Giovanni Berrone, o artista ítalo-brasileiro que me ensinou a não desistir da luta

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Por Ângela Diana

Giovanni Emanuele Berrone, artista ítalo-brasileiro, natural de Dracena (SP), cidadão honorário, com a placa “Ad Honoren”, na cidade de Vercelli – Itália, em reconhecimento público por sua grande produção artística. Como autodidata, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo, especializou-se em “Teoria no Ensino da Arquitetura”, docente universitário em disciplinas da área e também de Artes Plásticas em Londrina e em regime especial junto a instituição cultural “Observatório Figurale – Artist Studio”,  em Milão – Italia. Membro do Conselho de Cultura e da Academia de Letras, Ciências e Artes e Cidadão Honorário de Londrina, post mortem (2018). Com vários prêmios, tem suas obras expostas no Brasil, Itália, Alemanha, Egito, Estados Unidos, Romênia, Suíça e Vaticano.

Depois dessa breve apresentação do Berrone, vou contar como o conheci. Eu ainda estava com o atelier na Rua Souza Naves, anos 90 e como já escrevi varias vezes aqui, era uma época de grande efervescência cultural em Londrina. Havia vários grupos de artistas, um conselho de cultura de artistas atuantes, ateliers, exposições… a cidade respirava cultura e esperança.

Em uma exposição, que não lembro se foi no Museu de Arte ou na sala Antônio Teodoro, me vi em frente a uma obra figurativa, toda em vermelho, quase realista. As bordas do quadro enorme, eram feitas de uma textura que parecia uma areia vermelha. Fiquei encantada! Naquele tempo, eu ainda tinha uma chama que só a arte dá quando estamos no inicio de carreira. Vi que o autor da obra era o Giovanni Berrone, que até então, eu só o conhecia “de vista”. Nunca tinhamos conversado e eu era mais timida.

Um dia, conversando com um primo, descobri que Berrone estudava no mesmo colégio e era um dos melhores amigos dele. Comentei sobre a obra, da vontade de conhecer o Berrone etc e tal… E aí, pra minha surpresa, numa bela tarde, a campainha do atelier toca e eu vejo o Berrone em carne , osso e altura na minha porta. Sempre tenho vontade de rir toda vez que me lembro desta cena porque ele não se apresentou, apenas me perguntou: Tem café ai ? E foi assim que começamos a ser amigos. Ele sempre me respeitou como pessoa, mulher e colega de trabalho. Nossos papos eram incríveis, era muito divertido e me ajudou muito. 

Apoio de Giovanni Berrone ao projeto “Sob a Proteção dos Anjos”

Uma das situações que contei com o apoio do Berrone foi quando eu dava aulas no Projeto do União da Vitória “Sob a Proteção dos Anjos” e tinha mandado todo o material para o Museu de Arte.

Minha proposta era ter um espaço oficial para a primeira exposição das crianças do bairro, na sala Antonio Teodoro, na Secretaria de Cultura de Londrina.

Porém, a diretora do museu me chamou para uma reunião e me falou que o espaço não me seria cedido e que seria melhor eu fazer a proposta com crianças da classe A ou B. Até hoje considero que essa mulher de classe abaixo de Z, um “micróbio da bosta do boi”, como dizia uma amiga minha.

Nessa “mão” da situação (lembra que falei que ainda era bem tímida?) saí do museu muito P*** da cara. Estava atravessando a rua perto da Catedral, com os dois braços carregados com as pastas dos trabalhos das crianças, indo para o atelier de ônibus, quando dou de cara com o Berrone. Ele, imediatamente percebeu minha cara de puro e intenso ódio,perguntou o que estava acontecendo. Depois que eu contei, Berrone sugeriu que eu fosse falar com o secretário de Cultura: “Explique a situação e não se preocupe, eu e outros artistas que conhecem seu trabalho, fazemos parte do conselho”.

Tomei coragem, entrei na secretaria igual um foguete. O secretário de Cultura era o professor Alcides Victor de Carvalho, muito gente boa e extremamente educado. E  dai me dá vontade de rir de novo, pois entrei na sala dele, despejei tudo o que tinha nas pastas e falei que se não dessem espaço na sala Antonio Teodoro, eu iria para todos os jornais e contaria que Londrina tinha preconceito com as crianças da própria cidade. Foi a primeira vez que fui obrigada a endurecer diante da situação.

O Prof Alcides se comprometeu a levar o caso ao Conselho de Cultura. Uma semana depois, recebo a ligação da tal diretora, que com a voz bem como “sou obrigada a fazer isso “ , me disse que a exposição tinha sido aprovada. E foi um sucesso! As crianças tiveram o reconhecimento que elas tinham direito.

Ensinamento de Giovanni Berrone: não desistir de lutar

Nunca agradeci devidamente ao Berrone, por isso. Naquele dia, eu não só tive o empurrão necessário para lutar pelo direito das crianças, mas o ensinamento que quando voce está diante de uma injustiça, não se deve desistir de lutar.

Berrone foi um artista fantástico, proeminente em Londrina e depois de alguns anos foi para Itália e faleceu precocemente em dezembro de 2013, aos 55 anos,  Trabalhou muito pela cultura de Londrina e como um bom italiano, não levava desaforo para casa. Até hoje sinto saudades das conversas, do cigarro inseparável e dos copos de café. Ele amava café!

Uma vez, ele também me disse uma coisa inesquecível, que só fui entender tarde demais: “você ainda guarda uma inocência, nunca deixe que tirem ela de você “.

Infelizmente, meu amigo Berrone, de onde voce estiver saiba que eu tentei …mas, alguns seres humanos nesse mundo são tão ignóbeis e cinicos em suas ambições e maldades que, se não perdermos nossa inocência, eles passam por cima da gente como um rolo compressor.

Mas, fique tranquilo! Ainda aqui, dentro da alma, tem um pouquinho da velha inocência bem guardadinha numa redoma. Muito obrigada, por tudo!  

Fotos: arquivo pessoal

Ângela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Instagram angela_dianarte

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Respostas de 2

  1. Berrone um homem e um artista a frente de seu tempo,humilde e apreciador de rock psicodélico seus traços me vieram a mente tive a oportunidade de ve lo em ação em seu ateliê e comentei sua obra me remete a velocidade e uma energia vibrante.

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