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PeNSE mostra recorte preocupante de uso de drogas por adolescente, segundo ABEAD

Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas aponta que é preciso medidas de prevenção mais eficazes que palestras

O LONDRINENSE com assessoria

O IBGE divulgou, nesta quarta-feira (13), dados sobre as séries históricas de 2009 a 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) com informações de alunos do 9° ano do ensino fundamental com frequência regular em escolas públicas e privadas dos Municípios das Capitais do Brasil. Estes dados trazem subsídios importantes que permitem conhecer e dimensionar os fatores de risco e proteção à saúde dos adolescentes do país.

Segundo a psiquiatra Alessandra Diehl, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD), “os dados sãos particularmente relevantes, especialmente porque sabemos que o maior risco para experimentação e abuso de álcool e outras drogas ocorre em períodos chamados de transição na vida das pessoas. Principalmente quando olhamos a passagem pela fase da adolescência já que estas transições incluem mudanças significativas no desenvolvimento físico (como a puberdade) ou em situações sociais (como pressões sociais, pertencimento e imagem corporal) quando então os adolescentes podem experimentar uma alta vulnerabilidade para problemas comportamentais como uso de substâncias e imagem corporal”, diz. Segundo ela, períodos de transição, em geral, são de risco para o uso de drogas e experimentação de determinados comportamentos não tão saudáveis, os quais podem se manter na vida adulta de forma problemática. “Por isso, que a prevenção deve ter mais ênfase nesses períodos e a adolescência é um destes”, afirma

Cigarros convencionais X cigarros eletrônicos

Entre os dados lançados pelo PeNSE, chamam a atenção a proporção de estudantes que consumiram cigarros convencionais, ao menos em um ou dois dias, nos 30 dias antes da pesquisa, caindo de 16,8% em 2009 para 13,1% em 2019.  Segundo a psicóloga Sabrina Presman do conselho consultivo da ABEAD, “embora o achado pareça ‘animador’, o estudo não incluiu a pesquisa dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) onde se enquadra o já conhecido cigarro eletrônico (vaping) de diferentes designs e, infelizmente, já tão populares entre os adolescentes brasileiros “, aponta ela.

As campanhas de marketing de cigarros eletrônicos parecem imitar a mesma fórmula já usada com bastante sucesso pela indústria do tabaco anteriormente ao ligar seu consumo a noções de liberdade, rebeldia e glamour, como foco nesta população de adolescentes e adultos jovens. Esse aumento é parcialmente impulsionado por uma falsa percepção pública de que o vaping é inofensivo, ou pelo menos, pouco prejudicial quando comparado ao fumar cigarros.

“Os fãs dos cigarros eletrônicos também argumentam que os fumantes atuais podem usar os dispositivos como uma ‘terapia de reposição de nicotina’ para ajudá-los a parar de fumar. No entanto, as pesquisas sobre os efeitos dos cigarros eletrônicos na saúde, embora ainda limitadas, estão se acumulando rapidamente, tornando-se cada vez mais evidente que esse hábito está longe de ser inofensivo. Para os jovens, é uma porta de entrada para a dependência de nicotina e de outras substâncias, uma vez que, em muitos casos, existe o uso do dispositivo juntamente com maconha. Estamos também tendo relatos de doenças respiratórias graves e até mortes relacionadas com vaping. Os casos relatados são de lesão respiratória, incluindo pneumonia eosinofílica aguda, desenvolvimento de pneumonia, síndrome da dificuldade respiratória aguda e pneumonite por hipersensibilidade. Também existe uma preocupação com relação a exposição passiva de fumaça por terceiros”, explica a psiquiatra

Bebidas alcóolicas entre as meninas

Outro dado interessante, de acordo com a ABEAD, é relativo a experimentação de bebida alcóolica entre os adolescentes que cresceu de 52,9% em 2012 para 63,2% em 2019. Esse aumento foi mais intenso entre as meninas, que saíram de 55% em 2012 para 67,4% em 2019. Para os meninos, o indicador foi de 50,4% em 2012 para 58,8% em 2019. Os achados reforçam o que os especialistas já sabem sobre consumo de substâncias entre meninas e mulheres ser um crescente problema na área da saúde pública com necessidade de mais destaque à questão, uma vez que urge a obrigação de antecipação às crescentes demandas da dependência química em mulheres.

“Nos dias atuais, sabemos que mulheres e homens podem usar drogas por motivos diferentes e respondem a eles de formas distintas. Muitas pessoas podem enfrentar problemas específicos no que diz respeito ao uso de substâncias, devido ao sexo e ao gênero. Sexo e gênero também podem interagir um com o outro para criar ainda mais complexas diferenças entre os indivíduos”, diz Alessandra Diehl. Isto ocorre em vários âmbitos da saúde e, também, não é diferente para a origem e para o desenvolvimento da dependência química, assim como, para a evolução de um melhor ou de um pior prognóstico. Isto tem implicações importantes também nas estratégias de prevenção do uso de substâncias para meninas e para a promoção de sua saúde.

Drogas ilícitas e os adolescentes

A experimentação ou exposição ao uso de drogas subiu de 8,2% em 2009 para 12,1% em 2019, o que “é particularmente preocupante”, segundo a psiquiatra Ana Cecilia Petta Roselli Marques, também do conselho consultivo da ABEAD. “Muito deste aumento acredita-se que possa ter se dado às custas da maconha já que seu consumo continua, infelizmente, a se tornar cada vez mais socialmente aceitável em muitos países ao redor do mundo”, diz ela.

Compreender os efeitos na saúde dos adolescentes deve se tornar mais uma prioridade e um chamado ao alerta global, segundo os especialistas. “Nos parece ingênuo apenas ensinar os adolescentes sobre os efeitos negativos do uso de drogas ou, então, apenas treinar professores para terem estas informações. É necessário aumentar o tempo de qualidade que as famílias passam com seus filhos, além da maior oferta de atividades saudáveis para diminuir o consumo de substâncias entre os jovens no país”, diz a presidente da ABEAD.

Segundo ela, é preciso também evitar erros contumazes de outros programas de prevenção que fazem intervenções de prevenção e promoção de saúde somente na adolescência ou de forma pontual em forma de palestras. “Elas têm impacto quase nulo para a diminuição do consumo de drogas entre estes jovens. Prevenção é algo sistemático e que deve começar em idades bastante precoces. Sabemos que prevenção não é uma tarefa fácil, em geral, leva tempo e empenho, e se não for conduzida de forma adequada pode gerar diversas iatrogenias, muitas vezes, irreparáveis. Soma-se que as ações envolvem dinheiro público, o qual deve ser claramente explicitado e revertido em resultados práticos”, afirma.

Outros fatores de risco

De 2009 a 2019, cresceu o número de estudantes insatisfeitos com próprio corpo: a proporção dos que se julgavam gordos ou muitos gordos foi de 17,5% para 23,2%, enquanto a dos que se consideravam magros ou muito magros foi de 21,9% a 28,6%. O percentual de escolares que sofreram agressão física por um adulto da família aumentou de 9,4%, em 2009, para 11,6% em 2012 e 16,0% em 2015.

Dobrou o percentual de escolares que faltaram ao menos um dia às aulas por não se sentirem seguros no trajeto ou na escola: de 8,6% em 2009 para 17,3% em 2019.

O percentual de escolares que já tiveram relações sexuais passou de 27,9% em 2009 para 28,5% em 2019. No entanto, para os meninos, a proporção caiu de 40,2% para 34,6% no período, enquanto para as meninas, a proporção aumentou de 16,9% para 22,6%.

De 2009 a 2019, o percentual de escolares que usaram camisinha na última relação sexual caiu de 72,5% para 59%. Entre as meninas, a queda foi de 69,1% para 53,5% e, entre os meninos, de 74,1% para 62,8%.

“Prevenir comportamentos que podem trazer sofrimento na vida destes adolescentes constitui ação de inquestionável relevância nos mais diversos contextos sociais, em função da complexidade da questão e dos prejuízos associados.  Prevenção é mais barato que o tratamento”, afirma Alessandra Diehl.

Foto: Pexels

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