Por Ana Paula Barcellos
Ah, a fatura do cartão de crédito, ela sempre chega! Aquela lâmina fina de plástico que corta o mês ao meio, revelando não só os pecados consumistas, mas os fantasmas da cidade que nos engole. Eu abro o app, e lá estão eles: “Uber”, “99”, “43 mob”. Nove, dez reais aqui e ali, somando um grana boa em corridas de carro. Quantas vezes “Uber” ou “99” aparecem na sua? Eu conto as minhas e penso: isso não é apenas sinal de descontrole financeiro, é o eco de uma mobilidade urbana que fracassou coletivamente. E de propósito.
Certa vez, um motorista, vendo meu número de corridas dos últimos anos no app, me perguntou: o custo mensal daria pra pagar uma parcela de carro? E muita gente acha que essa é a questão.
Acontece que eu não quero ter um carro. Primeiro, porque não está na minha lista de conquistas da vida; segundo, porque não faz sentido. Eu moro no centro da cidade, não tenho garagem (teria que gastar com estacionamento 24h) e tenho uma rotina de mãe, filha cuidadora, profissional e pessoa adulta que inviabilizam passar um tempo precioso buscando vaga, estacionando. E custear um carro e sua manutenção também custa caro, né? Como diz o ditado, carro é como uma “família”.
Queria poder andar de ônibus e deixar o app de lado
Queria eu poder andar de ônibus. Mas na minha rotina, sair para deixar filha na escola e seguir para uma reunião com clientes do outro lado da cidade, numa manhã chuvosa, eu e mais 200 almas apertadas num busão que mais parece uma sardinha enlatada em horário de pico, horário justo… como faz? O ar-condicionado? Um mito. O Wi-Fi? Risos. E o preço então?
Mas ei, tem o app! Chamo um carro, pago menos que o valor da passagem para nós duas, e chegamos secas, com ar fresco e playlist no talo. Conforto individual num mar de desigualdades coletivas. É isso que nos vendem como “escolha”. Mas quem escolhe mesmo? O pobre que gasta 30% da renda em transporte, deixando de lado consultas médicas (48% dos brasileiros, segundo uma pesquisa recente da Ipsos)?
O transporte individual – carro próprio, moto, Uber e cia. – já superou o coletivo. Os apps de ride-hailing explodiram, puxando uma queda de mais de 30% nos passageiros de ônibus nos últimos dez anos.
E não é só preguiça pós-pandemia ou amor pelo ar-condicionado. É o sistema que nos empurra pra isso.

Ônibus ruins, superlotados, longo tempo de espera, tarifas elevadas e um planejamento urbano que reflete, e pior, produz desigualdades socioespaciais. Um estudo publicado no Urban Studies mergulha nisso: a precariedade no deslocamento não é acidente, é mecanismo. Grupos historicamente marginalizados – negros, pobres – arcam com o pior: lotação tripla, esperas eternas e um custo que esvazia o bolso, reforçando o ciclo de exclusão.
Penso na Maria, faxineira da Zona Norte que pega ônibus pra chegar ao centro às sete da matina. Ela não tem escolha: o busão não vai até a porta dela, e ainda chega lotado como um formigueiro. Carro por app? Pra ela, é luxo, usa só em caso de emergência. Mas pra mim, que sou mãe e profissional autônoma, e muitas vezes cruzo a cidade 3 vezes no mesmo dia, virou rotina. Por quê? Porque o poder público falhou. Com nós duas. Falhou em investir em políticas que subsidiem o transporte coletivo de forma decente e eficaz. Hoje, a mobilidade é o maior desafio das cidades – não à toa.
E se a gente parasse de romantizar essa “liberdade” individual? Imagina uma cidade onde o busão chega em no máximo 20 minutos, como nas capitais com infraestrutura decente. Onde subsídios cubram a tarifa pra todo mundo (sim, é possível!). Onde a “escolha” não seja entre apertar no coletivo ou sangrar no app, mas entre rotas justas que conectem periferias ao centro sem cobrar o preço da pele, por um transporte coletivo que funcione para todas as pessoas. Porque, no fim, essa fatura do cartão não é só minha ou sua: é da cidade inteira, rachada entre quem roda solto e quem fica pra trás.
Pra mim, e pra muita gente, ficou assim: hoje um 99, amanhã, um Uber. Quem sabe um dia a gente começa, finalmente, a cobrar o transporte coletivo que merece? Poderia ser, né?
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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