Por Ana Paula Barcellos
No último dia 15 de outubro, o mundo fashion parou para o Victoria’s Secret Fashion Show 2025, realizado em Brooklyn, Nova York – um evento que prometia glamour, asas de anjo e um sopro de inclusão após o hiato forçado da marca. Gigi Hadid, Bella Hadid, Adriana Lima e Candice Swanepoel desfilando com lingeries radiantes, celebridades como Sarah Jessica Parker e Patrick Schwarzenegger no pink carpet, e até a estrela da WNBA Angel Reese brilhando na passarela. Mas, entre os aplausos e os flashes, ecoou um ruído incômodo: os comentários nas redes sociais. Aqueles que nos lembram, com muita tristeza, não há um problema apenas com Victoria’s Secret, mas com todas as pessoas que são cúmplices na manutenção desses padrões tóxicos de beleza.

Pela primeira vez, Precious Lee, uma das poucas modelos plus size no casting da Victoria’s Secret, pisou na passarela com o mesmo apelo das “Angels” clássicas. Angel Reese, com suas curvas atléticas, representou um passo além – uma mulher que conquista o mundo do esporte também pode estar nas passarelas. A coleção “First Light” trouxe tons naturais em push-ups e teddies, um aceno sutil à diversidade de tons de pele.


Parece um pouco de progresso, né? Mas role as timelines do X (ex-Twitter), do Instagram e do TikTok, e o que você encontra é um festival de comentários preconceituosos e delirantes “Não tragam de volta as ‘pessoas gordas’ 😭”, como se corpos reais fossem uma praga a ser evitada. Ou pior: meninas e mulheres 25+ defendendo abertamente a busca por “corpos inatingíveis”, ignorando que o backstage histórico da Victoria’s Secret era um antro de dietas de fome e cocaína para sustentar essa ilusão.
A história da Victoria’s Secret não combina com corpos diversos?
É um absurdo que grita: “Isso não combina com a história da Victoria’s Secret” ou “tragam as anoréxicas de volta”. A marca, que sempre foi sinônimo de fantasia escapista, vendia o sonho de um corpo impossível – magro, alto, sem falhas. E o público? Adorava. Comentários pipocam dizendo que plus size “não tem a ver” com o legado de anjos alados, que o que as pessoas querem é exatamente isso: a aspiração por algo inalcançável, um estímulo para dietas radicais e cirurgias plásticas.

Uma usuária no X resume o pânico: “Vocês estão incomodados com 3 ou 4 plus size em quase 30 modelos? Victoria’s Secret sempre foi sobre energia de gostosa – se você não tem e não aceita ver outras mulheres tendo, o problema é seu”. Outro post diz: “A sociedade voltou a idolatrar o skinny look, e eu tenho que aceitar que meu corpo não foi feito para isso sem comprometer hormônios”. Dá uma tristeza profunda ver como internalizamos essa narrativa. Isso porque a inclusão é pouca e muito “performática”, já que só destacam um tipo de plus size – quadris largos, cintura fina e barriga marcada, ecoando o padrão BBL que finge quebrar barreiras, mas só as reposiciona.

E aí entra a culpa coletiva. Nós, que compramos lingeries sonhando com a versão photoshopada de nós mesmas. Nós, que curtimos posts de desfiles e reclamamos quando há curvas mínimas na tela. Nós, que, como sociedade, voltamos a cultuar o emagrecimento como virtude, ignorando que 70% das mulheres plus size se sentem fetichizadas ou invisíveis na moda. A Victoria’s Secret tentou se reinventar pós-2024, com mais trans e plus size no casting, mas insiders já chamam o show de “desastre” por não resolver a crise de identidade: sexy para quem, afinal? Enquanto isso, o X e o Instagram fervem com racismo velado contra Angel Rees e gordofobia descarada (“não usem modelos que não sejam magras, senão não compro”).
A gente também precisa querer, de verdade, mudar as coisas dentro da gente. Chega de consumir e desejar fantasia tóxica. Vamos consumir com consciência, cobrar representações plurais e lembrar que beleza não pode ser um delírio inalcançável. Anda cansativo demais, andar “pra trás” nunca esteve tão na moda…
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
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Respostas de 2
É isso Aninha! Por um mundo, aonde mulheres reais e com belezas multiplas, sejam aceitas!
Haha, Victorias Secret tentando ser inclusiva? É como tentar encaixar um gato num sofá! As críticas nas redes sociais são o reflexo da nossa própria turma: achamos que o angel ideal tem que ser mais magro que uma lâmina de barbear. Que ridículo! A verdade é que a nossa história de corpo perfeito é tão velha quanto a Victorias Secret, e a única coisa que realmente precisa ser substituída é essa ilusão! Que tal um show de moda com modelos reais, sem Photoshop? Que tal celebrar um corpo normal, com uns quilos a mais ou a menos? Vai cansativo demais andar pra trás, mas quem sabe, a moda finalmente comece a fazer sentido… e a gente também!