Por Telma Elorza
“Peguei nojo do meu marido. Há 2 anos descobri que ele é viciado em pornografia. Estávamos a muito tempo sem um sexo gostoso. Ele estava definitivamente brocha. Se masturbava todos os dias e por isso não dava conta em casa. Eu o amo, mas o sexo com ele sempre foi básico, o que sempre me deixou muito frustrada. Qualquer coisa que se faça além do trivial ele não reage bem. Na sequência, descobri que, entre as pornografias que assiste, tem uma leva muito grande de trans. Respeito elas. Acredito que toda forma de amor é válido. Mas…. Imaginar meu marido ficando excitado com uma trans me dá repulsa, cogitar a hipótese de já ter tido esse tipo de relação me faz ter enjoo. Nunca imaginei que me sentiria assim. A repulsa está cada dia maior. Meu amor está minando a cada dia mais e mais. O beijo dele parece ter gosto ruim. Em meio a uma transa senti algo terrível. O tesão deu lugar ao asco. Infelizmente eu não consigo mais. Não tem como pedir pra ele parar, é da natureza dele e eu respeito. O me deixa puta da vida é a mentira. Se gosta, fala. A pessoa fica se quiser. Estou deixando ele antes que o nojo vire ódio. Pra quem aceita e gosta, parabéns. Eu sinceramente sinto meu estômago embrulhar”.
Recebi essa situação num comentário de uma coluna antiga e, pra preservar a identidade da mulher, preferi não publicá-lo (gente, aprenda a criar e-mails sem identificação, ok? Cansei de apagar comentários porque a pessoa não imaginou que, ao cadastrá-lo no site, ele estaria disponível para quem quiser ver). Mas vamos lá, tentar ajudar a leitora.
Eu vejo aqui alguns problemas sérios que ela vem enfrentando no casamento e a decisão de deixá-lo, na minha opinião é acertadíssima. O primeiro deles é o parceiro viciado em pornografia. Isso costuma doer mais do que própria pornografia. E não é sobre vídeos. É sobre mentira, distância, rejeição (o fato de pensar que não é suficiente para ele, que é uma coisa comum de acontecer) e, claro, a comparação. E isso corrói qualquer relação.
O vício em pornografia existe e é muito comum, principalmente entre homens (sim, mulheres também são afetadas). Estudos e instituições como Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhecem comportamentos compulsivos no sexo como transtornos, principalmente quando passam a prejudicar a vida da pessoa e sua companheira. Quando alguém se masturba todos os dias, compulsivamente, perde o interesse pelo sexo real e pode desenvolver disfunção erétil (no caso dos homens). Não é “frescura da parceira” e nem culpa dela. Também não é “a natureza dele”. É um problema sério, que precisa ser tratado.
Mas o grande ponto: a parceira não é responsável por tratar o vício dele. Pode até apoiar, mas não pode salvar alguém que não quer se responsabilizar pelo próprio vício (assim como no alcoolismo e outras drogadições). Nenhum tratamento vai ser efetivo se a pessoa não quiser se tratar.
Outro ponto delicado é a pornografia com mulheres trans. E aqui quero fazer parênteses para separar as coisas com maturidade: sentir atração por mulheres trans não define a orientação sexual de ninguém. Mulheres trans são mulheres. Ponto. Muitos homens heteros consomem esse tipo de conteúdo pornô, têm fetiche de transar com uma. Isso, por si só, não significa nada, nem define caráter. É uma fantasia que muitos não vão nem realizar.
Porém, o que ela está sentindo também é legítimo. Repulsa não nasce do nada. Ela costuma aparecer por algumas questões. O problema central, na minha concepção, não é ele ver pornôs com trans. O problema é ela se sentir enganada, sexualmente insatisfeita (o marido nunca foi bom de cama, nunca a fez ter orgasmos poderosos) e emocionalmente desrespeitada. O fetiche por trans simplesmente foi a gota d’água. O relato mostra claramente três feridas abertas: frustração sexual antiga, mentira e perda da admiração pelo homem que é seu parceiro.
O sexo “básico” (imagino um papai e mamãe muito sem sal e tesão), resistência a experimentar coisas novas e pau mole por causa da punheta excessiva criaram um cenário de abandono dentro da relação do casal. Isso machuca qualquer autoestima e muitas ainda se perguntam: “o que tem de errado comigo”? Nada. O problema não é a mulher.
Nojo é sinal de algo profundo
E quando o nojo aparece, é sinal que algo profundo na relação quebrou. O corpo fala antes da cabeça. Se o tesão virou asco, isso não é uma coisa que ninguém deve relevar. É algo que precisa de atenção e de uma atitude firme. A minha atitude seria cair fora dessa relação e rápido. Porque, insistir numa relação assim é se desrespeitar, física e emocionalmente. É como se deixar ser estuprada todos os dias. Sim, o corpo está dando sinais claros que a leitora está infeliz e traumatizada, como se estivesse sendo estuprada. E uma das coisas que mais falo aqui é sobre consentimento legítimo. Ficar nessa relação traumática é consentimento tomado à força. E isso não é bom para sua saúde mental.
É possível até sugerir que o parceiro busque tratamento, acompanhamento especializado, grupos de apoio, etc. Mas a mulher nessa situação TEM que se afastar, urgentemente. Não esperar para ver. Porque quando o nojo aparece, o respeito, confiança e admiração já voaram para longe e dificilmente voltam E que pessoa sã ficaria do lado de alguém que não respeita, não admira, não confia?
E saia da relação sem culpa. Não se pode aceitar algo que causa dor (e sabemos que nem é por causa das mulheres trans, elas só mexeram com os limites) por todo o contexto da relação. Não é possível normalizar viver com nojo, ressentimento e frustração constante. Isso adoece gravemente qualquer pessoa. Também não é errado largar o companheiro para se salvar. Todo mundo merece uma vida sexual e emocianal plena, satisfatória, com tesão e respeito mútuos.
Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br
Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
Leia mais colunas Tia Telma Responde
Siga O LONDRINENSE no Instagram e Facebook
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.
