Por André Luiz Lima
Quando era criança, no sítio dos meus tios, no norte do Paraná, neste Brasil imenso, eu tinha um lugar preferido: uma pedra onde me sentava para simplesmente estar. Ali, o mundo se revelava inteiro diante de mim.
As paisagens, as montanhas ao longe, o verde intenso, o vento batendo no rosto. O silêncio, cheio de vida, era interrompido pelos sons que me cercavam: pássaros em revoada, galinhas ciscando, a terra fértil sendo arada, o bezerro berrando, cavalos e porcos espalhados, as plantações de café, o monjolo quebrando o trigo, crianças correndo. Tudo isso era o meu Agora — a plenitude daquele instante que me ensinava a ver e a escutar.

E, no meio dessa cena, meus olhos subiam para o céu. Uma fumacinha branca cortava o azul: era o rastro de um avião. Eu ficava sonhando para onde ele poderia me levar. Logo outra fumaça se erguia, desta vez da chaminé da cozinha. E então a voz carinhosa da tia Nice chamava: “Menino, vem almoçar!”. Descendente de italianos, como tantas outras etnias que se misturam no Brasil, ela me abriu portas para enxergar o mundo sob diversos olhares. Sentados à mesa, nos alimentávamos não só de pratos preparados no fogão a lenha, mas também de histórias e afetos.
Essas lembranças são rastros que me trouxeram até aqui, como aquela fumaça no céu que anunciava viagens. Peguei carona nessa rota invisível e me tornei ator, comunicador e viajante curioso. Desde cedo aprendi, pela arte, a valorizar o conteúdo e não apenas a aparência. Segui fiel aos meus sonhos de menino — e eles me levaram por vários países, em busca de encontros que dessem sentido à minha caminhada.
Foi assim que, quase por encanto, me encontrei em Paris com a jornalista, egiptóloga e apaixonada pelo Brasil, Chantal Manoncourt. A bordo de um cargueiro, do Havre ao Rio de Janeiro, Chantal desembarcou em um país que mal conhecia. Não falava português e não tinha muitas referências, mas trazia a alma aberta. O que encontrou aqui foi mais do que paisagem: foi um modo de viver, uma abundância de encontros e expressões humanas que lhe ensinaram algo que nem os deuses egípcios haviam revelado — o valor do momento presente.
O meu Agora de menino, sentado na pedra no Paraná, e o de Chantal, desembarcando num Brasil desconhecido, se cruzaram como quem descobre a mesma verdade em territórios diferentes. O Brasil se revelou para nós como mestre do instante.
E foi desse cruzamento de olhares — da minha bagagem de artista e da paixão dela pelas narrativas humanas — que nasceu algo maior: a série documental Brasil Extraordinário, que convida o público a percorrer o Brasil profundo, revelando belezas naturais, histórias humanas e manifestações culturais muitas vezes fora do olhar do turismo tradicional.
É uma viagem que une dois olhares complementares: o da francesa Chantal Manoncourt e o meu, que vou conduzir a magia cuja trajetória é marcada por vivências, encontros e uma relação profunda com arte, ancestralidade e natureza.
Essência do Brasil

Mais que mostrar lugares, Brasil Extraordinário busca desvendar conexões. É um mergulho nas paisagens naturais e humanas — religiosidade, saberes populares, música, literatura, culinária, arquitetura, ciência, inovação e modos de vida — sempre com respeito, escuta e valorização da memória local.
O Brasil é um dos países mais megadiversos do planeta, guardando uma das maiores riquezas em fauna e flora do mundo. Essa exuberância natural convive com a força do agronegócio, setor que alimenta milhões dentro e fora do país, e com o talento de nossas cidades criativas, polos de tecnologia e pesquisa que colocam a ciência e a inovação no centro da construção de futuros.
Mas nossa riqueza não é só natural ou econômica. Está também na diversidade de gênero, de vozes, de povos, de origens e de expressões — um mosaico humano que faz do Brasil um território de convivência e invenção.
Inspirado na visão indígena expressa por Ailton Krenak, o projeto entende que não existe separação entre nós e a natureza: somos parte dela, assim como somos parte das histórias que contamos e vivemos.
O Brasil Extraordinário não é invenção. É espelho. Um espelho onde o brasileiro se vê por inteiro. Onde nos reconhecemos como povo criativo, generoso, ancestral, vibrante e inovador.
É preciso voltar os olhos para dentro, escutar nossas vozes, narrar nossas histórias, valorizar nossas festas, nossas comidas, nossos mestres, nossas descobertas científicas, nossos silêncios e superações. É preciso tomar posse da beleza que é nossa por direito. E contar ao mundo — e a nós mesmos — que aqui pulsa uma grandeza que precisa ser assumida, vivida, celebrada.
Revelar o Brasil por meio de uma narrativa sensível e envolvente, onde cada encontro é tratado como ato de arte, e cada personagem, como guardião de um fragmento da identidade brasileira. A câmera e a palavra funcionam como pontes, aproximando culturas e ampliando olhares — dentro e fora do país.
Essa é apenas a primeira parada, e este relato é apenas um pequeno grão de areia nessa vastidão de misturas que somos. Um país de muitos Brasis, de regiões e culturas que, apesar de suas diferenças, se unem em uma só nação.
Essa é a arte dos encontros. Esse é o Brasil que queremos (re)conhecer.

Quando pensamos em apresentar o projeto Brasil Extraordinário, escolhemos começar por três territórios que traduzem, de forma única, a potência e a diversidade do país: Minas Gerais, Bahia e Sergipe.
Há estados e cidades que não apenas visitamos — eles nos habitam. Minas Gerais, Bahia e Sergipe são exemplos vivos de como um país pode ser múltiplo, diverso e extraordinário em cada detalhe: das montanhas ao mar, das ruas de pedra às obras de arte, das tradições populares às mais sofisticadas expressões culturais.
Minas Gerais – barroco, modernidade e memória
Minas é um mergulho na alma do Brasil. Em Ouro Preto, Congonhas e Mariana, o barroco de Aleijadinho e Ataíde nos lembra que arte é também uma oração esculpida em pedra e madeira. Em Belo Horizonte, a arquitetura ousada de Oscar Niemeyer no Conjunto da Pampulha dialoga com a paisagem e coloca Minas no mapa da modernidade mundial.
A literatura mineira nos deu Carlos Drummond de Andrade, poeta das coisas simples, e Guimarães Rosa, mestre em revelar os sertões como universo filosófico. E a música? Das serestas de Diamantina ao Clube da Esquina, com Milton Nascimento e Lô Borges, Minas ensinou que canção é encontro de mundos.
Entre igrejas, praças e serras, o extraordinário mineiro está na mistura de tradição e invenção, silêncio e poesia, pão de queijo e prosa de bar. Minas é profundidade, lembrança e vanguarda.
Bahia – Salvador, Conde e o infinito do mar
Na Bahia, o extraordinário pulsa a cada esquina. Salvador, primeira capital, é patrimônio vivo: sua arquitetura colonial, suas ladeiras e suas igrejas, como o São Francisco de ouro talhado, convivem com a modernidade dos teatros, dos centros culturais e da música que ecoa nos largos do Pelourinho.
A Bahia é berço de escritores como Jorge Amado, que eternizou o povo baiano em romances universais; de pensadores como Milton Santos, que redesenhou o mapa do mundo a partir da geografia humana; e de músicos que vão de Dorival Caymmi à Tropicália, sempre renovando o imaginário nacional.

E além da capital, o extraordinário se revela em cidades como a Cidade do Conde. Pouco conhecida do grande público, ali o rio encontra o mar e os manguezais nutrem a vida das comunidades. Quilombolas, pescadores e marisqueiras mantêm vivas tradições ancestrais, enquanto o artesanato e a culinária à base de peixe, coco e mandioca expressam a sabedoria da terra. O Conde é Bahia em estado puro: resistência, beleza, abundância e fé.
Sergipe – Indiaroba, cidades históricas e novos olhares
Sergipe pode ser o menor estado do país, mas é imenso em riqueza cultural. Em Aracaju, a arquitetura moderna dialoga com a tranquilidade da orla, enquanto os mercados oferecem bordados, peças em cerâmica e comidas típicas que traduzem identidade.
Em São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil e Patrimônio da Humanidade, o barroco ainda respira em igrejas e conventos. Em Laranjeiras, as festas populares preservam expressões afro-brasileiras como Taieira e Cacumbi.
No litoral sul, Indiaroba guarda uma força especial: manguezais que sustentam famílias, produção de coco e farinha de mandioca, pesca artesanal que passa de geração em geração. É o extraordinário da simplicidade, da vida moldada pelo ritmo das águas. E há ainda os cânions do Xingó, paisagem monumental esculpida pelo Rio São Francisco, lembrando-nos que a natureza também é arquiteta.
Brasil Extraordinário – o todo que nos habita
Minas, Bahia e Sergipe nos revelam que o Brasil não é só natureza exuberante, mas também arquitetura, literatura, música, teatro, festas, gastronomia, tecnologia e invenção. É o barroco mineiro, o axé baiano, o artesanato sergipano. É Drummond e Jorge Amado, Milton Nascimento e Gilberto Gil, Niemeyer e Lina Bo Bardi — mas também Miguel Nicolelis, símbolo de como a ciência brasileira dialoga com o mundo. E junto dele, o mestre anônimo que talha madeira, a rendeira que borda, a marisqueira que alimenta, jangadeiros, artesãos, professores, benzedeiras.
É também o país da ciência e da inovação — do Instituto Butantan, que produziu vacinas capazes de salvar milhões de vidas, às pesquisas de ponta em biotecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade e exploração do espaço. Do sertão à cidade, da universidade ao laboratório improvisado, há brasileiros transformando conhecimento em futuro, criatividade em soluções, tradição em tecnologia.

O extraordinário está na soma de tudo o que somos: múltiplos, complexos, criativos.
Este é o convite do Brasil Extraordinário: enxergar o país como patrimônio vivo — feito de encontros, vozes e olhares que nos lembram que, aqui, o momento presente sempre pulsa com força.
Na arte dos encontros, volto para a pedra da infância. E descubro que nunca saí de lá. O menino que sonhava com o rastro de um avião ainda está sentado, vendo o mundo inteiro passar diante de si. Porque tudo faz parte de mim, e nada está separado: o barroco e a ciência, a maré e o sertão, a música e o silêncio, o ontem e o agora. O Brasil Extraordinário não é apenas o que vemos — é o que somos.
Um convite a parceiros, sonhadores e apoiadores
Este é um convite aberto. Aos que enxergam na cultura uma força diplomática. Aos que acreditam que os encontros mudam o mundo. Aos que sentem que o Brasil é mais do que se vê nos noticiários.
O projeto Brasil Extraordinário já foi aprovado pelo Ministério da Cultura via Lei Rouanet.
Empresas e pessoas físicas podem deduzir do IR devido.
É uma oportunidade única de transformar vidas — e ainda obter benefícios fiscais — apoiando diretamente a produção cultural brasileira.
Fotos: Acervo pessoal e Secretaria Municipal de Turismo de Conde

André Luiz Lima
Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural. Siga os Instagrans de André, @allconnecting e @aondevaiandre
Leia todas as colunas sobre A Arte dos Encontros
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Respostas de 8
parabéns. Que ótimo que está aprovado na LEI Rouanet, tem um pessoal de captação da SAUÍ que eu gostei muito de trabalhar com eles. Me fale se quiser o contato. Louca para ver na telinha o projeto
Parabéns André, que bom que o senhor se tornou realidade, adoro ouvir suas histórias, Deus proteja este caminho harmonia.
Como sempre, seus textos são envolventes.
André, que delícia ver suas experiências narradas de uma forma tão emocionante e que nos levam a percorrer os caminhos feitos por você com tanto interesse e curiosidade para tornar nosso Brasil mais conhecido. Parabéns, sucessos.
Sempre uma leitura extasiante, André.
Vida longa ao “Brasil Extraordinário”.
E viva a Arte dos Encontros.
Viva André e o Brasil Extraordinário!! Continuo amando a tua “Poesia”
Parabéns André, fantástico o seu trabalho
Que lindo! Precisamos nos ver como somos… Extraordinários, com certeza.