Por André Luiz Lima
Na Arte dos Encontros vamos dando os próximos passos. E, olhando para os últimos meses, percebo que esse espaço tem me ajudado a localizar por onde tenho andado, o que tenho aprendido e, principalmente, o quanto tenho me permitido.
Há algum tempo venho observando uma palavra que insiste em aparecer nos meus caminhos: permissão.
Ela surge nos lugares mais improváveis. Em conversas, viagens, projetos, encontros, sonhos e até nos momentos de silêncio. E quanto mais observo, mais percebo que muitas vezes não é a falta de talento, de oportunidades ou de capacidade que nos impede de seguir adiante.
É a falta de permissão.
Permissão para começar.
Permissão para mudar.
Permissão para ocupar o espaço que sempre foi seu.
Permissão para dizer aquilo que precisa ser dito.
Permissão para confiar na própria voz.

Ao longo da minha trajetória, tive o privilégio de caminhar ao lado de artistas, lideranças, empreendedores, educadores e pessoas dos mais diversos contextos. E existe algo em comum entre muitos deles: em algum momento, precisaram de um encontro para se permitir.
Nem sempre estavam prontos.
Nem sempre tinham todas as respostas.
Nem sempre sabiam exatamente qual seria o próximo passo.
Mas algo aconteceu.
Uma conversa.
Uma experiência.
Uma viagem.
Uma história.
Um olhar diferente sobre si mesmos.
E isso mudou o que era possível.
Esse é o território onde meu trabalho vive.
Seja em uma mentoria sobre expressão e presença, em uma palestra que amplia horizontes, em uma experiência artística criada para diferentes públicos, em projetos culturais que conectam pessoas, artistas e instituições, em processos de curadoria, na construção de narrativas ou simplesmente em encontros que criam novas possibilidades de percepção.
O que ofereço não é apenas conteúdo.
É contexto.
É escuta.
É repertório.
É um encontro capaz de revelar algo que talvez já existisse dentro da pessoa, mas que ainda não havia encontrado espaço para se manifestar.
Durante muito tempo pensei que precisava escolher uma única definição para o que faço.
Comunicador.
Entrevistador.
Ator.
Curador.
Mentor.
Palestrante.
Contador de histórias.
À primeira vista, parecem caminhos distintos.
Hoje vejo que não.
Mudam as ferramentas.
Mudam os cenários.
Mudam os públicos.
Mas a essência permanece.
Talvez essa percepção tenha começado muito cedo.

Cresci em um país construído por encontros. Um país onde diferentes culturas, crenças e modos de viver convivem e se transformam mutuamente.
Ser brasileiro me ensinou que existem muitas formas de olhar para a mesma realidade.
Mais tarde, a arte ampliou ainda mais essa compreensão.
Os estudos, as viagens e os encontros com pessoas de diferentes partes do mundo me mostraram que aquilo que nos torna únicos também é aquilo que nos aproxima.
Em cada projeto, em cada cidade e em cada conversa encontrei histórias que desafiaram certezas, ampliaram horizontes e me convidaram a enxergar além das minhas próprias referências.
Foi nesse percurso que compreendi algo importante.
Contar histórias não é apenas narrar acontecimentos.
É criar pontes.
É aproximar mundos.
É revelar possibilidades que talvez ainda não tenham sido percebidas.
Talvez por isso a arte continue sendo minha principal forma de caminhar pelo mundo.
Talvez por isso eu continue acreditando tanto nos encontros.
Porque a vida está constantemente nos oferecendo sinais, pessoas, histórias e possibilidades.
Mas nem sempre estamos disponíveis para percebê-los.
Como costumo dizer, a vida é para quem tem olhos para ver e coração para sentir.
E talvez a permissão comece exatamente aí.
Na disposição de enxergar aquilo que antes passava despercebido.
É por isso que acredito que quem trabalha comigo não recebe apenas uma palestra, uma mentoria ou um projeto.
Recebe um ambiente onde a expressão importa mais do que a perfeição.
Onde a curiosidade é levada a sério.
Onde a escuta cria o que nenhum roteiro conseguiria planejar.
Onde diferentes experiências, linguagens e repertórios se encontram para construir algo novo.
Vivemos em um tempo de excesso de informação e escassez de presença.
Muitas pessoas, equipes e organizações não precisam de mais conteúdo.
Precisam de encontros que ajudem a transformar aquilo que já sabem em movimento real.
Talvez por isso a permissão continue sendo a palavra que mais me orienta.
Porque toda grande transformação começa quando alguém se permite atravessar uma ponte que antes parecia distante demais.
E, muitas vezes, é justamente um encontro que torna essa travessia possível.
Penso nas cidades que visitei, nas pessoas que entrevistei, nos artistas que conheci e nas conversas que permaneceram comigo muito depois do fim de cada viagem.
Quase sempre havia um elemento em comum.
Alguém que criou o espaço certo, na hora certa.
Alguém que ofereceu uma oportunidade.
Uma escuta.
Uma presença.
Uma permissão.
Talvez esse seja um dos maiores presentes que possamos oferecer uns aos outros.
Não uma resposta pronta.
Mas a presença.
A escuta.
O incentivo de quem acredita no que carregamos, antes mesmo que consigamos enxergar isso com clareza.
Porque quando alguém se sente autorizado a ser quem é, algo muito bonito acontece.
A vida volta a circular com mais leveza.

A criatividade encontra espaço.
E a alegria deixa de ser uma busca para se tornar uma consequência.
Porque algumas das maiores transformações da vida começam de forma muito simples.
Com uma conversa.
Com um olhar.
Com um encontro.
Ou com a decisão silenciosa de finalmente nos concedermos a permissão que estávamos esperando receber de alguém.
Talvez seja isso que tenho aprendido ao longo do caminho.
Os sonhos não se realizam de uma só vez.
Eles vão se revelando à medida que seguimos caminhando em direção a eles.
Com encontros.
Com tentativas.
Com descobertas.
Com a coragem de continuar.
E talvez Hermann Hesse tivesse razão quando escreveu que, se permanecermos fiéis ao nosso sonho, um dia ele acabará por nos pertencer por completo.
Até lá, seguimos.
Com olhos para ver.
Com coração para sentir.
E com a permissão necessária para nos tornarmos aquilo que já somos.
Viva a Arte dos Encontros!
Viva, a Vida André!
André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.
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