Por professor Renato Munhoz
Imagine uma roda de conversa improvável. Em torno de uma mesa estão sentados Paulo Freire, Hannah Arendt, Edgar Morin, Rubem Alves e Zygmunt Bauman. No centro da discussão, uma pergunta simples, mas inquietante: por que a escola insiste tanto em um modelo que já não responde aos anseios da educação atual?
Talvez a resposta não esteja apenas na resistência à mudança. Talvez esteja em algo mais profundo: a dificuldade de reconhecer que o mundo mudou mais rápido do que a escola conseguiu acompanhar.
Durante séculos, a escola foi construída para atender às demandas de seu tempo. Era necessário formar trabalhadores para a sociedade industrial, transmitir conhecimentos considerados fundamentais e organizar o aprendizado de forma padronizada. Havia certa lógica nisso. O problema é que continuamos, em muitos casos, utilizando estruturas pensadas para um mundo que já não existe.
Paulo Freire provavelmente iniciaria essa conversa lembrando que educar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua construção. Entretanto, ainda encontramos práticas que transformam estudantes em receptáculos de informações, como se aprender fosse apenas acumular conteúdos e reproduzi-los em avaliações. Quando isso acontece, a educação perde sua dimensão libertadora e torna-se um exercício burocrático.

Escola parece ignorar desafios do presente
Ao ouvir Freire, Hannah Arendt talvez acrescentasse que a educação possui a responsabilidade de apresentar o mundo às novas gerações. Mas como apresentar um mundo marcado por transformações aceleradas utilizando metodologias que pouco dialogam com a realidade vivida pelos estudantes? Como despertar pertencimento quando a escola parece ignorar os dilemas, as linguagens e os desafios do tempo presente?
Edgar Morin certamente chamaria atenção para outro problema: continuamos fragmentando o conhecimento em disciplinas isoladas, enquanto a vida real exige cada vez mais a compreensão da complexidade. Os grandes desafios contemporâneos — mudanças climáticas, desigualdades sociais, inteligência artificial, saúde mental, convivência democrática — não cabem dentro de uma única matéria. Exigem conexões, diálogo e pensamento sistêmico.
Nesse momento da conversa, Rubem Alves talvez sorrisse e perguntasse: “Estamos formando pessoas curiosas ou apenas treinando para provas?” Sua provocação permanece atual. Muitas vezes a escola se preocupa excessivamente com resultados mensuráveis e pouco com o encantamento. O conhecimento, quando desconectado do sentido, transforma-se em obrigação. E aquilo que não faz sentido dificilmente produz aprendizagem significativa.
Por sua vez, Bauman nos lembraria que vivemos em uma sociedade líquida, marcada pela rapidez das mudanças e pela constante necessidade de adaptação. Contudo, paradoxalmente, a escola continua operando com estruturas rígidas, currículos engessados e modelos que pouco favorecem a criatividade, a autonomia e a capacidade de resolver problemas inéditos.
Mas seria justo responsabilizar apenas a escola?
Provavelmente não.
A escola é reflexo da sociedade que a sustenta. Muitas vezes cobramos inovação, mas valorizamos rankings. Falamos sobre criatividade, mas premiamos a padronização. Defendemos autonomia, mas insistimos em controlar cada etapa do processo educativo. Existe uma contradição evidente entre o discurso que desejamos e as práticas que mantemos.
Ainda assim, não podemos ignorar os sinais.
O desinteresse crescente de muitos estudantes, o adoecimento emocional de educadores, a dificuldade de estabelecer conexões significativas com a aprendizagem e a sensação de esgotamento presente em tantas instituições revelam que algo precisa ser repensado.
Talvez a questão central não seja apenas mudar metodologias ou incorporar novas tecnologias. Essas mudanças são importantes, mas insuficientes. O desafio maior é rediscutir o próprio sentido da educação escolar.
Para que existe a escola?
Se a resposta for apenas transmitir conteúdos, outras ferramentas já fazem isso com enorme eficiência. Se for apenas preparar para o mercado de trabalho, a velocidade das transformações tornará qualquer formação rapidamente obsoleta.
A escola precisa ser mais do que isso.
Precisa ser um lugar de encontro, de construção de identidade, de desenvolvimento humano, de convivência com a diversidade, de pensamento crítico, de criação de projetos coletivos e de formação para a cidadania. Precisa ser um espaço onde se aprende a viver com os outros e a compreender o mundo.
Ou talvez devêssemos dizer: precisa voltar a ser um lugar.
Porque existe uma diferença importante entre espaço e lugar. Espaço é apenas a estrutura física. Lugar é onde construímos pertencimento, significado e memória.
Quando a escola deixa de provocar perguntas, perde sua essência. Quando deixa de formar sujeitos capazes de pensar criticamente, enfraquece sua missão. Quando deixa de inspirar sonhos, corre o risco de tornar-se apenas mais uma etapa burocrática da vida.
A grande questão que permanece é esta: se continuarmos insistindo em modelos que já não dialogam com as necessidades do presente e com os desafios do futuro, qual será o destino da educação escolar?
Talvez ela não desapareça. Mas pode perder aquilo que a tornou fundamental ao longo da história: sua capacidade de ser a mola propulsora de uma sociedade pensante, inquieta e transformadora.
E quando isso acontece, a escola continua existindo como espaço.
Mas deixa de existir como lugar.

Professor Renato Munhoz
Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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