Tinha uma árvore na frente do mercado

closeup-lumberjack-with-chainsaw-forest (1)

Por Ana Paula Barcellos

Na frente do mercado tinha uma árvore.

Na esquina quase invisível da Eduardo Benjamin Hosken, uma ruazinha de nome longo e existência curta — apenas duas quadras espremidas entre vias movimentadas do centro —, vimos um crime com muitas testemunhas. O supermercado tradicional e pioneiro da região, em ato que mistura pressa e desprezo, permitiu a poda de uma árvore centenária, saudável, que há décadas emoldurava sua entrada. Deixaram-na reduzida a um toco com galhos podados, e descartaram galhos vivos, cheios de folhas exuberantes que ficaram amontoadas como lixo. Uma cena que parece um epitáfio para a memória das sombras.

A Eduardo Benjamin Hosken é daquelas ruas que nem os mapas digitais se dão ao trabalho de anunciar. Quem passa por ali – se passa – , nem percebe. Mas a figueira era a guardiã desse esquecimento. Seus galhos entrelaçados faziam sombra até para quem nunca soube seu nome. Agora, restam cicatrizes no asfalto: marcas de serra, lascas de madeira, folhas que não entenderam por que caíram. A poda não foi poda; foi amputação. Uma árvore que sobreviveu a secas, bueiros entupidos, fios de alta voltagem, e ao crescimento desordenado da cidade sucumbiu à lâmina de um funcionário apressado.

O fim de uma árvore saudável

Há um absurdo nítido em destruir o que leva séculos para existir. Cortar uma árvore saudável não é apenas um ato administrativo — é um crime ambiental disfarçado de progresso. Em Londrina, onde o calor escaldante do verão já é um suplício, cada folha arrancada é um convite ao sol para que queime mais. As raízes que firmavam o solo, as folhas que filtravam o ar, os galhos que abrigavam pássaros: tudo virou “resíduo orgânico” na calçada. Enquanto isso, seguimos reclamando do clima, do mormaço, da falta de verde, como se não fôssemos cúmplices do que destruímos.

A árvore da Eduardo Benjamin Hosken não era monumental, mas era testemunha. Cresceu em uma cidade que, em nome do concreto, apaga suas próprias raízes. E nós, que atravessamos as ruas sem olhar para cima, merecemos cada grau a mais no termômetro. Merecemos o asfalto derretendo, o ar pesado. Afinal, enquanto houver quem veja natureza como obstáculo, Londrina seguirá sendo uma cidade que escolheu matar suas sombras.

Cortaram uma árvore centenária, saudável, que fazia sombra e resfrecava a região da rua Eduardo Benjamin Hosken. Virou resíduo orgânico
Imagem gerada por IA/Bing

O crime não está apenas no que foi cortado, mas no que permitimos que continuem cortando. Como a audiência pública, realizada na noite desta segunda (24), na Câmara de Londrina, para a discutir a redução de 73% das áreas verdes da cidade, em um projeto de lei para alterar o Código Ambiental. Projeto semelhante foi derrubado no ano passado, mas o lobby das construtoras o ressucitou de novo. Se isso for aprovado, a gente merece todo o calor infernal que fizer em Londrina.

Foto principal: Freepik

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Uma resposta

  1. Eu vi, passo por essa região há mais de 40 anos. Me doeu a alma.
    Não sei onde aquela árvore atrapalhava, a rua ficou vazia. Um espaço aberto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse