Por professor Renato Munhoz
Em tempos de propostas eleitorais, a educação volta, como quase sempre acontece, para o centro da pauta política. E isso é bom. Afinal, discutir educação é discutir o país que queremos construir. O problema começa quando, no meio de tantas propostas, esquecemos de perguntar: que educação estamos propondo e para qual sociedade?
Há quem enxergue a escola como espaço de controle. Fala-se em mais disciplina, mais regras, mais vigilância, mais obediência. Como se educar fosse, antes de tudo, ensinar crianças e adolescentes a seguir comandos.
Há também quem olhe para nossos alunos como se fossem livros em branco, esperando que alguém escreva neles aquilo que considera correto. Essa talvez seja uma das maiores ilusões quando pensamos educação.
Nossos estudantes não chegam à escola vazios
Eles chegam carregados de histórias, experiências, medos, sonhos, valores, referências familiares, culturais e comunitárias. Chegam com aquilo que aprenderam em casa, na rua, na igreja, no terreiro, no esporte, na internet, nas amizades, nas experiências de afeto e também nas experiências de dor. Chegam com perguntas. Muitas vezes, chegam com perguntas que nós, adultos, ainda não conseguimos responder.
Por isso, educar para a cidadania não significa simplesmente preparar alguém para ser um “bom cidadão” no futuro.
Significa reconhecer que a criança e o adolescente estão em processo de formação, mas já estão sendo presentes, já são cidadãos.
Eles já participam da sociedade. Já fazem escolhas. Já influenciam outras pessoas. Já possuem opiniões. Já experimentam responsabilidades. Já percebem desigualdades. Já convivem com diferenças. Já podem aprender a argumentar, escutar, cooperar, discordar, respeitar e participar.
A cidadania não começa aos 18 anos.
Ela começa quando uma criança percebe que o espaço que ocupa também pertence ao outro. Quando aprende que sua opinião é importante, mas não é a única. Quando descobre que liberdade não significa fazer tudo o que se quer. Quando entende que uma escolha produz consequências. Quando participa da construção de uma regra e compreende por que ela existe.
É nesse cotidiano aparentemente pequeno que a cidadania se aprende.
Uma escola que educa para a cidadania não é uma escola sem regras. Pelo contrário. É uma escola que sabe explicar suas regras, construir responsabilidades e estabelecer limites sem transformar disciplina em submissão.
Disciplina é necessária. Mas disciplina sem diálogo pode produzir obediência; educação para a cidadania precisa produzir responsabilidade.
Existe uma diferença enorme entre fazer alguém obedecer porque tem medo e ajudá-lo a compreender por que determinada atitude é necessária.
Talvez esse seja um dos grandes desafios da educação contemporânea: formar pessoas capazes de pensar e agir em uma realidade que muda mais rápido do que os nossos antigos modelos escolares.
Nossos alunos vivem em um mundo atravessado pelas redes sociais, pela inteligência artificial, pelas mudanças climáticas, pela diversidade cultural, pelas novas configurações familiares, pelas transformações no mundo do trabalho e por uma quantidade de informações que nenhum professor conseguiria transmitir sozinho.
Nesse cenário, talvez seja menos importante perguntar “o que o aluno precisa decorar?” e cada vez mais necessário perguntar “o que ele precisa aprender a fazer com aquilo que sabe?”
Precisa saber dialogar.
Precisa saber pesquisar.
Precisa reconhecer uma informação falsa.
Precisa trabalhar coletivamente.
Precisa lidar com frustrações.
Precisa defender suas ideias sem desrespeitar quem pensa diferente.
Precisa compreender seus direitos e responsabilidades.
Precisa perceber que suas escolhas individuais também produzem impactos coletivos.

Isso é educação para a cidadania.
E aqui encontramos uma questão que deveria estar no centro de qualquer proposta eleitoral para a educação: queremos formar alunos obedientes ou sujeitos capazes de participar da construção da sociedade?
Não se trata de escolher entre conhecimento e cidadania. Uma boa educação precisa dos dois. Conhecimento sem responsabilidade pode ser utilizado de muitas maneiras. Cidadania sem conhecimento pode se tornar apenas opinião. A escola precisa oferecer conhecimento, mas também criar condições para que esse conhecimento seja transformado em pensamento, posicionamento e participação.
É preciso abandonar a ideia de que educar é simplesmente colocar conteúdos dentro da cabeça de alguém.
Educar é também criar possibilidades para que cada pessoa descubra o que pode fazer com aquilo que aprende.
E isso exige uma escola capaz de olhar para seus estudantes não apenas pelo que eles ainda não sabem, mas também pelo que já sabem, pelo que vivem e pelas potências que carregam.
Quando olhamos para uma criança ou um adolescente apenas como um problema de disciplina, perdemos a oportunidade de enxergar uma história.
Quando enxergamos apenas suas dificuldades, podemos deixar de perceber suas potencialidades.
Quando acreditamos que precisamos “formá-los” completamente, esquecemos que eles já participam da construção de quem são.
A escola não entrega cidadãos prontos.
A escola cria experiências para que cidadãos possam se formar.
Por isso, diante de tantas propostas que certamente surgirão nos debates eleitorais, talvez seja importante fazer uma pergunta simples, mas profundamente política:
Que tipo de ser humano queremos ajudar a formar?
Alguém que abaixa a cabeça diante da autoridade?
Ou alguém que sabe respeitar a autoridade, mas também sabe questioná-la quando necessário?
Alguém que apenas cumpre regras?
Ou alguém que compreende que regras podem proteger direitos e que, numa democracia, também podem ser discutidas e aperfeiçoadas?
Alguém preparado apenas para competir?
Ou alguém capaz de colaborar?
Talvez uma educação verdadeiramente comprometida com a cidadania seja aquela que ensina nossos meninos e meninas a compreender que viver em sociedade é muito mais do que ocupar um lugar nela. É também ajudar a transformá-la.
E, para isso, eles não precisam esperar crescer. Porque enquanto nós, adultos, continuamos discutindo o cidadão que eles serão amanhã, eles já estão sendo cidadãos hoje.
E a escola precisa estar preparada para educá-los para esse presente.

Professor Renato Munhoz
Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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