Se a inteligência artificial pensa, o planeta respira melhor?

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Por professor Renato Munhoz

A inteligência artificial chegou. E, ao que tudo indica, não pretende ir embora tão cedo. Ela escreve textos, cria imagens, organiza informações, sugere caminhos, reconhece padrões e, dependendo de como a utilizamos, pode até ajudar a enfrentar alguns dos maiores problemas ambientais do nosso tempo.

Mas aqui vai uma pergunta incômoda: para uma tecnologia tão inteligente, quanto ela está sendo inteligente para o planeta?

Quando falamos em inteligência artificial e meio ambiente, encontramos dois paradigmas que precisam caminhar juntos: as possibilidades e os desafios.

A inteligência artificial já é uma realidade. E com ela, estão dois desafios: as possibilidades que ela permite para reduzir impactos ambientais e os custos que ela representa em termos ambientais
Fotos: imagens produzidas por IA/Magnific

As possibilidades: quando a tecnologia pode ser uma aliada

A IA possui uma capacidade impressionante de analisar grandes quantidades de dados. Isso pode contribuir, por exemplo, para prever mudanças climáticas, identificar áreas de desmatamento, monitorar queimadas, reduzir desperdícios e melhorar a eficiência no uso da água e da energia.

Na agricultura, pode ajudar a identificar o momento certo de irrigar ou aplicar determinados insumos. Nas cidades, pode contribuir para organizar o trânsito e diminuir desperdícios energéticos. Na reciclagem, sistemas inteligentes podem auxiliar na identificação e separação de materiais.

Imagine uma tecnologia capaz de perceber um problema ambiental antes que ele se transforme em desastre.

Parece promissor. E é.

A inteligência artificial pode se tornar uma ferramenta importante para aquilo que chamamos de sustentabilidade inteligente: usar conhecimento, dados e inovação para tomar decisões melhores.

Mas existe um pequeno detalhe.

A tecnologia não tem consciência.

Quem precisa ter somos nós.

Os desafios: quando o invisível também polui

Existe uma tendência perigosa de imaginar que tudo aquilo que acontece no mundo digital não produz impacto ambiental.

Afinal, onde está a fumaça? Onde está o lixo? Onde está a poluição?

A resposta talvez esteja justamente naquilo que não vemos. A inteligência artificial depende de computadores potentes, servidores, centros de processamento de dados e uma gigantesca infraestrutura tecnológica. Tudo isso consome energia e demanda recursos naturais. Quanto mais utilizamos a tecnologia, maior se torna a necessidade de pensar sobre como essa infraestrutura é produzida, alimentada e descartada.

É curioso. Durante muito tempo acreditamos que o futuro seria menos material. Mas, para manter nosso mundo digital funcionando, continuamos dependendo de minerais, energia, água, equipamentos e uma cadeia produtiva bastante concreta.

A nuvem, afinal, não mora no céu. E talvez essa seja uma das grandes provocações do nosso tempo: não podemos chamar uma tecnologia de sustentável apenas porque ela parece invisível.

Entre o entusiasmo e o medo

Diante da inteligência artificial, existem dois grupos bastante conhecidos.

De um lado, estão os entusiasmados. Para eles, a IA resolverá praticamente todos os problemas da humanidade.

Do outro, estão os pessimistas. Para estes, estamos construindo a máquina que destruirá nossa criatividade, nossos empregos, nossas relações e, quem sabe, até o planeta.

Talvez seja hora de abandonar os extremos. A IA não será automaticamente a salvação ambiental do mundo. Mas também não precisa ser necessariamente uma nova ameaça.

Tudo dependerá das escolhas humanas. E aqui está a velha questão que continua extremamente atual: o problema não é apenas aquilo que a tecnologia é capaz de fazer, mas aquilo que nós decidimos fazer com ela.

Podemos utilizar a inteligência artificial para aumentar ainda mais o consumo, estimular a produção desenfreada e transformar tudo em mercadoria.

Ou podemos utilizá-la para compreender melhor os problemas ambientais, planejar cidades mais sustentáveis, combater desperdícios e criar novas formas de cuidado com a vida.

A pergunta que não pode ser terceirizada

Talvez a maior ironia da inteligência artificial seja justamente esta: enquanto as máquinas aprendem a responder perguntas cada vez mais complexas, nós continuamos tendo dificuldade para responder algumas questões bastante simples.

Quanto precisamos consumir?

O que realmente significa desenvolvimento?

Quem paga a conta ambiental da nossa tecnologia?

E, principalmente: queremos máquinas cada vez mais inteligentes vivendo em um planeta cada vez menos saudável?

A inteligência artificial pode calcular milhões de possibilidades em poucos segundos.

Mas existe algo que nenhum algoritmo poderá decidir por nós: qual futuro queremos construir.

Porque, no final das contas, sustentabilidade não é apenas uma questão tecnológica.

É uma questão de escolha.

E talvez o maior desafio da inteligência artificial seja este: garantir que, enquanto as máquinas se tornam mais inteligentes, nós não nos tornemos menos responsáveis.

A tecnologia pode ser artificial. A inteligência humana, esperamos, não.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

Me siga no Instagram: @profrenatomunhoz

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