Quando a militância esfria, quem ocupa o espaço da cidadania?

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Por professor Renato Munhoz

Há palavras que, com o passar do tempo, vão ganhando novos significados – ou sendo esvaziadas deles. Militância é uma delas.

Hoje, não é raro ouvir a palavra sendo utilizada como uma espécie de acusação. “Fulano é militante.” “Isso é militância.” Como se militar por uma causa fosse necessariamente algo negativo, sectário ou partidário.

Mas talvez seja necessário recuperar o sentido mais profundo da palavra.

Militância é a disposição de transformar uma convicção em ação coletiva.

É sair da condição de espectador e compreender que determinados problemas não serão resolvidos individualmente. É organizar-se, conversar, estudar, reivindicar, ocupar espaços, construir propostas e, principalmente, acreditar que a realidade pode ser transformada pela ação das pessoas.

E a história brasileira está cheia de exemplos disso.

Militar também é participar

A militância pode assumir muitas formas.

Pode estar em um sindicato, em uma associação de moradores, em um movimento estudantil, em uma organização ambiental, em uma pastoral, em uma ONG, em um coletivo cultural, em um partido político ou em um movimento de defesa dos direitos humanos.

Militância não é sinônimo de partido político. Partido é apenas uma das possibilidades de organização política.

Paulo Freire nos ensinou que ninguém transforma a realidade sozinho. A transformação nasce do diálogo, da consciência e da ação sobre o mundo. E talvez esteja justamente aí uma das grandes contribuições históricas da militância: criar espaços onde as pessoas deixam de apenas reclamar dos problemas e começam a compreender suas causas e pensar coletivamente em soluções.

Durante a ditadura militar, quando a democracia estava sufocada, diferentes organizações encontraram maneiras de manter viva a capacidade de organização da sociedade.

Movimentos estudantis, sindicatos, organizações profissionais, movimentos populares, setores da Igreja Católica, associações de bairro, grupos de defesa dos direitos humanos e diferentes organizações da sociedade civil participaram, de diferentes maneiras, da construção da resistência democrática.

As Comunidades Eclesiais de Base, por exemplo, foram importantes espaços de organização popular em diversas regiões do país. Eram pequenos grupos que se reuniam para refletir sobre a Bíblia e também sobre os problemas concretos da comunidade. Em alguns lugares, dessas reuniões surgiram reivindicações por melhorias urbanas e posteriormente movimentos de bairro.

É importante não romantizar esse processo. A própria historiografia mostra que a Igreja Católica não foi uma instituição homogênea diante da ditadura. Havia diferentes posições e projetos em disputa. Mas também é inegável que determinados setores da Igreja ofereceram espaços de organização, educação popular e defesa de direitos em um período de forte repressão.

A democracia não caiu do céu

Quando olhamos para a redemocratização brasileira, às vezes temos a impressão de que a democracia simplesmente aconteceu. Não aconteceu. Foi construída.

As Diretas Já, os movimentos sociais, o movimento estudantil, os trabalhadores, as organizações profissionais, os partidos de oposição e inúmeras organizações da sociedade civil participaram de um processo que pressionou pela reconstrução democrática.

A própria Assembleia Nacional Constituinte foi marcada por intensa participação da sociedade. A Constituição de 1988 não foi simplesmente escrita dentro de um prédio em Brasília. Ela recebeu demandas que vinham das ruas, das organizações e dos movimentos sociais.

A chamada Constituição Cidadã nasceu em um ambiente de enorme pressão social por direitos políticos, sociais, econômicos e culturais.

Isso nos deveria ensinar algo muito importante: direitos não são apenas presentes concedidos pelo Estado. Muitos direitos são conquistas construídas pela sociedade organizada.

O direito à participação política, a ampliação dos direitos sociais, a proteção ambiental, os direitos culturais, a defesa das crianças e adolescentes e tantas outras conquistas têm atrás de si histórias de pessoas que se organizaram, estudaram, reivindicaram e pressionaram. Militantes, portanto, não são personagens estranhos da história.

Eles ajudaram a escrever a história que hoje consideramos normal.

Mas alguma coisa esfriou. Então chegamos aos anos 1990. A democracia estava de volta. Os espaços institucionais se ampliaram. Novas organizações surgiram. As ONGs cresceram. Os partidos passaram a disputar eleições regularmente. A sociedade civil encontrou novos canais de participação.

Mas, paradoxalmente, parece ter começado também um processo de desmobilização de determinados espaços de convivência e formação política cotidiana.

Aquela reunião semanal na comunidade. A associação de moradores. O grêmio estudantil. A roda de conversa. A pastoral. O sindicato. O coletivo cultural.

O encontro em que alguém levava um texto para ler e, depois, vinte pessoas passavam duas horas discutindo o futuro do bairro.

Tudo isso parece cada vez mais difícil de encontrar.

Não significa que a militância desapareceu. Ela mudou, fragmentou-se e encontrou novos espaços. Mas perdemos, em muitos lugares, algo fundamental: o trabalho de base.

Trabalho de base não é apenas convencer alguém de alguma coisa.

É criar vínculo. É conhecer a realidade. É escutar. É formar. É construir confiança.

É transformar indivíduos em sujeitos coletivos. E talvez essa seja uma das grandes perdas de nosso tempo.

Do encontro presencial ao algoritmo

Chegamos à internet.

Nunca tivemos tanta informação.

Nunca foi tão fácil saber o que acontece do outro lado do planeta.

Nunca foi tão simples publicar uma opinião.

Nunca foi tão rápido organizar uma campanha.

E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil transformar informação em consciência coletiva duradoura.

As redes sociais trouxeram possibilidades extraordinárias para a mobilização. Movimentos podem divulgar suas pautas, organizar campanhas, denunciar violações e alcançar milhares de pessoas sem depender dos meios tradicionais de comunicação. Estudos sobre movimentos sociais mostram justamente como as redes digitais passaram a exercer funções de organização, comunicação e mobilização.

Mas existe uma armadilha.

Compartilhar não é necessariamente participar.

Curtir não é necessariamente mobilizar.

Comentar não é necessariamente organizar.

Hashtag não substitui reunião.

Viralização não substitui formação.

E indignação digital não necessariamente produz transformação social.

Há algo profundamente diferente entre passar o dedo pela tela e sentar diante de outras pessoas para discutir um problema durante duas horas.

Na tela, posso abandonar a conversa quando quiser.

Na comunidade, preciso aprender a conviver com quem pensa diferente.

Na rede social, o algoritmo pode me entregar principalmente aquilo que confirma minhas convicções.

Na vida coletiva, encontro o outro.

E o outro, como nos lembra o filósofo Emmanuel Levinas, é justamente aquele que nos tira do conforto de acreditar que somos o centro do mundo.

Estamos ficando indiferentes?

Talvez essa seja a pergunta mais incômoda desta coluna.

Assistimos diariamente a guerras, mortes, fome, violência, destruição ambiental, racismo, intolerância, deslocamentos humanos e inúmeras formas de sofrimento.

A informação chega em tempo real. Vemos. Comentamos. Compartilhamos.

E seguimos para o próximo vídeo.

O que aconteceu com nossa capacidade de indignação?

Será que estamos diante de uma espécie de anestesia coletiva?

Ou será que estamos confundindo informação com consciência?

Paulo Freire insistia na importância de uma educação capaz de desenvolver uma leitura crítica do mundo. Não basta aprender a ler palavras; é preciso aprender a ler a realidade.

Talvez esteja aí uma tarefa urgente da educação contemporânea.

Ensinar crianças e jovens a perguntar:

Por que isso acontece?

Quem é afetado?

Quem se beneficia?

O que podemos fazer?

Como podemos nos organizar?

Uma educação para a cidadania não deveria formar apenas bons candidatos ao mercado de trabalho.

Deveria formar pessoas capazes de olhar para a realidade e dizer:

“Isso não está certo. E nós podemos fazer alguma coisa.”

Talvez a nova militância ainda esteja nascendo

Não acredito que devamos simplesmente tentar reproduzir a militância dos anos 1970 ou 1980. O mundo mudou. As formas de trabalho mudaram. As relações sociais mudaram. A juventude mudou. A tecnologia mudou. A maneira como as pessoas se informam mudou.

Então precisamos fazer uma pergunta diferente:

Que tipo de militância é possível no século XXI?

Talvez a resposta esteja na combinação entre o melhor da tradição e as possibilidades do presente.

Precisamos recuperar o trabalho de base, mas utilizando as ferramentas digitais.

Precisamos ocupar as redes, mas também recuperar os espaços físicos de encontro.

Precisamos produzir conteúdo, mas também produzir formação.

Precisamos aprender a utilizar vídeos, podcasts, plataformas digitais, campanhas colaborativas, abaixo-assinados, financiamento coletivo, jornalismo independente e redes comunitárias.

Mas precisamos também recuperar algo que nenhum algoritmo consegue produzir sozinho: vínculos humanos.

A nova militância talvez seja aquela que consiga transformar um grupo de WhatsApp em organização comunitária. Uma página de Instagram em espaço de educação cidadã.

Um podcast em instrumento de formação. Uma escola em território de participação.

Uma associação em laboratório de democracia.

Uma campanha digital em ação concreta.

Uma indignação individual em projeto coletivo.

Porque talvez o problema não seja que as pessoas não tenham mais causas.

Talvez elas estejam procurando novas formas de lutar por elas.

A militância está desaparecendo ou apenas mudando de forma? Do trabalho de base às redes sociais, a participação política ganhou novos caminhos e novos desafios

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

Me siga no Instagram: @profrenatomunhoz

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

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