. Mas essa promessa veio com uma hierarquia cruel: os barões no topo, os trabalhadores na base. A classe média, essa faixa indefinida, cresceu querendo imitar os barões, mas sem o dinheiro ou o pedigree. Somos filhos de um Brasil que idolatra a elite e desvaloriza o povo, e no interior isso se amplifica. O londrinense quer se destacar no meio do cafezal, mesmo que seja só com uma bolsa de marca falsificada.

O delírio da nossa gente é algo incrível: aqui, ganhar 10 mil por mês é passaporte para se sentir rico
Imagens: IA/Grok

O delírio pela realidade

A verdade, é que precisamos nos encontrar como povo. Quem ganha 50 mil por mês está muito mais perto de quem ganha 2 mil do que da verdadeira elite – aquela que vive de renda passiva, heranças ou fortunas de nove dígitos. E rico de verdade não faz compra parcelada em 12 vezes, não se preocupa com a opinião da vizinha e, principalmente, não precisa provar nada no Instagram.

Talvez o antídoto seja olhar no espelho e rir de nós mesmos. Reconhecer que o shopping não é Paris, que o café gourmet não nos faz aristocratas e que o desdém pelo outro é só insegurança disfarçada. Somos povo, Londrina, e isso não é demérito. Que tal trocar o delírio por um pouco de verdade? Descer do salto e parar de correr atrás de uma elite que, no fundo, nem nos quer por perto. Aí, quem sabe, a gente se encontra – e descobre que o melhor de Londrina sempre esteve na nossa gente.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

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Uma resposta

  1. Já dizia um grande amigo, que morreu há dois anos, que nunca tinha visto caminhão de mudança em cemitério. Ou seja, nada, absolutamente nada, se leva. Se tudo der certo, dá para levar a paz de espírito, e só. rsrsr

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