Por Telma Elorza
“Sou homem de 40 anos e acho que descobri, agora, o meu fetiche: eu fico muito excitado em ver uma mulher se alimentando. Vi num filme, recentemente, e percebi que sempre tive essa excitação por ver uma mulher comendo, desde adolescente. Mas nunca soube exatamente se era um fetiche ou apenas algo que achava bonito. Sempre fiz questão de dar bastante comida para minhas namoradas e algumas terminaram comigo porque elas estavam engordando (o que me deixava muito feliz). Antes, achava que tinha tesão por mulheres gordas, mas é mesmo em relação a comida. Pode me explicar mais sobre isso? Sou normal?”
Caro leitor, para começo de conversa, não existe essa coisa de “normal” na sexualidade humana. Ela é diversa e maravilhosa. E como já disse e repeti centenas de vezes aqui, na coluna, desde que não prejudique ninguém (nem a você nem sua parceira) e tudo seja feito de forma consensual, está tudo bem.
E digo mais: acho essa uma das formas mais interessantes de fetiche. Desde que, lógico, sua parceira saiba o que está ocorrendo e, claro concorde com isso. Porque une dois dos maiores prazeres da humanidade: comida e sexo. Você simplesmente descobriu que o jantar pode ter uma dimensão que restaurante nenhum imaginou (aliás, espero que você se controle quando levar uma mulher para jantar fora kkkk).
Brincadeiras à parte, seu fetiche tem até nome: feederismo. É uma preferência sexual que vai além da cama, quase como um estilo de vida, na qual a comida, o ato de alimentar alguém e vê-la comer e ganhar peso está associada ao tesão.
Há quem se identifique como o feeder, o que alimenta; ou como feede, o que come. E antes que você saia por aí distribuindo marmitas e doces como se fosse o Cupido da lasanha, vou tentar explicar melhor como funciona, sob a ótica da ciência e psicologia.
Bom, primeiro é preciso saber que esse assunto ainda é pouco pesquisado. Por que? Acho que a maioria não se atentou em ver a prática como fetiche. Achei um estudo, publicado no Archives of Sexual Behavior, em 2012, que investigou especificamente a relação entre a alimentação e o tesão.
Os pesquisadores apresentaram aos participantes do estudo imagens e histórias relacionadas à comida e verificaram que os estímulos alimentares podiam ser avaliados como sexualmente excitantes, embora os resultados não demonstrassem simplesmente que “ver alguém comer” provocava uma resposta sexual fisiológica direta. Traduzindo, ninguém ficou de pau duro.
Outro estudo, de 2011, examinou o relato de uma mulher que se indentificava como feede e mostrou que como o ato de comer e ganho de peso ocupavam um lugar central na sua sexualidade.
A conclusão mais prudente sobre o feederismo é que é uma preferência sexual muito específica, mas ainda não totalmente estudado como outros fetiches mais comuns ou até parafilias. Ou seja, ainda vai demorar muito para aparecer um Kama Sutra de Rodízios, kkkk.
Mas uma coisa me chamou a atenção no seu relato. Você disse que achava que gostava de mulheres gordas, mas depois percebeu que talvez o que desperta seu interesse sexual fosse o processo de alimentar as mulheres. Isso faz uma diferença enorme, porque seu estímulo está no ato de oferecer comida e vê-la comendo. Talvez esteja também na sensação que você está contribuindo para uma transformação corporal. Ou talvez seja uma mistura de tudo isso.
Mas acho que faltou responder uma pergunta: “o que exatamente deixa você excitado”?
Porque gostar de pessoa gorda é uma coisa – tem até nome: fat fetishism (fetichismo por gordura) ou fat fetish; gostar de vê-la comer é outra e gostar de alimentá-la para vê-la ganhar peso é uma terceira coisa. Tenta analisar sua própria excitação e ver o que realmente lhe dá prazer.
O que isso importa, você pode me perguntar. Bom, agora é que eu entro com os dois pés no seu peito kkkk. Você mesmo contou que algumas namoradas terminaram com você porque estavam engordando e isso o deixava feliz. Mas elas não estavam. Elas não queriam engordar. E isso é muito importante porque a felicidade delas, em qualquer prática sexual, também precisa entrar na conta.
Até para fazê-la comer é preciso autorização
Se seu prazer é alimentar e vê-la comer e engordar, a mulher tem que concordar com isso. Ser uma feede real. Porém, se ela está engordando sem querer, enquanto você secretamente comemora cada quilo a mais, temos um problema. Fazer de tudo para alimentá-la e engordá-la sem que ela deseje isso não é prática consensual. É agressão psicológica – e até física.
Se a mulher quer participar da fantasia, gosta de ser alimentada, sente prazer nisso e estabelece seus próprios limites, beleza. Tá tudo certo. Dois adultos podem construir consensualmente uma dinâmica sexual que envolva comida e ganho de peso.
Essa diferença é fundamental, porque o fetiche é seu, mas o corpo é dela e homem nenhum pode determinar o que fazer com ele. A escolha dever ser sempre dela.
O feederismo é como o BDSM. Não dá para entrar num fetiche sadomasoquista sem saber. Ambos envolvem muita conversa, limites e liberdade total para parar. E consentimento não é um contrato assinado no primeiro encontro e válido até o Carnaval de 2057. Ele pode mudar, pode ser retirado e até mesmo renegociado.
Então, meu caro, você não precisa de terapia porque não tem “nenhum parafuso frouxo” aí, na cachola. Mas precisa ser honesto com suas parceiras.
Na próxima namorada, conte tudo, que a alimentação e o ganho de peso fazem parte do seu tesão. Não espere ela descobrir, depois de três meses nos quais você está atochando comida nela sem parar.
E, principalmente, descubra o que você realmente procura: uma mulher que gosta de comer? Uma mulher que gosta de ser alimentada? Uma mulher que gosta de ganhar peso? Ou apenas alguém que aceite participar da sua fantasia? Porque são coisas diferentes. O que não pode é transformar seu fetiche em programa de engorda sem a outra pessoa saber. Isso, meu caro, nem a sobremesa mais deliciosa do mundo salva.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?
Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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