Moana: quando a tradição se transforma em franquia

Moana-

Por Marcelo Minka

Chegam as férias escolares e, como acontece todos os anos, os filmes destinados ao público infantil e familiar tomam conta das telas. Não se trata apenas de uma coincidência de calendário. Crianças fora da escola, pais em busca de programas compartilhados e salas de cinema transformadas em extensões dos parques de diversões criam a temporada ideal para animações, aventuras fantásticas e personagens já conhecidos. É nesse ambiente cuidadosamente preparado que chega a nova versão de Moana, agora recriada em ação ao vivo pela Disney.

O termo “ação ao vivo”, contudo, precisa ser utilizado com alguma cautela. Embora Catherine Laga’aia apareça fisicamente como Moana e Dwayne Johnson retome o papel do semideus Maui, grande parte do oceano, das criaturas, das paisagens e até da corporalidade fantástica dos personagens depende de imagens digitais. O resultado é um filme protagonizado por atores reais, mas construído dentro de um mundo cuja materialidade continua essencialmente animada.

Dirigido por Thomas Kail, conhecido principalmente por seu trabalho no teatro musical, o novo Moana reencena com grande fidelidade a animação lançada em 2016. A jovem filha do chefe da ilha de Motunui sente-se chamada pelo oceano e parte em busca de Maui para devolver o coração roubado da deusa Te Fiti. Ao restaurar o equilíbrio da natureza, deverá também recuperar a memória marítima de seu próprio povo.

O problema central do filme não está propriamente na história, que permanece eficaz, mas na dificuldade de justificar sua repetição. A nova versão de Moana reproduz personagens, canções, situações cômicas, conflitos e imagens que ainda permanecem muito vivas na memória do público. Diferentemente de narrativas antigas, revisitadas depois de várias gerações, passaram-se apenas dez anos desde o lançamento da animação original — e somente dois anos desde Moana 2.

Essa proximidade produz uma estranha sensação, o espectador não está exatamente diante de uma nova interpretação, mas de uma lembrança reconstruída com outros materiais. A Disney parece menos interessada em reler sua obra do que em comprovar que uma propriedade intelectual de sucesso pode ser reapresentada indefinidamente.

A própria animação de 2016 já havia realizado algo importante dentro da história do estúdio, Moana não era uma princesa à espera de casamento, tampouco sua trajetória dependia de um romance. Seu desejo era atravessar o recife, conhecer o oceano e compreender sua posição dentro de uma linhagem. A aventura não conduzia a personagem para fora de sua cultura, mas para uma camada mais profunda dela.

Moana aprende a navegar pela relação sensível com o ambiente, o corpo tornando-se instrumento de conhecimento, enquanto mão mergulhada na água percebe o movimento das correntes, os olhos reconhecem estrelas e aves, a pele sente a direção do vento. É uma forma de saber inseparável da experiência, transmitida de geração em geração.

Nesse ponto, o filme apresenta às crianças uma ideia socialmente relevante, há conhecimentos que não nasceram nas universidades, nos livros ou nos laboratórios ocidentais, existem saberes indígenas, marítimos e tradicionais que resultam de séculos de observação e experiência. Moana contribui, ainda que dentro dos limites de uma produção comercial, para deslocar a imagem dos habitantes das ilhas do Pacífico como povos isolados ou passivos, eles surgem como navegadores, exploradores e produtores de conhecimento.

A produção original procurou trabalhar com antropólogos, linguistas, navegadores, artistas e representantes de diversas comunidades do Pacífico por meio de um conselho conhecido como Oceanic Cultural Trust. Essa colaboração influenciou desenhos, músicas, embarcações, movimentos corporais e elementos narrativos.

Entretanto, consultar uma cultura não elimina automaticamente os problemas da representação. A Polinésia não constitui uma sociedade única e homogênea. Samoa, Tonga, Taiti, Havaí, Aotearoa/Nova Zelândia e outras ilhas possuem histórias, línguas, mitologias e estruturas sociais próprias. Para criar um produto compreensível ao público mundial, a Disney reúne referências distintas em uma espécie de identidade pan-pacífica.

O procedimento produz visibilidade, mas também simplificação e aquilo que pertence a diferentes comunidades passa a formar um grande cenário cultural reconhecível, colorido e consumível. Estudos sobre a recepção do primeiro filme apontaram justamente essa ambiguidade, Moana foi celebrada por muitos espectadores das ilhas do Pacífico, mas também criticada por condensar culturas diversas e transformar figuras sagradas em personagens de entretenimento no melhor estilo “tudo por dinheiro”

Dwayne Johnson possui carisma, presença física e uma conexão biográfica com a cultura samoana, mas sua condição de celebridade também interfere no personagem. Em vários momentos, não vemos propriamente Maui, mas “The Rock” fantasiado de Maui. O ator tornou-se uma marca tão poderosa que parece carregar consigo todo o sistema promocional do filme.

O live action de Moana é uma reprodução quase perfeita da animação e pode interessante para o público infantil, mas a Disney repete fórmulas
Fotos: Divulgação

A principal limitação do live action de Moana

Catherine Laga’aia, por outro lado, oferece uma Moana mais humana e vulnerável. Sua presença evita que a personagem se transforme apenas em uma cópia corporal da animação. Ela canta com segurança e estabelece uma relação afetuosa com a câmera mas, ainda assim, está presa a uma estrutura que lhe permite pouca invenção, precisando reproduzir uma personagem cuja aparência, gestos e personalidade já foram definidos e assimilados por milhões de crianças.

Essa é a principal limitação do projeto, a transformação da animação em ação ao vivo não acrescenta uma nova leitura cultural, política ou estética. Em certos momentos, ocorre justamente o contrário, a liberdade expressiva do desenho é substituída por corpos cercados por cenários digitais. O que, na animação, parecia espontâneo e imaginativo torna-se pesado, excessivamente calculado e algumas vezes artificial.

As canções de Lin-Manuel Miranda continuam funcionando, assim como a estrutura da jornada. O oceano permanece visualmente fascinante, e o filme certamente encontrará seu público durante as férias. Para muitas crianças, esta talvez seja a primeira experiência com a história de Moana, e não se deve subestimar a força de uma protagonista feminina que enfrenta o mar sem depender de um par romântico.

Mas existe uma diferença entre reconhecer a eficiência de um espetáculo e aceitar sua necessidade artística. O novo Moana é competente, vistoso e familiar e, justamente por isso, também parece incapaz de correr riscos. Sua heroína atravessa o recife, enquanto o filme permanece cuidadosamente protegido dentro das fronteiras de uma fórmula já testada.

Há uma ironia nessa operação, Moana conta a história de uma sociedade que precisa recuperar sua memória para voltar a navegar. A Disney, ao contrário, parece navegar apenas em direção à própria memória, retornando continuamente às imagens que já produziu.

Para o público infantil, permanece uma aventura generosa sobre coragem, pertencimento e responsabilidade diante da natureza. Para os adultos, contudo, fica uma pergunta menos confortável: quantas vezes uma mesma história pode ser refeita antes que a homenagem se transforme apenas em exploração comercial?

Moana atravessa o oceano para descobrir quem é, enquanto a Disney volta ao mesmo oceano porque já sabe exatamente quanto ele vale.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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