Diário poético de uma residência: vivendo entre a loucura e a ancestralidade

O LONDRINENSE - foto principal

Reflexões críticas sobre a residência artística e processos criativos revelam questões estruturais sobre poder, identidade e políticas culturais

Por Edra Moraes

Se você está chegando nesta coluna agora, saiba que estou realizando uma residência artística em Portugal, no LAC. Na coluna passada, publiquei um artigo sobre residências artísticas em Portugal e editais de mobilidade que podem ajudar financeiramente. Vale a pena conferir, afinal, uma residência artística é sempre um investimento transformador.

Agora vou relatar algumas impressões e insights que emergiram durante este processo. Comecei minha jornada visitando lugares como Palácio de Queluz e a Torre do Tombo, que guardam importantes documentos da história portuguesa. O fundamental é compreender que D. Maria I, a “rainha louca” da história, foi, na verdade, uma das mais competentes rainhas de Portugal. Antes da traição do pai e do filho, governou com mão firme o país, eliminando inclusive o Marquês de Pombal que, segundo ela, já exercia mais poder que o próprio rei.

A história que se repete: reflexões sobre poder e loucura

Aqui a história revela um padrão perverso: uma rainha considerada piedosa e amada pelo povo, coordenadora de tratados diplomáticos e idealizadora da Academia de Ciências e Artes, entra para a história como “A LOUCA”.

Que mecanismo estrutural é esse que reduz mulheres competentes à loucura quando ousam exercer poder real?

Ancestralidade acanhada: arqueologias do cotidiano

A experiência da residência portuguesa desvelou conexões inesperadas. Sinto uma familiaridade nos gestos, na decoração, nas falas de minha mãe, seus ditados, sua forma objetiva de comunicar que às vezes parecia grosseira. Este acanhamento de descender de portugueses, este descender sem vantagens, guardado na gaveta quase como um segredo. Foi assim que descobri, por curiosidade, que o ditado materno “a língua é o bacalhau do c*” faz sentido literal aqui, onde um tipo de chicote é chamado bacalhau. A língua guarda segredos que a história oficial silencia, e é nos ditados populares que encontramos as verdadeiras arqueologias do cotidiano.

Tudo isto não me deixa orgulhosa nem envergonhada, apenas me reconhece: miscigenada, brasileira, com negro, índio e português correndo nas veias, sem fronteiras definidas de ancestralidade.

Lagos: o Laboratório Criativo em ação

Depois de uma semana percorrendo Lisboa, fomos para Lagos assumir a residência e iniciar os trabalhos. Vocês que me acompanham sabem: nos primeiros dias participamos da Feira do Livro de Lagos, depois realizamos o lançamento e a abertura da exposição “As Lavadeiras” no LAC.

Para esta nova empreitada, a escolha do corpete e da saia pannier como ícones para a instalação poética não foi casual. O corpete funciona como elemento de opressão, uma espécie de exoesqueleto que materializa uma reflexão central: “a opressão começa nas medidas, uma opressão feita de medidas inviáveis e lacinhos de cetim.”

A feminilidade exige uma forma específica? Uma ampulheta, um exagero dos contornos naturais?

A política das medidas: entre o luto e a loucura

Logo no início, tirando as medidas, uso meu próprio corpo: “eu sou a medida do meu mundo” – sejam estas medidas perfeitas, desejáveis ou não.

D. Maria I foi destituída porque “exagerou nas medidas do luto”. Após perder o marido e outros entes queridos, e enfrentar eventos trágicos, entrou no que chamavam melancolia, a nossa conhecida depressão.

Durante meus estudos sobre depressão, conheci a síndrome do coração partido, que pode deixar cicatrizes físicas como um enfarto, sem que se tenha enfartado. Então desenvolvo estudos em cerâmica explorando essa questão: como consertar um coração partido? Qual o tempo “ideal” de luto? As empresas concedem três dias, a tradição religiosa sugere um ano, mas qual medida é realmente adequada?

Esta reflexão sobre medidas me atinge diretamente: sou artista, constantemente rotulada como “exagerada”. Erro nas medidas, e isso pode ser perigoso para uma mulher. Sentir demais te faz exagerada; não sentir te faz fria. Qual medida realmente agrada aos parâmetros sociais?

Uma residência artística transcede a criação isolada, torna-se um laboratório de identidades e espaço de confronto intelectual

Fotos: Acervo principal

Análise crítica: o que revela uma residência artística

Finalizo a instalação experimentando uma abordagem diferente: trash art combinando arame, tecido e cerâmica. Retorno com insights que se tornarão meu próximo livro: “Eu dei um beijo na boca da loucura e as estrelas afiaram a minha língua” – falando não apenas de Maria I, mas de todas nós que, em algum momento, “perdemos as medidas”.

Os dados são reveladores: uma residência artística transcende a criação isolada. Constitui-se como laboratório de identidades, espaço de confronto entre o que somos e o que imaginávamos ser, entre idealizações e execuções concretas. Funciona também como espelho crítico das políticas culturais que possibilitam ou impedem esses encontros transformadores.

Quando artistas brasileiros vivenciam processos criativos em outros contextos, não apenas ampliam práticas artísticas, mas redescobrem camadas identitárias que permaneciam invisibilizadas.

A experiência portuguesa me coloca diante de questões estruturais fundamentais:

  • Como nossas ancestralidades europeias foram romantizadas ou negligenciadas pelas narrativas oficiais?
  • Que papel efetivo as residências artísticas desempenham na construção de pontes culturais?
  • Como a história de uma mulher pode espelhar lutas históricas coletivas?

A instalação final materializa-se através deste poema-manifesto:

#LoucasSomosTodas

Somos Joana, loucas de amor,
Rasgadas em ciúmes nunca justificáveis.
Se fiéis, traídas. Se traídas, loucas.

Somos D. Maria, as melancólicas,
Afastadas do trono
Por nossa profunda tristeza.

Somos Joana d’Arc, guerreiras,
Ouvindo chamados de um Deus.
Hereges e santas.

Somos Maura, frágeis.
Cansadas da própria inadequação,
Voluntárias da própria internação.

Somos Dilma, presidentas,
Difíceis e honestas,
Inegociáveis são nossas metas.

Somos Frida, arte e dor,
Em autorretratos viscerais
Expondo as próprias feridas.

Inadaptadas a um mundo insano.
Loucas!?

Foto principal: Artista: Edra Moraes – Título: #LoucasSomosTodasData: 2025 –Técnica/Materiais: Aramado, arame, cerâmica crua, tinta preta fosca – Dimensões:  altura 1 mt, largura 1,10 mts, profundidade 25 cm – Série: peça/estudo para a Instalação – Eu dei um beijo na boca da loucura e as estrelas afiaram a minha língua.

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

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Respostas de 9

  1. Estou adorando esse diário da residência! Muito bem posto! Mulheres inteligentes, são na maioria das vezes taxadas de loucas ! Mulheres artistas ,pior! Até qdo!?

  2. Edra, incrível trajetória no universo artístico. Buscar na história fatos que se repetem ainda hoje em relação a nós mulheres, traz conforto. Não. Não é nossa a culpa em sermos sensíveis o suficiente para sofrer. É preciso ter coragem para “sofrer”.
    Avante!!!! Incrível.

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