Meu marido quer usar calcinha. Devo me preocupar?

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Pode me explicar como um homem usar uma lingerie não é homossexualismo? Meu marido me perguntou se poderíamos transar com ele usando calcinhas, disse que é um sonho antigo. Mas estou chocada e com nojo de pensar nessa possibilidade.”

De vez em quando, eu recebo e-mails abordando esse tema, homens que gostam de usar lingerie – calcinhas, principalmente. Então vamos, de novo, falar sobre isso.

Querida leitora, primeiro, respire. Guarde o desmaio para outra ocasião. Deixa eu explicar com calma, mas já afirmo que usar calcinhas na hora da transa não significa que ele seja gay. Uma coisa não tem absolutamente nenhuma relação com a outra.

Antes que você jogue fora todas as cuecas dele e o expulse de casa, saiba que a prática de usar lingerie é algo comum e não tem nada a ver com a sexualidade. Não é porque um homem foge dos padrões “masculinos” que ele é homossexual.

Primeiro, porque orientação sexual diz respeito a quem desperta desejo afetivo e sexual. Simplificando de uma forma bem grosseira: um homem hetero sente atração por mulheres. Gays sentem atração por pessoas do mesmo sexo. Ponto.

Roupas, fantasias e fetiches pertencem a outro departamento da mente humana. Há homens heteros que adoram cozinhar, outros que fazem balé e alguns costuram, fazem crochê e nada disso o faz “menos homens”. E há alguns que sentem excitação sexual ao vestir calcinha. E isso também não muda automaticamente a orientação sexual dele.

E, por incrível que possa parecer a você, esse tipo de fetiche é bem comum, embora seja muito discreto. A maioria dos homens que o tem – e praticam – dificilmente vai admitir, principalmente para as companheiras, principalmente pelo medo de que elas reajam como você, o classificando como gay por causa de uma fantasia.

Seu marido foi muito corajoso ao partilhar com você esse fetiche. Ele deve amá-la e confiar muito em você para partilhá-lo. O desejo deve ser antigo, provavelmente guardado durante anos por medo da sua reação. Mesmo assim, ele resolveu dividi-lo. Palmas para ele. Teve um leitor aqui que escondeu suas fantasias e fetiches por 39 anos. Um absurdo.

O fetiche por lingerie é algo que vem desde que se inventaram essas peças íntimas. A partir do momento em que se passou a esconder a nudez sob as roupas, criou-se “o mistério do corpo”. Saber ou ver a cor da calcinha da prima (ou coleguinha) é um dos maiores desejos dos meninos quando entram na puberdade. Muita punheta foi tocada lembrando a nesga da calcinha ou do sutiã, visualizada rapidamente em um momento de distração da menina. Com o tempo, a maioria perde o interesse por essas peças e passa a se preocupar com o recheio delas. Mas, para alguns, a experiência foi tão intensa e prazerosa, que fica marcado a vida toda.

Alguns homens mantêm essa fantasia comprando e presenteando a companheira com lingeries sexys. Alguns, no entanto, desenvolvem o fetiche ao extremo e a calcinha passa a ser o objeto do desejo. Ver somente não é suficiente, eles precisam vesti-las. Em casos mais raros, dispensam até a parceira, focando só na peça. Esses sim, precisam de ajuda profissional, porque a vida sexual acaba prejudicada. Se uma pessoa não consegue se relacionar com outra por causa de um objeto, algum problema tem e é bom buscar um psiquiatra.

Então, minha amiga, fica tranquila. Seu marido é um homem hetero e funcional. Apenas tem um fetiche fixado em calcinhas. E vocês podem ter uma vida sexual maravilhosa, se você entender isso.

Você não é obrigada a transar com ele usando calcinhas

Porém, há um detalhe. Você não é obrigada a realizar esse sonho dele. E aqui está a parte mais importante da conversa.  

Você precisaria dar seu consentimento para a realização dessa fantasia. Assim como ele foi corajoso de propor, você também tem o direito de dizer que não consegue lidar com isso. Sem culpa e sem chantagem emocional, se lhe causa desconforto. Você disse que sentiu choque e nojo. Esses sentimentos são reais e não podem ser ignorados. E não sou eu quem vai dizer que você “deveria” reagir de outra forma.

Cada pessoa tem seus próprios limites, construídos pela educação, cultura, experiências de vida e preconceitos inculcados pela sociedade.

Mas deixa eu fazer uma pergunta. Você conseguiria participar dessa fantasia uma única vez? Para ver se seria tão nojento como você acha que é? Eu posso garantir uma coisa: quando a gente deixa os preconceitos de lado, abre-se uma porta que mostra caminhos incríveis. Principalmente quando se trata de sexo. Aceitar participar de um fetiche do seu marido, pode ser uma experiência enriquecedora em termos de intimidade. De um tesão renovado, de confiança e amor.

E, amiga, você não precisa responder agora. Talvez, quem sabe, um dia.

O que você não pode fazer é transformar a confissão dele em um tribunal. Não o chame de viado, pervertido ou faça piadas com a vulnerabilidade que ele revelou a você na confiança. Isso pode matar a vida sexual de vocês e a chance dele nunca mais confiar em você para qualquer assunto íntimo é enorme.

Por outro lado, ele também precisa entender que dividir uma fantasia não garante sua realização.

Relacionamentos saudáveis funcionam assim. Um propõe, o outro avalia, conversam, expõe seus pontos de vista – inclusive o porquê da fantasia –  e chegam (ou não) a um acordo. Ninguém é obrigado a nada.  É o primeiro passo para vocês entenderem melhor um ao outro.

Mas fica tranquila. Independente de realizarem ou não o fetiche da calcinha, ele não é gay.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

O marido da leitora propôs transarem com ele usando calcinhas. Ela ficou chocada e quer saber como um homem hetero pode ter desejos assim
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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