A cebola velha do mercado

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Por Ana Paula Barcellos

Domingo. Virando mesmo outono. Precisei e decidi arriscar: “vou no mercado rapidinho, antes que feche”. Sabia que era jogo de azar. Faltavam poucas horas para o fim do expediente e todo mundo sabe o que vai encontrar: bancas meio vazias, verdura murcha, o que sobrou foi o que ninguém quis de manhã. Normal. Esperado. Quem deixa a comprinha pra última da última hora não pode reclamar de pouca variedade nem de alface que já viu dias melhores.

Mas cebola velha? Velha tipo estragando? Não é figura de linguagem, não é exagero de quem acordou mal-humorado. Eram três variedades diferentes, todas ali, expostas como se nada houvesse, exalando aquele cheiro meio azedo, pesado, de coisa que tá morrendo. Cheguei perto, o nariz confirmou o que os olhos duvidavam. Peguei uma, girei na mão: escura, batida. De extra não tinha nada. Olhei em volta: ninguém parecia incomodado. Um cliente ao lado pegava legumes ao lado como se as cebolas fossem normais. E eu ali, com a lista de compras na cabeça, sentindo um misto de nojo e tristeza. Como é possível?

Não é falta de estoque do mercado. Não é “fim de feira”. É falta de respeito. Ponto final. Porque o consumidor que vai ao mercado não vai só atrás de preço. Quando você encontra legume estragando exposto, sem o menor pudor, é como se o comerciante olhasse na sua cara e dissesse: “tá bom pra você, tá bom pra mim”.

E o pior: a gente normaliza. “Ah, é fim de domingo”, “ah, acontece ”. Como se o fato de o mercado existir há décadas o autorizasse a tratar o cliente assim.

Ir ao mercado no final da tarde de domingo é saber que vai pegar o que sobrou nas prateleiras dos legumes. Mas cebola podre? Aí já é demais
Fotos: Magnific

Saí de lá com as sacolas quase vazias. Não comprei cebola, só uma cabeça de alho solitária. Voltei pra casa.

Por favor, da próxima vez, alguém do mercado tenha o respeito mínimo de jogar fora o que já morreu.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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