Um tapa nunca é só um tapa

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Por Telma Elorza

Depois de três anos e meio de casamento, meu marido mudou completamente de comportamento. De uma pessoa gentil e carinhosa, ficou agressivo e passamos a brigar constantemente. Na última briga, há uma semana, ele me deu um tapa com força na cara. Fiquei sem reação, simplesmente abismada que tenhamos chegado a esse ponto. Depois, ele me pediu mil desculpas e prometeu que nunca mais iria acontecer de novo. Não falei para ninguém, escondi a marca com maquiagem, por vergonha dos outros saberem. Não discutimos mais depois disso, mas estou com medo e com vontade de me separar. O que você me aconselha?”

Amiga, vou ser bem direta. SAIA URGENTE DESSA RELAÇÃO.

E antes que alguém fale “ah, Tia Telma, você é sempre tão radical e manda separar sem nem buscar outras alternativas”. Sim, mas não porque eu ache bonito terminar casamentos nem porque separação seja uma solução para todos os problemas de um casal. Mas porque um homem que agride a mulher com quem casou – ou mantém uma relação estável de anos – ultrapassa um limite que não deve ser ultrapassado nunca.

E não, não foi “SÓ” um tapa.  Tapa na cara não é discussão, não é “perda momentânea” de controle, nem “briga de marido e mulher”. É violência, pura e simples. E pode escalonar.

Antes do tapa, você diz que seu marido era gentil e carinhoso e, depois de três anos e meio, mudou da água para o vinho. Ficou agressivo e as brigas surgiram até culminar na agressão. Eu não compro fácil essa história que ele simplesmente mudou de uma hora para outra. Pessoas podem, sim, atravessar crises – profissionais, de saúde ou algum outro motivo, mudar de comportamento, desenvolver problemas emocionais ou enfrentar situações que não conhecemos. Mas mudanças bruscas e persistentes dentro de um relacionamento precisam ser investigadas, não maquiadas.

Seu marido pode estar passando por uma crise pessoal, problemas financeiros, no trabalho, abuso de álcool ou drogas, depressão. Pode até haver outra mulher. Ou pode haver, simplesmente, uma mudança na forma como ela a enxerga como esposa e os limites que VOCÊ aceita. E nenhuma dessas possibilidades transforma violência como algo aceitável.

Aliás, eu teria muito mais preocupação com a pergunta “por que ele mudou?” do que a promessa de que nunca mais irá fazer isso. Porque, depois do tapa, vieram as desculpas. E isso também é bastante conhecido das mulheres vítimas de feminicídio: começa com uma agressão (às vezes, apenas verbal), depois arrependimento, pedido de perdão, promessa de que não vai acontecer de novo, período de calmaria. Até que alguma coisa acontece de novo. E aí a nova agressão vem também. E, muitas vezes, pior.

O tapa é uma RED FLAG gigantesca, balançando na sua cara. Porque ele já atravessou o limite físico. E a violência doméstica pode escalar. Hoje é um tapa, amanhã pode ser um empurrão, depois um soco, uma ameaça, uma tentativa violenta de impedir que você saia de casa, que se separe. E aí, já viu, né? Vai esperar para descobrir na própria pele?

Por que escondeu a marca do tapa?

E tem outra coisa que me incomoda muito no seu relato. Você escondeu a marca do tapa com maquiagem e não contou a ninguém por vergonha. Você é vítima e não deve se envergonhar. Veja o caso da francesa Gisèle Pélicot, que denunciou o marido – com quem era casada há 50 anos – e prestou testemunho contra 50 homens que a estupraram com o consentimento do marido, que a drogava exatamente para isso. Ela renunciou ao direto de anonimato para transferir a vergonha a quem de direito: o próprio marido.

Não esconda o que aconteceu para proteger a imagem dele. Conte para alguém de confiança, guarde registros – se houver – do que aconteceu. Procure um advogado. E, se decidir sair desse relacionamento, pense primeiro em sua segurança.

Casamento não é contrato para apanhar em silêncio. Amor não exige que você aceite violência em troca de boas lembranças. E pedidos de desculpas não apagam o tapa e a marca no seu rosto e na sua alma.

Talvez você ainda ame esse homem e não queira “destruir” o casamento. Mas esse homem nunca mais vai ser o homem gentil e carinhoso do começo do casamento. Ele não existe mais. Você não precisa esperar uma segunda agressão para confirmar isso.

Um tapa é motivo suficiente para abrir seus olhos e se proteger. Eu não esperaria para ver até onde ele pode chegar.

Salve-se e salve sua vida.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

O marido da leitora mudou, depois de 3 anos de casamento, e lhe deu um tapa. Ela escondeu de todos por vergonha
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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