Quem cuida dos nossos adolescentes quando a campanha de saúde mental acaba?
Por Alessandra Diehl
Todos os anos, quando chega setembro, o Brasil se veste de amarelo. Prédios são iluminados, campanhas ocupam as redes sociais, empresas e escolas promovem palestras e multiplicam-se mensagens lembrando que falar sobre suicídio é importante.
E é.
Romper o silêncio que historicamente cercou o suicídio foi uma conquista. Hoje conseguimos falar mais sobre depressão, automutilação, sofrimento psíquico e ideação suicida.
Mas talvez tenha chegado o momento de fazermos uma pergunta mais difícil:
Falar é suficiente?
Um estudo brasileiro que analisou a série temporal de suicídios entre 2011 e 2019 investigou se houve mudança da tendência histórica após 2015, período em que o Setembro Amarelo ganhou maior projeção no país. Não foi encontrada mudança estatisticamente significativa.
É fundamental interpretar esse dado corretamente. Isso não significa, de maneira alguma, que o Setembro Amarelo tenha provocado aumento dos suicídios. O desenho do estudo não permite essa conclusão. A questão que o resultado nos convida a discutir é outra: campanhas de conscientização, quando isoladas, parecem insuficientes para modificar um fenômeno populacional tão complexo.
O que os adolescentes brasileiros estão tentando nos dizer?
A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, realizada pelo IBGE com estudantes brasileiros de 13 a 17 anos, traz números que deveriam interromper por alguns minutos qualquer discussão abstrata sobre saúde mental.
Cerca de 32% dos estudantes disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa. Quase um em cada três.
Além disso, 18,5% disseram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre, que a vida não valia a pena ser vivida, enquanto 26,1% relataram sentir que ninguém se preocupava com eles.
Entre as meninas, alguns indicadores são ainda mais preocupantes. 43,4% relataram vontade de se machucar, em comparação com 20,5% dos meninos.
São percentuais, mas precisamos fazer o exercício de enxergar adolescentes atrás deles.
São meninas e meninos dentro de nossas escolas, famílias, igrejas, clubes, condomínios e comunidades.
E há algo particularmente doloroso no dado de que, aproximadamente, um em cada quatro adolescentes brasileiros sente que ninguém se preocupa com ele.
Porque prevenção do suicídio também é uma discussão sobre pertencimento.
Sobre ter alguém.
Sobre ser percebido.
Sobre existir para o outro.
A dimensão do problema é maior do que nossa capacidade de resposta
A ciência internacional aponta para o mesmo desafio
Estudo liderado pelo psiquiatra brasileiro Christian Kieling e colaboradores, utilizando dados do Global Burden of Disease, estimou que, em 2019, aproximadamente 293 milhões de pessoas entre 5 e 24 anos viviam com pelo menos um transtorno mental no mundo. Isso corresponde a mais de uma em cada dez pessoas nessa faixa etária.
A prevalência aumenta justamente na transição para a adolescência. Foi estimada em aproximadamente 12,4% entre 10 e 14 anos e quase 14% entre 15 e 19 anos.
Além disso, os transtornos mentais responderam por cerca de um quinto de todos os anos vividos com incapacidade nessa população.
Não estamos, portanto, diante de um problema periférico da saúde dos jovens.
Estamos diante de uma das grandes questões de saúde pública desta geração.
A Comissão de Saúde Mental de Jovens da Lancet Psychiatry, da qual Christian Kieling participou, chama atenção para uma contradição importante do nosso tempo. Enquanto crescem as necessidades de saúde mental entre os jovens, os modelos tradicionais de assistência frequentemente permanecem fragmentados, insuficientes ou pouco adequados às características dessa fase da vida.
Reconhecer o sofrimento é indispensável.
Mas reconhecer sem oferecer uma resposta assistencial nos leva a outra pergunta:
O que acontece com o adolescente depois que ele pede ajuda?

E em Londrina?
Essa pergunta não pode permanecer apenas no plano nacional ou internacional. Precisamos fazê-la aqui, na cidade.
Londrina possui uma Rede de Atenção Psicossocial e conta com um serviço público especializado para crianças e adolescentes, o Centro de Atenção Psicossocial Infantil BENCRESCER, o CAPS i.
O serviço atende crianças e adolescentes com sofrimento psíquico intenso decorrente de transtornos mentais graves e persistentes. Entre as situações que podem demandar seu atendimento estão autoagressividade importante, isolamento intenso e persistente, tentativas de suicídio e ideação suicida persistente ou acompanhada de planejamento.
É um serviço fundamental.
E exatamente por ser fundamental precisamos olhar para ele não apenas com reconhecimento, mas também com responsabilidade pública.
Londrina conta com um CAPS i de referência para sua população infantojuvenil.
Isso nos obriga a perguntar se a capacidade instalada da rede especializada acompanha a dimensão contemporânea da demanda.
É importante deixar claro que o CAPS i não foi concebido para absorver sozinho todo sofrimento emocional da infância e da adolescência, nem deveria. Casos leves e moderados também precisam encontrar respostas na Atenção Primária à Saúde, nos ambulatórios, nas escolas e em outros pontos da rede.
Mas, quando falamos de adolescentes com transtornos mentais instalados, automutilação, ideação suicida persistente ou risco elevado, precisamos garantir algo muito mais concreto do que uma campanha: acesso rápido ao cuidado especializado.
Essa talvez seja uma das discussões mais importantes que o Setembro Amarelo pode provocar em Londrina.
Quantos adolescentes precisam hoje de atendimento especializado?
Quanto tempo esperam?
Quantos conseguem efetivamente chegar ao serviço?
Quantos se perdem no percurso entre a identificação do sofrimento e o início do tratamento?
Nossa rede está dimensionada para a demanda atual?
Fazer essas perguntas não significa diminuir o trabalho dos profissionais do SUS. É justamente o contrário. Significa reconhecer e valorizar quem diariamente sustenta uma rede que precisa ser fortalecida.
Não basta dizer “peça ajuda”
Uma das frases mais repetidas nas campanhas de saúde mental é: “Peça ajuda.”
Precisamos, porém, acrescentar imediatamente: Ajuda onde? E em quanto tempo?
Não podemos colocar exclusivamente sobre o adolescente que está sofrendo a responsabilidade de encontrar sozinho o caminho até o cuidado.
Para ele, pedir ajuda pode significar vencer vergonha, medo de decepcionar os pais, receio de ser julgado pelos amigos ou simplesmente a dificuldade de compreender aquilo que está acontecendo consigo.
Quando finalmente consegue dizer “eu não estou bem”, precisamos estar preparados para responder.
Porque existe uma diferença enorme entre informar que existe tratamento e garantir acesso ao tratamento.
Prevenção precisa significar família capaz de escutar, escola preparada para reconhecer sinais de sofrimento, professores e outros adultos capacitados para identificar e encaminhar; Atenção Primária fortalecida; serviços especializados suficientes e integração verdadeira entre saúde, educação, assistência social e comunidade.
E precisa incluir os próprios adolescentes.
Nada sobre adolescentes sem adolescentes.
Precisamos ouvi-los para compreender seus códigos, seus ambientes digitais, seus medos, suas formas de pertencimento e exclusão e, sobretudo, aquilo que eles esperam de nós.
Prevenção não é um mês. É uma rede.
Talvez esse seja o próximo amadurecimento necessário do Setembro Amarelo.
Não abandonar a campanha. Fazê-la evoluir.
Sair de uma prevenção baseada predominantemente em conscientização para uma prevenção sustentada também por evidências, vínculo, pertencimento, identificação precoce, intervenção adequada e acesso efetivo ao cuidado.
Uma faixa amarela pode chamar atenção.
Uma postagem pode iniciar uma conversa.
Uma palestra pode ajudar uma família a perceber um sinal que antes passava despercebido.
Mas, depois disso, precisamos de uma rede.
Precisamos continuar falando sobre suicídio em setembro.
Mas precisamos garantir cuidado em outubro, novembro, dezembro, janeiro e durante todos os outros meses do ano.
Talvez o adolescente não precise que tenhamos todas as respostas.
Mas precisa saber que existe alguém disposto a permanecer ao seu lado, escutá-lo sem julgamento e ajudá-lo a chegar ao cuidado de que necessita.
Escute. Acolha. Cuide. Conecte.
Porque cuidar hoje pode, de fato, transformar o amanhã.
Dra. Alessandra Diehl
Alessandra Diehl

Médica psiquiatra, doutora em Ciências, especialista em dependências, professora, pesquisadora e referência nacional em saúde mental e uso de substâncias psicoativas. Membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (ABEAD) e membro da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPsiq). @dra.alessandradiehl
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