Meus encontros em uma terra sagrada, onde a fé dança com a cultura e a simplicidade guarda grandezas ancestrais
Por André Luiz Lima
Pescadores de Jangada desafiam o indomável com coragem e fé. Entram e saem com as marés, em silêncio e oração, como quem conversa com um mistério antigo. São homens e mulheres guiados pelo instinto, pela escuta das águas, pelas ondas pessoais que também carregam dentro do peito.

No vai e vem do mar, navega o desafio da existência: a entrega, a proteção, a energia que se funde à natureza e revela um poder que não se domina — apenas se respeita.
Assim foi meu encontro com a cidade do Conde, na Bahia. Terra onde o invisível tem voz, onde o céu parece mais perto e onde a arte encontrou morada. Exuberante em todos os sentidos do Nordeste, o Conde distribui ao mundo sua força serena, sua espiritualidade viva, seu axé profundo.
Ali, parece que as portas do céu se abriram… e a arte dos encontros se aconchegou.


A presença africana pulsa em cada esquina, nos rituais que ecoam, na sabedoria dos mais velhos, nos tambores que embalam o chão. O sincretismo religioso floresce com respeito: Nossa Senhora e Iemanjá dividem o altar, o sagrado se mistura ao cotidiano, e tudo se une em harmonia e proteção.

Cultura, fé e resistência dançam juntas nas feiras, nos aromas dos temperos, nos sabores do dendê, na generosidade das mesas postas e dos abraços sinceros. A simplicidade é um escudo sagrado que protege os grandes — e abençoa a todos nós.
Na exuberância de um Nordeste que se impõe com ternura e força, o Conde se ergue como um lugar onde a arte encontrou casa e o céu parece mais perto.
Cheguei ao Sítio do Conde, parte desse município abençoado por uma exuberância natural que parece cantar por todos os lados. Cercado por manguezais densos, marés vivas e um verde que pulsa, há ali uma energia ancestral que parece fazer morada no chão — como se a terra tivesse memória e rezasse por quem chega.

Como disse o pensador indígena Ailton Krenak, não podemos nos colocar fora da natureza — somos parte dela. Não existe separação entre o humano e o rio, entre o corpo e o chão, entre o pensamento e o vento. Essa terra que canta também nos canta. Essa mata que respira também nos respira. No Conde, essa percepção não é filosofia distante: é experiência cotidiana. Tudo está ligado. Tudo é um só corpo.

A entrada do Sítio do Conde emociona: taboas e vitórias-régias emolduram o caminho, os coqueirais se inclinam ao vento como quem saúda, e uma sensação suave — mas profunda — toma conta: é como entrar em um lugar consagrado, guardado pelo tempo e pela natureza.
Conde e Tieta
O Conde é mar, é chão fértil e céu largo. Com mais de 20 praias distribuídas ao longo de 100 km de litoral, o município possui uma das maiores faixas costeiras da Bahia. Entre elas, destacam-se a Praia de Barra do Itariri, com seu rio que encontra o mar; a Praia de Siribinha, reduto de pescadores e tranquilidade; e a Praia de Sítio do Conde, com sua longa extensão, águas mornas e coqueirais intermináveis. Há ainda praias quase desertas, como a de Poças e a de Barra do Catu, que preservam um silêncio sagrado, como um segredo entre a areia e o vento.


Foi nesse cenário que Cacá Diegues escolheu filmar cenas de Tieta. E não à toa — o lugar guarda uma beleza selvagem, intensa e autêntica, que não se exibe: simplesmente é.
Dormir com o som do mar forte e constante,foi como um rito de passagem. Acordei com um café da manhã servido com cuscuz recheado de linguiça e queijo, mandioca, ovos, pães e café com leite – sabores que abrem o corpo e o espírito para os encontros do dia.
No mercado, nos rituais, nas festas, nas feiras perfumadas por coentro e dendê, o Conde celebra suas origens. Cada cheiro, cada cor, cada voz tem memória. É nesse cenário de fé e fartura que vive, ainda pulsando na lembrança do povo, a presença do Frei Fernando Brito — figura profundamente amada, cuja história se confunde com a da própria cidade.
Frei Fernando chegou ao Conde na década de 1980 e não veio como quem visita, mas como quem se entrega. Atuou com uma dedicação visceral em defesa dos mais pobres, dos invisíveis, dos que resistem. Criou projetos sociais, valorizou a cultura local, incentivou o protagonismo popular e deu voz a pescadores, lavradores e artesãos. Um pai espiritual que também foi político, firme nas escolhas e generoso no acolhimento, enfrentando sem medo os interesses que desrespeitavam o povo. Sua luta ainda ressoa — como as ondas — nas ruas.
Onde o sagrado de manifesta
Entre tantas histórias de fé, a da Nossa Senhora do Monte, no Alto do Cruzeiro, é uma das mais marcantes do Conde. Após desaparecer da igreja e ser encontrada repetidamente no alto dum monte, a imagem da santa inspirou a construção de uma capela no local. Desde então, o espaço se tornou um santuário de fé e peregrinação, reafirmando o Conde como terra onde o sagrado se manifesta de forma misteriosa e viva.

Na minha caminhada por essas terras de encantos, fui acolhido por pessoas que pareciam já me esperar, como se os encontros já estivessem escritos. O Secretário de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer, Marcos de Bento, foi meu guia por tradições que estão sendo resgatadas com paixão, como a dos mascarados, e me mostrou, com brilho nos olhos, a força cultural pulsando nos becos, praças e memórias.




Estávamos na praça quando ele me disse: “Você precisa conhecer um artista. Mora logo ali.” E foi mesmo logo ali que bati à porta já aberta. Um homem estava sentado, de frente para a rua, observando em silêncio — como quem vê mais do que os olhos alcançam. Pedi licença, entrei, e ali começou outro capítulo do Brasil Extraordinário.

Zeca é personagem ímpar. Uma dessas almas que carregam séculos de cultura no peito. Nascido em Araci, no sertão da Bahia, filho único entre seis irmãs, formou-se em pedagogia, mas sua verdadeira escola foi a vida. Chegou ao Conde e ali fez sua morada, sua missão e seu palco. É médium, cozinheiro, cantor, contador de histórias e devoto de São Francisco de Assis.
Zeca participou do filme Tieta, de Cacá Diegues. E isso é só uma das muitas passagens da sua trajetória. Dono do restaurante Zecas, que mais parece um templo de encontros, ele já teve casa de shows, quebrou tabus, abriu portas. Canta Maria Bethânia com devoção, como se cada nota fosse uma oferenda. Caetano Veloso, Chico Anysio e tantos outros já passaram por sua casa, atraídos pela força do encontro, da música, da comida e da alma baiana.
Para Zeca, comer também é rezar. Conversando com ele, entendi que sua cozinha tem alma, e que preparar uma refeição é um gesto sagrado — como na Festa de Babette, onde a comida é celebração, entrega e cura. Ele não cozinha apenas para alimentar, mas para acolher. Cada prato que sai de suas mãos é carregado de história, bênção e ancestralidade.
E o mais bonito: Zeca é um entre tantos outros. O Conde está repleto de artistas, mestres populares, rezadeiras, artesãos e guardiões da cultura que resistem com doçura e dignidade. É terra de gente que sabe transformar simplicidade em grandeza. Gente que vive a Bahia com o coração aberto e o espírito em festa.
Tomar posse do que somos
No Conde, a simplicidade é proteção. A mistura de crenças é irmandade. A arte é cotidiana. E também é resistência, ensinamento e afeto. Fui guiado pelo motorista Beto Serra, conheci o artesão Libra, que desde pequeno constrói brinquedos e sonhos — por não ter os seus, passou a criar para os amigos. Sua criatividade cresceu com ele, e hoje seus trabalhos espalham beleza pela cidade. Libra agora deseja ensinar, transmitir seus saberes. Ao seu lado estava Rogério, outro artesão do Conde, que já restaurou obras de Aleijadinho — e talvez nem se dê conta da grandeza que carrega nas mãos.

Tive encontros com o prefeito Anízio Madeirol, com o presidente da Câmara Cristiano Cruz — que me deu uma aula de força, resistência, sabedoria e amor — e com Thamys, Ailton e Anderson, jovens com visão, espiritualidade e esperança.
E tudo isso que relato aqui — e talvez muito mais que não coube em palavras — aconteceu em apenas dois dias. Dois dias foram suficientes para sentir que Conde é um território de potência rara, de histórias profundas e de uma força ancestral que atravessa o tempo.
Ainda há muito por ouvir, ver e contar. Histórias de luta, resistência, fé, memória, arte. Mas, como sempre digo: é preciso ter olhos para ver — e o coração, para sentir.
O Conde me disse, com sua voz de mar, de terra, de santo e de feira: tome posse do que você é. Tome posse do que é seu.
Esse é o verdadeiro luxo: reconhecer o que temos, o que somos, o que nos foi legado.
O Brasil Extraordinário não é invenção. É espelho. Um espelho onde o brasileiro se vê por inteiro. Onde nos reconhecemos como povo criativo, generoso, ancestral, vibrante.


É preciso voltar os olhos para dentro, escutar nossas vozes, narrar nossas histórias, valorizar nossas festas, nossas comidas, nossos mestres, nossos silêncios e superações.
É preciso tomar posse da beleza que é nossa por direito. E contar ao mundo — e a nós mesmos — que aqui pulsa uma grandeza que precisa ser assumida, vivida, celebrada.
Essa é apenas a primeira parada e este relato é apenas um pequeno grão de areia nessa vastidão de misturas que somos.
Um país de muitos Brasis, de regiões e culturas que, apesar de suas diferenças, se unem em uma só nação.
Essa é a arte dos encontros. Esse é o Brasil que queremos (re)conhecer.
Esse é o Brasil Extraordinário.
Viva a vida, André!
Fotos: Acervo pessoal e Secretaria Municipal de Turismo de Conde

André Luiz Lima
Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural. Siga os Instagrans de André, @allconnecting e @aondevaiandre
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Respostas de 4
Amei!
Só em saber que a cidade a qual nasci, me criei está sendo divulgada com maestria, isso me deixa muito feliz. Conde de muitos encantos.
Amei o relato de André que retratou, com a sensibilidade que demonstra em cada um de seus encontros pelo Brasil e mundo afora, o que Conde é e oferece aos seus visitantes: arte, cultura, gastronomia, exuberância, história, lutas, e muito calor humano.
Parabéns, Conde, continue assim, simples e inspiradora.
Parabéns por me fazer viajar pelo nosso país maravilhoso através de seus olhos e suas viagens.
Cada nova experiência me leva a ter mais vontade de (re) conhecer o nosso Brasil.
Seus textos maravilhosos como sempre!