Por Marcelo Minka
Em um Brasil atravessado por incertezas, onde discursos autoritários retornam travestidos de soluções rápidas, O Telefone Preto 2 surge como uma inquietação coletiva projetada em tela escura. O filme ressoa especialmente em um país onde jovens deputados, com discursos morais e messiânicos, escondem por trás de suas retóricas inflamadas uma agenda de controle e silenciamento. Tal como o personagem O Pegador, figura mascarada que captura crianças enquanto diz protegê-las, esses personagens da vida real operam sob a mesma lógica simbólica, a do predador travestido de guardião.
Em tempos em que o passado insiste em reaparecer com a força de um pesadelo não resolvido, o cinema de horror volta a ocupar seu espaço simbólico: aquele onde traumas individuais ecoam os colapsos sociais. Dirigido por Scott Derrickson (A Entidade, 2012) e co-escrito com C. Robert Cargill (Doutor Estranho, 2016), O Telefone Preto 2 estreou esta semana nas telas da cidade.
Quatro anos após escapar do aterrorizante O Pegador, o agora adolescente Finney, interpretado por Mason Thames (O Telefone Preto, 2021) tenta retomar uma vida que o trauma insiste em corroer. Sua irmã mais nova, Gwen, vivida por Madeleine McGraw (Toy Story 4, 2019), passa a receber ligações impossíveis via o misterioso telefone preto em seus sonhos e a ter visões perturbadoras de três meninos sendo perseguidos num acampamento de inverno chamado Alpine Lake. Desconfiada, ela convence Finney a acompanhá-la ao local, em meio a tempestades e sombras ancestrais, na busca por respostas sobre o destino dessas crianças e a conexão devastadora com sua própria história familiar.
A direção de Derrickson não se contenta em recostar a narrativa sobre o trauma já vivenciado, ele empurra o conto para regiões mais obscuras do sobrenatural, mesclando horror psicológico com estética onírica. A sequência abandona parcialmente o confinamento opressivo do primeiro filme e transfere a angústia para ambientes amplos, neve, bosques, acampamentos, criando tensão pela diluição do espaço, onde o terror também se infiltra nos vazios. Entretanto, essa ambição narrativa por vezes engessa o ritmo, o filme se sobrecarrega em mitologias, noções religiosas e ambiguidade entre sonho e realidade.

O Pegador de volta no O Telefone Preto 2
Ethan Hawke (Antes do Amanhecer, 1995) retorna como o sinistro Pegador, agora assumindo uma presença espectral, mais nas frestas do imaginário do que nos corredores físicos, o que rende momentos inquietantes, ainda que, em muitos instantes, ele funcione como um ponto fixo em meio a uma narrativa que flutua demais. A jovem McGraw, por sua vez, conquista cenas de autonomia e protagonismo, sustentando a progressão dramática do filme, enquanto Thames lida com a sombra do herói torturado, tentando lidar com culpa, raiva e voz interior.
Apesar de recém-lançado, O Telefone Preto 2 já provoca debate em redes sociais e fóruns de cinema, dividindo opiniões entre os que veem profundidade em sua abordagem simbólica e os que esperavam uma experiência mais direta e aterradora. A expectativa é que o filme ganhe corpo nos próximos dias, conforme o público compreende seu ritmo mais introspectivo e suas ambições temáticas.
O Telefone Preto 2 oferece um ritual de inquietação visceral mais amplo do que o original: menos confinamento físico, mais labirintos mentais, menos respostas lineares, mais assombrações simbólicas. Não espere uma fórmula previsível: o filme desafia a suspensão de descrença e obriga o espectador a segurar o fio entre sonho e realidade. Quem busca apenas sustos fáceis pode sair insatisfeito, mas quem tolera ambiguidade será levado a encarar os escombros do trauma humano.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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