Por Edmilson Palermo Soares
O vinho da Madeira é um vinho licoroso com uma capacidade de guarda quase ilimitada, conseguindo sobreviver durante mais de dois séculos.
As vinhas nascem alinhadas em pequenos socalcos levantados numa região extremamente montanhosa, de encostas escarpadas e vales profundos. Situada no do Atlântico Norte, à mesma latitude de Casablanca, a Madeira beneficia de uma clima temperado e acentuadamente atlântico, com temperaturas amenas durante todo o ano.

Os solos são de origem vulcânica, férteis, muito ricos em matéria orgânica e ácidos, o que, aliado ao clima úmido, ao sistema de condução tradicional da vinha em pérgola, o que dificulta a maturação fisiológica das uvas, e aos rendimentos muito elevados, comprometendo a maturação das uvas, proporcionam vinhos com níveis de acidez muito elevados, característica marcantes de todos os vinhos da Madeira.
A vinicultura dessa região possui uma história rica, marcada por influências culturais, adaptações agrícolas e uma reputação internacional conquistada ao longo dos séculos.
A introdução da vinha na Madeira remonta ao século XV, pouco após o início do povoamento da ilha por colonos portugueses. As primeiras cepas foram trazidas da Europa continental, especialmente de regiões como Creta, Chipre e outras áreas vinícolas do Mediterrâneo. O clima subtropical da ilha, aliado aos solos vulcânicos, revelou-se ideal para o cultivo da videira, permitindo o desenvolvimento de uma agricultura voltada para a produção vinícola.
A fama internacional do vinha da Madeira
A vinicultura ganhou impulso significativo a partir do século XVI, quando o vinho da Madeira começou a ser exportado para o continente europeu e, posteriormente, para as colônias portuguesas e britânicas. O vinho madeirense tornou-se popular entre navegadores e comerciantes devido à sua capacidade de conservar-se durante longas viagens marítimas, graças a um processo único de envelhecimento e fortificação com aguardente.
Durante os séculos XVII e XVIII, o vinho da Madeira consolidou sua fama internacional, sendo apreciado em cortes europeias e nas colônias americanas. Há registros de que figuras como George Washington e Thomas Jefferson eram admiradores do vinho da Madeira, tornando-o símbolo de status e requinte.
Francisco I (1708/1765) afirmava que o vinho da Madeira era o mais rico e delicioso vinho europeu. As famílias mais importantes de Boston, Charleston, Nova Iorque e Filadélfia competiam entre si para adquirem os melhores vinhos da Madeira.
O Madeira era considerado, pela maioria das cortes europeias, um vinho de elevado requinte. Inclusivamente era utilizado para servir de perfume nos lenços das damas da corte. Na Inglaterra, o Madeira e o Vinho do Porto disputavam o primeiro lugar nas preferências da corte.
Duque de Clarence era um nobre inglês que após ter sido condenado à morte na sequência de um atentado contra o seu irmão Eduardo IV, escolheu morrer por afogamento num tonel de Malvasia da Madeira.
Na peça que Shakespeare escreveu para o Rei Henrique IV há referências ao vinho da Madeira. Na peça, a personagem Falstaaf vende a alma ao Diabo em troca de um pedaço de capão frio e um copo de Madeira.
Processos diferenciados
Na Ilha da Madeira existem dois processos de envelhecimento diferenciados:
Estufagem: O vinho é colocado em estufas de aço inox, aquecidas por um sistema de serpentina, por onde circula água quente, por um período nunca inferior a três meses, a uma temperatura entre 45 e 50° C. Concluída a estufagem, o vinho é sujeito a um período de estágio de, pelo menos, 90 dias à temperatura ambiente. A partir deste momento pode permanecer em inox ou ser colocado em cascos (tonéis) de madeira, até reunir as condições para o engarrafamento. Estes vinhos nunca podem ser engarrafados e comercializados antes de 31 de outubro do segundo ano seguinte à safra.
Canteiro: Os vinhos selecionados para estágio em canteiro (o termo vem do fato de se colocar as pipas sob suportes de traves de madeira, denominadas canteiros) são envelhecidos em cascos, normalmente nos pisos mais elevados dos armazéns onde as temperaturas são mais altas, pelo período mínimo de dois anos. Trata-se de um envelhecimento oxidativo em casco, desenvolvendo características únicas de aromas intensos e complexos. Os vinhos de canteiro só podem ser comercializados por pelo menos três anos contados a partir de 1.º de janeiro do ano seguinte ao da colheita.

A casta mais plantada na ilha, responsável por mais de 80% da produção total, é a Tinta Negra, uma casta tinta facilmente adaptável, capaz de se adequar aos quatro estilos de doçura. Na Madeira produzem-se igualmente outros vinhos.
As quatro castas brancas mais importantes são: Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia, que são vinificadas de forma a proporcionar diferentes graus de doçura: extra seco, seco, meio seco, meio doce e doce.
A fortificação com aguardente é outro elemento essencial, garantindo estabilidade e longevidade ao vinho. Os vinhos da Madeira podem envelhecer por décadas, desenvolvendo aromas e sabores complexos, o que contribui para sua reputação mundial.
A história da vinicultura madeirense também foi marcada por desafios, como a praga da filoxera no século XIX, que devastou vinhedos em toda a Europa. A recuperação da produção exigiu replantio de vinhas resistentes e adaptação de técnicas agrícolas. No século XX, a indústria enfrentou períodos de declínio, mas, graças a esforços de modernização e valorização da tradição, os vinhos da Madeira voltaram a ocupar um lugar de destaque no mercado internacional.
A vinicultura na Ilha da Madeira representa um legado histórico e cultural de grande importância. Com técnicas únicas, castas tradicionais e reconhecimento global, os vinhos da Madeira são uma expressão autêntica do savoir-faire português, continuando a encantar apreciadores em todo o mundo.
Foto principal: Descovering Madeira
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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