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Londrinense ama carros e não gosta de pedestres

Por Ana Paula Barcellos

Eis aí um fenômeno interessante: Londrina, mesmo sendo uma cidade de médio porte cheia dos trejeitos e costumes interioranos, é uma cidade de carros. Um levantamento já meio antigo do Detran dava conta de que Londrina tinha, em 2011, uma frota de mais de 30 mil veículos. Imagina agora? Cheia de carros e motoristas que não gostam de pedestres.

Nosso trânsito é caótico, nossos motoristas deixam muito a desejar, londrinense odeia seta e não sabe como se comportar ao volante quando passa por uma rotatória; pensa que faixa de pedestres é adorno e adora estacionar em vaga para deficientes ou idosos mesmo sem ter direito. Nenhuma novidade aqui, apenas a reafirmação do óbvio: Londrina se tornou uma dessas cidades nas quais os carros são mais importantes do que as próprias pessoas.

Tem motorista londrinense que não pode sentar no banco de motorista que se transforma no pior tipo de gente: aquele que ama carros e odeia pedestres
Foto: CMTU

E parece que o carro confere ao seu condutor algum tipo de superpoder, né? Tem gente que não pode se sentar no banco do motorista de um SUV que se transforma no pior tipo de gente: se acha mais importante, mete o pé, desrespeita as leis de trânsito e não dá a mínima para os pedestres – pior ainda, quando comete uma infração se acha dono da razão, esbraveja e culpa o pedestre.

E o tanto de gente que dirige com o celular na mão? Dia desses passei por momentos de terror no carro de um motorista por aplicativo que dirigia… enquanto assistia a vídeos! E a prática é recorrente: o condutor do carro da frente demorou pra avançar quando o sinal passou para verde? Provavelmente estava olhando para o celular.

Outra mania dos motoristas daqui é cortar e costurar como se precisassem correr muito para “tirar o pai da forca”. Só eles têm pressa, só eles querem chegar rápido ao seu destino. Esses alvoroçam o trânsito, buzinam, fazem muito barulho e por nada, porque depois você chega no sinaleiro e adivinha? Eles também tiveram que parar, estão lá te esperando.

Uma piada que sempre faço com motoristas de aplicativo é que, se os motoristas de Londrina dirigissem assim em São Paulo, morriam todos e matavam muita gente. Os motoristas paulistas que estão por aqui são os que riem mais alto e concordam enfaticamente.

Aliás, uma observação sobre motoristas que trabalham pela 99 e pela Uber: tem alguns muito ruins, mas tem também os que são muito bons. Tenho dado sorte e conseguido corridas, em 98% das vezes (uso o serviço pelo menos 3 vezes por dia), com os bons.

Carros e os bons motoristas

E esses bons motoristas são os que me ajudam a esquecer de quanto é ruim ser pedestre em Londrina. De como é difícil atravessar uma avenida no trecho em que não há semáforo; de como os motoristas desrespeitam a faixa de pedestres e, muitas vezes, colocam em risco a vida dessas pessoas; da lembrança de quase ter sido atingida em cheio quando atravessava a rua empurrando o carrinho com minha filha bebê (em uma faixa de pedestres) – eu gritei muito na hora, foi traumatizante e as desculpas esfarrapadas e assustadas do motorista só me fizeram sentir ainda mais brava e desrespeitada.

Foto: Trânsito Web

Ainda assim, dou sorte com as e os motoristas que conduzem minhas (e nossas) viagens. Tenho encontrado gente muito boa e atenta, respeitosa e gentil. Dia desses, saí atrasada do ateliê e precisei esperar o carro em um lugar horrível para embarcar (pensa na Mato Grosso às 17h25). Embarquei já me desculpando e explicando o trajeto e a parada que era meio complicada, quando o moço me interrompeu sorrindo: “Não precisa dizer mais nada, Ana. Já fiz corrida pra você antes, deixa comigo!”. Ele foi tão competente e tão bom para encontrar um caminho alternativo que me ajudou a economizar 5 minutos de forma segura e nem faz ideia do quanto me salvou naquele dia.

Teve também a vez da motorista que chegou pra me buscar em casa e justo nesse momento encostou a moto da Copel pra checar o relógio. Eu, mais uma vez, com pressa e envergonhada, fui me explicar. “Fica tranquila, já entendi tudo”. Estacionou, desceu do carro, ajudou o funcionário da Copel a fechar o portão pra mim (eu estava carregada de sacolas, pra variar) e me ajudou a embarcar, tudo com a maior tranquilidade e gentileza.

Isso sem falar dos que esperam com satisfação quando peço para ver Olívia entrar na escola antes de seguir com a corrida (ela desce um pouco antes do portão), dos que sobem um pouco a música quando percebem que prefiro ficar em silêncio, ou fecham os vidros e ligam o ar no máximo sem nem perguntar porque me percebem  esbaforida de calor. Tem ainda os que colocam uma trilha sonora impecável (não falei que tenho sorte?) e fazem do trajeto um momento agradável às 7h30 da manhã.

E é com elas e eles, grandes parceiros do dia a dia, que critico todos os outros. Afinal, onde já se viu passar chutado ignorando o “Pare” gigante e atravessando a vez do carro que está na preferencial? Ficar parado no meio do cruzamento porque teimou em aproveitar o sinal antes de fechar? Sair de ré da garagem do prédio sem prestar atenção nos carros que estão vindo? Dirigir devagar, e no meio das duas pistas, como se fosse o dono da rua? “Só” em Londrina, mesmo!

Ana Paula Barcellos

Meu pai e minha mãe nunca tiveram problemas com idas ao cemitério e a velórios, e sempre levaram a gente junto, desde pequena. Sempre entenderam que a morte é parte fundamental da vida, no futuro

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Foto principal: LovePik

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

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