Por professor Renato Munhoz
Nesta edição, iniciamos uma série especial de três artigos inspirados na obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo, do líder indígena, filósofo e ambientalista Ailton Krenak. Publicado em 2019 pela Companhia das Letras, o livro é uma compilação de palestras e reflexões que desafiam nossa visão de mundo, propondo perspectivas indígenas para enfrentar a crise ambiental e existencial que vivemos. Krenak, nascido no Vale do Rio Doce – uma região devastada pela mineração –, nos convida a questionar o que chamamos de “progresso” e “sustentabilidade”, revelando como essas ideias muitas vezes mascaram a destruição contínua da Terra.
Nesta série, percorreremos caminhos de reflexão guiado pelas principais ideias do livro, divididas em três partes, como os capítulos da obra. Começaremos hoje com a ideia inicial: a provocação de “adiar o fim do mundo” não como um ato heroico ou tecnológico, mas como uma prática cotidiana de reimaginar nossa relação com a natureza. Nos próximos artigos, exploraremos “Do sonho e da terra”, que nos leva a repensar nossas cosmovisões sobre habitar o planeta, e “A humanidade que pensávamos ser”, que questiona quem realmente somos como espécie.
Esse percurso não é linear, mas um convite para desacelerar, escutar vozes ancestrais e construir alternativas coletivas. Fique atento: cada artigo trará camadas mais profundas, revelando como as sabedorias indígenas podem nos ajudar a escapar da armadilha do colapso ambiental, o fim do mundo. Se você se sente perdido diante das mudanças climáticas, das enchentes ou da perda de biodiversidade, esta série pode ser o paraquedas colorido que Krenak menciona – uma chance de cair devagar e sonhar com outros mundos possíveis.
A ideia inicial de Krenak parte de uma crítica afiada ao “mito da sustentabilidade”. Ele argumenta que esse conceito, promovido por instituições globais como a ONU, é uma ilusão que sustenta o insustentável. Em vez de resolver as raízes da crise – como a visão ocidental que separa a humanidade da natureza, tratando rios, florestas e animais como meros “recursos” –, a sustentabilidade oferece soluções mínimas que raramente são implementadas.
No Brasil, por exemplo, vemos isso na elevação das emissões de gases de efeito estufa em 21,4% nos últimos sete anos, distanciando-nos dos Acordos de Paris. Krenak nos lembra que os povos indígenas resistem há mais de 500 anos a essa lógica predatória, não para “salvar o planeta”, mas para manter viva a ideia de que somos parte dele. “Adiar o fim do mundo”, para ele, é contar mais uma história, dançar mais uma dança, sonhar mais um sonho – atos que nos reconectam ao cosmos vivo, onde um rio em coma é nosso avô, e a Terra não é um palco para exploração, mas um organismo pulsante.
Pode-se evitar o fim do mundo?
Esse caminho que iniciamos hoje nos leva a questionar: e se o fim do mundo não for inevitável? E se, inspirados por Krenak, pudéssemos redefinir humanidade para incluir os excluídos – indígenas, quilombolas, caiçaras – e reconhecer múltiplas formas de viver? Nos próximos artigos, aprofundaremos essa jornada, explorando como sonhar com a terra e desconstruir a ilusão de superioridade humana. Não perca: as ideias de Krenak não são apenas teoria; são ferramentas para ação em um mundo à beira do abismo.
Atividade pedagógica: explorando o “Mito da Sustentabilidade” em sala de aula

Para encerrar este primeiro artigo, proponho uma atividade pedagógica que professores podem desenvolver em sala de aula, alinhada ao tema da semana: a crítica ao mito da sustentabilidade e a visão indígena de conexão com a natureza. Essa atividade é indicada para alunos do Ensino Fundamental II ou Médio, fomentando o debate crítico e a empatia ambiental.
Objetivo: Incentivar os alunos a questionarem conceitos cotidianos de sustentabilidade e a valorizarem perspectivas indígenas sobre o meio ambiente.
Materiais: Papel, canetas, acesso a internet ou livros sobre povos indígenas (como trechos de Krenak), e opcionalmente, materiais recicláveis para criação de arte.
Passos:
- Introdução (15 minutos): Apresente o conceito de “mito da sustentabilidade” com base em Krenak. Mostre exemplos reais, como campanhas publicitárias de empresas que promovem “verde” enquanto poluem (ex.: mineração no Vale do Rio Doce). Pergunte: “O que é sustentabilidade para vocês? É real ou uma ilusão?”
- Debate em Grupo (20 minutos): Divida a turma em grupos. Cada um pesquisa uma visão indígena sobre natureza (ex.: rios como seres vivos entre os Krenak ou Yanomami). Compare com a visão ocidental de “recursos naturais”. Discutam: “Como isso muda nossa relação com o planeta?”
- Criação Criativa (20 minutos): Os grupos criam um “paraquedas colorido” simbólico – um cartaz ou escultura com ideias para “adiar o fim do mundo”, como ações locais (plantio de árvores, redução de consumo) inspiradas em sabedorias indígenas.
- Compartilhamento e Reflexão (15 minutos): Apresentações e discussão coletiva: “O que aprendemos sobre humanidade e natureza?”
Avaliação: Observação da participação e análise dos cartazes, incentivando reflexões escritas sobre como aplicar essas ideias no dia a dia.
Essa atividade alinha-se à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que integra temas transversais como educação ambiental e valorização da diversidade cultural. Especificamente:
- Competências Gerais da BNCC: Competência 2 (Pensamento científico, crítico e criativo), para questionar mitos como o da sustentabilidade; Competência 9 (Empatia e cooperação), ao promover diálogo sobre perspectivas indígenas.
- Área de Ciências da Natureza (Ensino Fundamental): Habilidades como (EF07CI08) – Analisar impactos socioambientais de processos produtivos e discutir sustentabilidade; (EF09CI14) – Debater ações para preservação da biodiversidade, incluindo visões indígenas.
- Área de Ciências Humanas (História e Geografia): Habilidades como (EF08HI13) – Compreender contribuições de povos indígenas na formação cultural brasileira; (EF09GE10) – Analisar relações entre sociedades e meio ambiente, com ênfase em sustentabilidade e direitos territoriais indígenas.
- Temas Transversais: Atende à Lei 9.795/1999 (Política Nacional de Educação Ambiental), que prevê educação ambiental integrada e contínua, e à Lei 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, promovendo o respeito à diversidade e ao meio ambiente.
Foto principal: Pexels
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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