Em “Leia se (não) estiver ocupado”, Júlio Cesar Rodrigues parte de situações cotidianas para refletir sobre hiperconectividade, produtividade e uma sociedade que transformou a falta de tempo em símbolo de importância
O LONDRINE̅NSE com assessoria
O advogado e escritor Júlio Cesar Rodrigues, de Arapongas, lança nesta quinta-feira (27), na Livraria da Vila, no Aurora Shopping Londrina, o livro de crônicas “Leia se (não) estiver ocupado”, pela Editora Labrador. O lançamento e sessão de autógrafos será às 19 horas. Os textos abordam a pressa e a ansiedade do homem moderno, que fizeram do tempo um bem cada vez mais escasso — e da vida, uma sequência de urgências.
Em “Leia se (não) estiver ocupado” o autor reúne crônicas bem-humoradas e reflexivas – ilustradas pelo artista curitibano Simon Taylor – sobre acontecimentos do dia a dia que às vezes passam despercebidos, mas revelam muito sobre quem somos.
O autor, que possui trajetória como jornalista e advogado, utiliza sua percepção aguçada e suas experiências pessoais para mapear comportamentos humanos que muitas vezes passam despercebidos. Através de uma escrita fluida, o livro propõe uma análise das miudezas do dia a dia, estruturada em oito partes que exploram desde a tirania do tempo até a preservação de afetos e memórias. A obra se posiciona como um espelho das contradições humanas, onde o riso diante de situações embaraçosas convive com a profundidade filosófica de momentos banais.

Crônicas retratam o embate entre a agilidade digital e a contemplação
Um dos eixos centrais do livro é a crítica à dependência tecnológica e ao status de ocupação permanente que domina a sociedade atual. Rodrigues observa que viver em um ritmo acelerado tornou-se um sinal de prestígio, enquanto o ócio é frequentemente visto com preconceito. Em textos como Um minuto, já volto, o cronista ilustra a fragmentação da atenção causada pelo fluxo ininterrupto de notificações em smartphones e redes sociais. Essa temática se estende para a análise da pressa inútil, exemplificada no comportamento impaciente de passageiros em aviões, que buscam vantagens ilusórias em um percurso onde todos chegarão ao mesmo tempo. A tecnologia aparece na obra tanto como uma ferramenta de facilitação quanto como uma fonte de isolamento e ansiedade.
A relação com a modernidade ganha tons cômicos e reflexivos em episódios envolvendo assistentes virtuais ou a introdução de robôs domésticos na rotina familiar. Na crônica A diarista, o autor descreve a experiência com uma nova funcionária eletrônica, relacionando a busca pela comodidade tecnológica com reflexões sobre o trabalho e a dignidade humana. Rodrigues constata que, embora a inovação tenha sido criada para ajudar, ela muitas vezes resulta em indivíduos distraídos e desconectados do mundo real. Essa percepção é reforçada por observações sobre a transformação de tarefas simples, como escrever uma carta, em processos instantâneos que eliminaram o valor do silêncio e da paciência.
O resgate da memória e o ciclo das idades
Para além da crítica social, o livro mergulha em um universo nostálgico que resgata a infância do autor em Arapongas e suas vivências no interior do Paraná. O resgate de figuras típicas, como o Zé Leiteiro, e de rituais como as aulas de datilografia, serve para estabelecer um contraste entre o passado analógico e a impessoalidade digital contemporânea. Em textos como Vai devagar, senão apanha, Rodrigues compartilha lições aprendidas em uma primeira volta de bicicleta, sugerindo que certas quedas na maturidade poderiam ser evitadas se o ímpeto de viver não fosse tão apressado. A memória é tratada como um tempo guardado que se revela em fotografias antigas e momentos que sequer deixaram vestígios físicos.
A obra também dedica um espaço generoso à reflexão sobre o envelhecimento e as passagens geracionais. No texto Quando a vida começa, argumenta-se que a chegada aos setenta anos pode representar o auge possível do amadurecimento, um período em que o pensamento se torna mais livre do olhar alheio e as melhores coisas acontecem devagar. Rodrigues aborda temas como a perda e a finitude de maneira sensível, tratando a vida como um sopro divino e um mistério constante que se renova em cada nascimento. O cotidiano familiar é outro ponto de apoio, com histórias que envolvem desde as travessuras de um cão vira-lata chamado Alfredo até a emoção de cartas escritas para uma filha recém-nascida, equilibrando a preocupação com o futuro e a confiança na renovação da esperança.
A seção dedicada à pandemia de 2020 registra um período de dias suspensos, retratando a adaptação ao isolamento e a comunicação através de máscaras e telas. O autor descreve o gabinete da quarentena montado em casa e os diálogos muitas vezes ruidosos em grupos de mensagens, capturando o espírito de um tempo em que o mundo foi obrigado a desacelerar por força das circunstâncias. Ao final, o livro sugere que, ocupado ou não, o leitor pode encontrar nestas crônicas um refúgio para o olhar atento e para a valorização das pausas, reafirmando o papel do cronista como alguém que chama a atenção para o que deixamos passar distraídos.
Sobre o autor
Júlio Cesar Rodrigues nasceu em Arapongas, no Paraná (PR), em novembro de 1968. É advogado e atuou como repórter n’O Diário, na revista Pois É e na TV Cultura (afiliada à Globo), todos em Maringá (PR). Hoje escreve crônicas na Revista da Cidade, publicação sexagenária de sua família, e mantém a página @certascronicas no Instagram.

