Os gatos pingados e os ecos do absurdo

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Por Ana Paula Barcellos

No último domingo, 16 de março, um grupo de manifestantes – uns gatos pingados – reuniu-se em Londrina para pedir anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023 — data que marcou um ataque às instituições democráticas em Brasília, uma tentativa golpista frustrada. A cena, porém, não foi de revolta massiva, mas de um paradoxo performático: algumas dezenas de pessoas, empunhando a bandeira dos Estados Unidos, gritavam por “fim da ditadura” em um país onde, ironicamente, protestos contra o governo são permitidos, frequentes e até incentivados.

A reivindicação por “fim da ditadura” soa como um eco desorientado da história. O Brasil viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985, período marcado por censura, repressão, tortura e eleições indiretas. Ditaduras não toleram protestos, muito menos contra si mesmas. Hoje, o país tem imprensa livre, eleições diretas e divisão de poderes — inclusive com o STF julgando os responsáveis pelo 8 de janeiro. Se há algo a ser combatido, é justamente o revisionismo que tenta equiparar democracia a autoritarismo.

O protesto do último domingo (16), em Londrina, foi um paradoxo perfomático: os poucos gatos pingados pediam o "fim da ditadura" num país onde protesto são permitidos
Fotos: Freepik

Outro espantalho agitado no protesto foi o “perigo comunista”. Comunismo, em sua definição clássica, propõe uma sociedade sem classes, com propriedade coletiva dos meios de produção. O Brasil, porém, é uma economia capitalista mista, com eleições pluripartidárias, empresários bilionários e uma Constituição que garante propriedade privada. Governos de esquerda não equivalem a comunismo — assim como governos de direita não equivalem a ditaduras. Confundir ideologias é sintoma de analfabetismo político.

Gatos pingados e bandeiras alheias

A manifestação em Londrina não mobilizou multidões. Na avenida Higienópolis, mal encheram uma quadra. Curioso notar a bandeira estadunidense, símbolo máximo da ironia: quem pede “liberdade” enquanto idolatra um país estrangeiro parece esquecer que patriotismo não se importa. O gesto revela uma subserviência cultural — e uma ignorância sobre o que, de fato, define soberania nacional.

Esta coluna acaba sendo mais um desabafo, eu sei. Protestar é legítimo, mas sem conhecimento, vira teatro e instrumento de manobra. Muitos dos que gritam “ditadura” ou “comunismo” nunca abriram um livro de história ou um jornal sério. Vivem em bolhas de WhatsApp, onde notícias falsas substituem reflexão. O perigo não está nos gatos pingados de Londrina, mas na falha educacional que abre brechas e no fim da verdade.

Enquanto houver quem prefira slogans a estudos, o Brasil seguirá navegando entre os extremos do absurdo. A democracia exige mais que paixão: exige lucidez. E essa, infelizmente, não se consegue com crônicas ou postagens de rede social.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

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