Brasil Extraordinário: múltiplos, complexos, criativos — um país em movimento

WhatsApp Image 2025-08-29 at 12.50.32 (1)

Por André Luiz Lima

Quando era criança, no sítio dos meus tios, no norte do Paraná, neste Brasil imenso, eu tinha um lugar preferido: uma pedra onde me sentava para simplesmente estar. Ali, o mundo se revelava inteiro diante de mim.
As paisagens, as montanhas ao longe, o verde intenso, o vento batendo no rosto. O silêncio, cheio de vida, era interrompido pelos sons que me cercavam: pássaros em revoada, galinhas ciscando, a terra fértil sendo arada, o bezerro berrando, cavalos e porcos espalhados, as plantações de café, o monjolo quebrando o trigo, crianças correndo. Tudo isso era o meu Agora — a plenitude daquele instante que me ensinava a ver e a escutar.

E, no meio dessa cena, meus olhos subiam para o céu. Uma fumacinha branca cortava o azul: era o rastro de um avião. Eu ficava sonhando para onde ele poderia me levar. Logo outra fumaça se erguia, desta vez da chaminé da cozinha. E então a voz carinhosa da tia Nice chamava: “Menino, vem almoçar!”. Descendente de italianos, como tantas outras etnias que se misturam no Brasil, ela me abriu portas para enxergar o mundo sob diversos olhares. Sentados à mesa, nos alimentávamos não só de pratos preparados no fogão a lenha, mas também de histórias e afetos.

Essas lembranças são rastros que me trouxeram até aqui, como aquela fumaça no céu que anunciava viagens. Peguei carona nessa rota invisível e me tornei ator, comunicador e viajante curioso. Desde cedo aprendi, pela arte, a valorizar o conteúdo e não apenas a aparência. Segui fiel aos meus sonhos de menino — e eles me levaram por vários países, em busca de encontros que dessem sentido à minha caminhada.

Foi assim que, quase por encanto, me encontrei em Paris com a jornalista, egiptóloga e apaixonada pelo Brasil, Chantal Manoncourt. A bordo de um cargueiro, do Havre ao Rio de Janeiro, Chantal desembarcou em um país que mal conhecia. Não falava português e não tinha muitas referências, mas trazia a alma aberta. O que encontrou aqui foi mais do que paisagem: foi um modo de viver, uma abundância de encontros e expressões humanas que lhe ensinaram algo que nem os deuses egípcios haviam revelado — o valor do momento presente.

O meu Agora de menino, sentado na pedra no Paraná, e o de Chantal, desembarcando num Brasil desconhecido, se cruzaram como quem descobre a mesma verdade em territórios diferentes. O Brasil se revelou para nós como mestre do instante.

E foi desse cruzamento de olhares — da minha bagagem de artista e da paixão dela pelas narrativas humanas — que nasceu algo maior: a série documental Brasil Extraordinário, que convida o público a percorrer o Brasil profundo, revelando belezas naturais, histórias humanas e manifestações culturais muitas vezes fora do olhar do turismo tradicional.

É uma viagem que une dois olhares complementares: o da francesa Chantal Manoncourt e o meu, que vou conduzir a magia cuja trajetória é marcada por vivências, encontros e uma relação profunda com arte, ancestralidade e natureza.

Essência do Brasil

Mais que mostrar lugares, Brasil Extraordinário busca desvendar conexões. É um mergulho nas paisagens naturais e humanas — religiosidade, saberes populares, música, literatura, culinária, arquitetura, ciência, inovação e modos de vida — sempre com respeito, escuta e valorização da memória local.

O Brasil é um dos países mais megadiversos do planeta, guardando uma das maiores riquezas em fauna e flora do mundo. Essa exuberância natural convive com a força do agronegócio, setor que alimenta milhões dentro e fora do país, e com o talento de nossas cidades criativas, polos de tecnologia e pesquisa que colocam a ciência e a inovação no centro da construção de futuros.

Mas nossa riqueza não é só natural ou econômica. Está também na diversidade de gênero, de vozes, de povos, de origens e de expressões — um mosaico humano que faz do Brasil um território de convivência e invenção.

Inspirado na visão indígena expressa por Ailton Krenak, o projeto entende que não existe separação entre nós e a natureza: somos parte dela, assim como somos parte das histórias que contamos e vivemos.

O Brasil Extraordinário não é invenção. É espelho. Um espelho onde o brasileiro se vê por inteiro. Onde nos reconhecemos como povo criativo, generoso, ancestral, vibrante e inovador.

É preciso voltar os olhos para dentro, escutar nossas vozes, narrar nossas histórias, valorizar nossas festas, nossas comidas, nossos mestres, nossas descobertas científicas, nossos silêncios e superações. É preciso tomar posse da beleza que é nossa por direito. E contar ao mundo — e a nós mesmos — que aqui pulsa uma grandeza que precisa ser assumida, vivida, celebrada.

Revelar o Brasil por meio de uma narrativa sensível e envolvente, onde cada encontro é tratado como ato de arte, e cada personagem, como guardião de um fragmento da identidade brasileira. A câmera e a palavra funcionam como pontes, aproximando culturas e ampliando olhares — dentro e fora do país.

Essa é apenas a primeira parada, e este relato é apenas um pequeno grão de areia nessa vastidão de misturas que somos. Um país de muitos Brasis, de regiões e culturas que, apesar de suas diferenças, se unem em uma só nação.

Essa é a arte dos encontros. Esse é o Brasil que queremos (re)conhecer.

Quando pensamos em apresentar o projeto Brasil Extraordinário, escolhemos começar por três territórios que traduzem, de forma única, a potência e a diversidade do país: Minas Gerais, Bahia e Sergipe.

Há estados e cidades que não apenas visitamos — eles nos habitam. Minas Gerais, Bahia e Sergipe são exemplos vivos de como um país pode ser múltiplo, diverso e extraordinário em cada detalhe: das montanhas ao mar, das ruas de pedra às obras de arte, das tradições populares às mais sofisticadas expressões culturais.

Minas Gerais – barroco, modernidade e memória

Minas é um mergulho na alma do Brasil. Em Ouro Preto, Congonhas e Mariana, o barroco de Aleijadinho e Ataíde nos lembra que arte é também uma oração esculpida em pedra e madeira. Em Belo Horizonte, a arquitetura ousada de Oscar Niemeyer no Conjunto da Pampulha dialoga com a paisagem e coloca Minas no mapa da modernidade mundial.

A literatura mineira nos deu Carlos Drummond de Andrade, poeta das coisas simples, e Guimarães Rosa, mestre em revelar os sertões como universo filosófico. E a música? Das serestas de Diamantina ao Clube da Esquina, com Milton Nascimento e Lô Borges, Minas ensinou que canção é encontro de mundos.

Entre igrejas, praças e serras, o extraordinário mineiro está na mistura de tradição e invenção, silêncio e poesia, pão de queijo e prosa de bar. Minas é profundidade, lembrança e vanguarda.

Bahia – Salvador, Conde e o infinito do mar

Na Bahia, o extraordinário pulsa a cada esquina. Salvador, primeira capital, é patrimônio vivo: sua arquitetura colonial, suas ladeiras e suas igrejas, como o São Francisco de ouro talhado, convivem com a modernidade dos teatros, dos centros culturais e da música que ecoa nos largos do Pelourinho.

A Bahia é berço de escritores como Jorge Amado, que eternizou o povo baiano em romances universais; de pensadores como Milton Santos, que redesenhou o mapa do mundo a partir da geografia humana; e de músicos que vão de Dorival Caymmi à Tropicália, sempre renovando o imaginário nacional.

E além da capital, o extraordinário se revela em cidades como a Cidade do Conde. Pouco conhecida do grande público, ali o rio encontra o mar e os manguezais nutrem a vida das comunidades. Quilombolas, pescadores e marisqueiras mantêm vivas tradições ancestrais, enquanto o artesanato e a culinária à base de peixe, coco e mandioca expressam a sabedoria da terra. O Conde é Bahia em estado puro: resistência, beleza, abundância e fé.

Sergipe – Indiaroba, cidades históricas e novos olhares

Sergipe pode ser o menor estado do país, mas é imenso em riqueza cultural. Em Aracaju, a arquitetura moderna dialoga com a tranquilidade da orla, enquanto os mercados oferecem bordados, peças em cerâmica e comidas típicas que traduzem identidade.

Em São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil e Patrimônio da Humanidade, o barroco ainda respira em igrejas e conventos. Em Laranjeiras, as festas populares preservam expressões afro-brasileiras como Taieira e Cacumbi.

No litoral sul, Indiaroba guarda uma força especial: manguezais que sustentam famílias, produção de coco e farinha de mandioca, pesca artesanal que passa de geração em geração. É o extraordinário da simplicidade, da vida moldada pelo ritmo das águas. E há ainda os cânions do Xingó, paisagem monumental esculpida pelo Rio São Francisco, lembrando-nos que a natureza também é arquiteta.

Brasil Extraordinário – o todo que nos habita

Minas, Bahia e Sergipe nos revelam que o Brasil não é só natureza exuberante, mas também arquitetura, literatura, música, teatro, festas, gastronomia, tecnologia e invenção. É o barroco mineiro, o axé baiano, o artesanato sergipano. É Drummond e Jorge Amado, Milton Nascimento e Gilberto Gil, Niemeyer e Lina Bo Bardi — mas também Miguel Nicolelis, símbolo de como a ciência brasileira dialoga com o mundo. E junto dele, o mestre anônimo que talha madeira, a rendeira que borda, a marisqueira que alimenta, jangadeiros, artesãos, professores, benzedeiras.

É também o país da ciência e da inovação — do Instituto Butantan, que produziu vacinas capazes de salvar milhões de vidas, às pesquisas de ponta em biotecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade e exploração do espaço. Do sertão à cidade, da universidade ao laboratório improvisado, há brasileiros transformando conhecimento em futuro, criatividade em soluções, tradição em tecnologia.

Brasil Extraordinário é um projeto para mostrar a essência do Brasil, em toda sua plenitude

O extraordinário está na soma de tudo o que somos: múltiplos, complexos, criativos.
Este é o convite do Brasil Extraordinário: enxergar o país como patrimônio vivo — feito de encontros, vozes e olhares que nos lembram que, aqui, o momento presente sempre pulsa com força.

Na arte dos encontros, volto para a pedra da infância. E descubro que nunca saí de lá. O menino que sonhava com o rastro de um avião ainda está sentado, vendo o mundo inteiro passar diante de si. Porque tudo faz parte de mim, e nada está separado: o barroco e a ciência, a maré e o sertão, a música e o silêncio, o ontem e o agora. O Brasil Extraordinário não é apenas o que vemos — é o que somos.

Um convite a parceiros, sonhadores e apoiadores

Este é um convite aberto. Aos que enxergam na cultura uma força diplomática. Aos que acreditam que os encontros mudam o mundo. Aos que sentem que o Brasil é mais do que se vê nos noticiários.

O projeto Brasil Extraordinário já foi aprovado pelo Ministério da Cultura via Lei Rouanet.

Empresas e pessoas físicas podem deduzir  do IR devido.

É uma oportunidade única de transformar vidas — e ainda obter benefícios fiscais — apoiando diretamente a produção cultural brasileira.

Fotos: Acervo pessoal e Secretaria Municipal de Turismo de Conde

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural. Siga os Instagrans de André@allconnecting @aondevaiandre

Leia todas as colunas sobre A Arte dos Encontros

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Respostas de 8

  1. parabéns. Que ótimo que está aprovado na LEI Rouanet, tem um pessoal de captação da SAUÍ que eu gostei muito de trabalhar com eles. Me fale se quiser o contato. Louca para ver na telinha o projeto

  2. André, que delícia ver suas experiências narradas de uma forma tão emocionante e que nos levam a percorrer os caminhos feitos por você com tanto interesse e curiosidade para tornar nosso Brasil mais conhecido. Parabéns, sucessos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse