Ghibli Fest: curadoria de imaginação

01

Por Marcelo Minka

Quando a gente passa o dia pulando de crise em crise e de tela em tela, existe um tipo de acontecimento que parece pequeno, mas é quase um antídoto. O Ghibli Fest, no Cineflix do Shopping Aurora, devolve ao cinema uma ideia rara: a de que a imaginação pode ser adulta sem ser cínica. Não é sessão nostalgia por si só. É a chance de ver, em tamanho grande, um estúdio que sempre tratou crianças como gente e adultos como seres capazes de reaprender a sentir.

Mas vamos por partes. O Studio Ghibli é um estúdio japonês de animação fundado em 1985, associado principalmente a Hayao Miyazaki e Isao Takahata, e responsável por alguns dos filmes mais influentes da história da animação. A relevância dele para o cinema não é só ter criado “clássicos”, mas ter provado que animação pode carregar a mesma densidade emocional, complexidade moral e sofisticação formal do melhor cinema de atores. Para a arte, o Ghibli virou referência por unir desenho e movimento com um senso de composição, luz, paisagem e ritmo narrativo que dialoga com pintura, literatura e até arquitetura, sem perder o vínculo com o cotidiano. Quando a gente fala de Ghibli, não é “desenho para criança”. É cinema, no sentido mais completo da palavra.

O Ghibli Fest, no Cineflix do Aurora Shopping, em Londrina, funciona como uma curadoria de portas de entrada para o trabalho maravilho do Studio Ghibli
Fotos: Divulgação

Ghibli Fest, uma curadoria para quem não conhece os filmes

O Ghibli Fest funciona como uma curadoria de portas de entrada. Se você nunca viu uma animação Ghibli no cinema, comece por A Viagem de Chihiro. Ele é o melhor “primeiro encontro” e também o melhor filme do pacote para o público porque conversa com qualquer idade e com qualquer momento histórico: um país que muda rápido demais, uma família deslocada, e uma protagonista que precisa aprender regras invisíveis para não ser engolida por elas. Em tela grande, o detalhe vira linguagem. O silêncio vira música. E a moral do filme não é lição, é experiência.

O Castelo Animado é a escolha para quem quer romance, ambiguidade e beleza em estado líquido. O filme parece dizer que a guerra sempre chega como ruído de fundo, mas o que importa é o que você faz com o seu medo dentro de casa. Howl é espetáculo e fuga, e Sophie é a coragem construída passo a passo, sem discurso.

Meu Amigo Totoro é o mais simples e por isso o mais perigoso para quem acha que já “entendeu” o Ghibli. A grandeza está na delicadeza. Ele não corre atrás de conflito, ele cria presença. Na sala escura, você percebe como o filme respeita o tempo da infância e o tempo da natureza sem virar decoração.

O Serviço de Entregas da Kiki é o retrato mais honesto do bloco criativo, da ansiedade de desempenho e da solidão de quem está começando. Ele fala muito com o nosso presente, em que todo mundo precisa “se vender” o tempo inteiro. Kiki aprende que talento não é uma torneira sempre aberta e que amadurecer também é aceitar dias comuns.

Ponyo, por fim, é o Ghibli em modo encantamento. É um filme que se recusa a escolher entre o infantil e o grandioso. Ele aposta na força do afeto e na ideia de que o mundo natural não é cenário, é personagem. Se você quer sair do cinema mais leve, mas não vazio, Ponyo entrega.

O Ghibli Fest é, no fundo, um lembrete: ainda dá para ir ao cinema para encontrar beleza, e não somente para consumir história.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

Me siga no Instagram: @marcelo_minka 

Leia todas as colunas de Cinema

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse