Minha Melhor Amiga estreia nos cinemas londrinenses

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Com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, comédia encontra seu melhor assunto quando olha para mulheres obrigadas a descobrir quem são depois dos 50

Por Marcelo Minka

Há uma pergunta escondida sob a aparência solar de Minha Melhor Amiga. O que resta de uma pessoa quando os papéis que organizaram sua vida começam a perder força?

Durante décadas, uma mulher pode ser mãe, esposa, profissional, filha e ponto de equilíbrio de uma família. São identidades legítimas, mas construídas também em relação aos outros. Os filhos crescem, o casamento se transforma, o trabalho deixa de oferecer as mesmas respostas e o corpo muda. Surge então uma questão que a vida adulta consegue adiar durante muito tempo. Quem sou eu quando já não preciso ser tudo aquilo que fui?

É nesse território que a nova comédia de Susana Garcia encontra sua parte mais interessante. Minha Melhor Amiga, que estreou nos cinemas nessa semana, reúne Ingrid Guimarães e Mônica Martelli como Clara e Júlia, duas amigas na faixa dos 50 anos cujas filhas partem para um intercâmbio em Portugal. O vazio deixado pelas jovens desencadeia uma viagem à Europa e uma crise que já existia antes da partida.

A estrutura pertence à conhecida comédia de viagem. Há encontros, homens, constrangimentos, situações improváveis e belas paisagens europeias. O filme conhece os mecanismos do entretenimento popular e não demonstra vergonha disso. Por baixo dessa camada, Clara e Júlia representam uma geração de mulheres que conquistou uma liberdade muito maior do que aquela disponível para suas mães e avós, mas chegou à maturidade carregando novas exigências. Era preciso construir carreira, criar filhos, preservar relações, permanecer desejável, independente e emocionalmente disponível. A liberdade também ganhou sua própria lista de obrigações.

É aí que Minha Melhor Amiga toca numa questão contemporânea importante. Envelhecer deixou de significar apenas aceitar o desaparecimento social imposto às gerações anteriores. Existe agora outra cobrança. É preciso envelhecer bem, continuar bonita, viajar, namorar, trabalhar, fazer sexo, ter projetos e demonstrar vitalidade. A mulher madura conquistou o direito de não desaparecer. Em troca, recebeu a obrigação de continuar performando juventude.

O filme não desmonta completamente essa contradição. Em vários momentos participa dela. Suas protagonistas circulam por uma Europa bonita e pertencem a um universo social privilegiado. Existe ali uma maturidade cuidadosamente iluminada, vestida e fotografada. Isso limita o alcance da história, sem eliminar sua questão central.

Ingrid Guimarães e Mônica Martelli carregam para a tela algo que o roteiro sozinho não produziria. Amigas há muitos anos fora do cinema, transformam essa intimidade em ritmo, provocação e liberdade diante da câmera. A amizade feminina deixa de funcionar como elemento secundário e ocupa um espaço geralmente reservado ao romance.

Minha Melhor Amiga é uma comédia que trata de duas amigas que chegam à maturidade carregando novas exigências de vida, depois dos 50 anos
Fotos: Divulgação

A amiga como testemunha de indentidades

Durante muito tempo, o cinema ensinou que a grande história emocional da vida adulta era encontrar alguém para amar. Minha Melhor Amiga trabalha com outra possibilidade. Uma amizade atravessa diferentes versões de uma mesma pessoa. A amiga conheceu quem você era antes do casamento, viu fracassos, relações terminarem e convicções mudarem. Torna-se testemunha de identidades que já desapareceram. Uma amizade de décadas guarda um arquivo de quem fomos.

Clara e Júlia viajam porque suas filhas partiram, mas o verdadeiro movimento ocorre quando percebem que a ausência delas não precisa ser preenchida imediatamente por outra função. Enquanto as jovens experimentam a independência e constroem identidades longe das mães, as mães precisam aprender a existir sem organizar permanentemente suas vidas ao redor das filhas. As duas gerações enfrentam, em extremos diferentes, a mesma pergunta. Quem sou eu quando começo a viver por conta própria?

É uma boa ironia que uma comédia leve encontre aí seu assunto mais sério. Minha Melhor Amiga continua sendo uma produção comercial, construída para alcançar um público amplo, provocar identificação e produzir risadas. Algumas situações são previsíveis e certas discussões sobre envelhecimento permanecem mais confortáveis do que poderiam. Ainda assim, o cinema popular também registra transformações culturais.

Durante décadas, mulheres com mais de 50 anos apareceram no audiovisual brasileiro principalmente como mães, esposas, sogras ou personagens laterais da vida de alguém. Colocar duas delas no centro de uma narrativa sobre desejo, amizade, sexualidade, frustração e reinvenção produz uma mudança significativa de perspectiva. Não porque Clara e Júlia provem que mulheres maduras ainda podem ser jovens. Esse seria um argumento pobre. Elas não precisam voltar a ser jovens. Precisam descobrir o que fazer com a liberdade de já não serem.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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