Como o excesso de telas afeta vínculos, diálogo e interioridade nas crianças
Por professor Renato Munhoz
Nunca tivemos tantas formas de comunicação. Mensagens instantâneas, chamadas de vídeo, redes sociais, plataformas de interação e inteligência artificial ocupam cada vez mais espaço em nossas rotinas. Paradoxalmente, em meio a tantas conexões, cresce um fenômeno que preocupa famílias, educadores e pesquisadores: o silêncio das crianças hiperconectadas.
Não se trata da ausência de sons. As casas estão cheias de notificações, vídeos, músicas e jogos. O silêncio ao qual me refiro é mais profundo: é a dificuldade crescente de dialogar, de expressar sentimentos, de lidar com o próprio mundo interior e de construir vínculos significativos com outras pessoas.
Muitas crianças passam horas diante das telas, mas encontram dificuldade para sustentar uma conversa, ouvir atentamente alguém ou simplesmente permanecer alguns minutos sem estímulos digitais. O excesso de informação parece estar produzindo uma espécie de empobrecimento da experiência.

O filósofo alemão Walter Benjamin já alertava, no início do século XX, para o empobrecimento da experiência humana em uma sociedade marcada pela velocidade e pelo excesso de informações. Embora não tenha conhecido smartphones ou redes sociais, sua reflexão parece extremamente atual. Para Benjamin, a experiência exige tempo, presença e elaboração interior. Não basta viver acontecimentos; é preciso assimilá-los, refletir sobre eles e atribuir-lhes significado.
Hoje, porém, muitos acontecimentos são consumidos rapidamente, sem espaço para contemplação ou aprofundamento.
Outro pensador que ajuda a compreender esse cenário é Byung-Chul Han. Em suas obras, ele afirma que vivemos em uma sociedade do excesso de estímulos, na qual o sujeito é constantemente bombardeado por informações, imagens e solicitações de atenção. O resultado não é necessariamente mais conhecimento, mas frequentemente mais dispersão, ansiedade e dificuldade de concentração.
Essa realidade chega às escolas diariamente
Professores observam estudantes inquietos diante de atividades que exigem leitura prolongada, reflexão ou observação cuidadosa. A rapidez dos vídeos curtos e das recompensas instantâneas das plataformas digitais muitas vezes torna mais difícil o exercício da paciência, da escuta e da profundidade.
Mas seria um erro transformar a tecnologia na grande vilã da história.
As telas oferecem inúmeras possibilidades educativas, culturais e criativas. O desafio não está na existência da tecnologia, mas na forma como nos relacionamos com ela. A questão central talvez seja outra: estamos oferecendo às crianças experiências suficientes fora das telas?
A educadora italiana Maria Montessori defendia que a aprendizagem acontece por meio da exploração ativa do mundo. Tocar, experimentar, observar, sentir texturas, perceber cheiros, cultivar plantas, construir objetos e interagir com pessoas são experiências fundamentais para as crianças e o desenvolvimento humano.
Nenhuma tela consegue substituir completamente a riqueza sensorial da realidade
A espiritualidade também pode contribuir para essa reflexão. Não necessariamente uma espiritualidade religiosa, mas a capacidade de cultivar interioridade, silêncio, contemplação e presença. Em uma cultura marcada pela aceleração, ensinar uma criança a observar uma árvore, escutar o canto dos pássaros, contemplar o pôr do sol ou simplesmente prestar atenção à própria respiração torna-se um ato educativo profundamente transformador.
Talvez uma das maiores perdas da hiperconectividade seja justamente a diminuição dos espaços de encontro consigo mesmo.
Muitos adultos sentem desconforto quando ficam alguns minutos sem o celular. O mesmo ocorre com as crianças. O silêncio passou a ser percebido como vazio, quando na verdade ele pode ser uma oportunidade de autoconhecimento.
Por isso, escolas e famílias podem investir em práticas que favoreçam uma educação mais sensorial e humanizadora.
Algumas experiências simples podem fazer grande diferença:
- Promover aulas ao ar livre, utilizando parques, jardins e espaços naturais como ambientes de aprendizagem;
- Desenvolver hortas escolares que envolvam cuidado, observação e responsabilidade;
- Incentivar rodas de conversa sem celulares, valorizando a escuta e o diálogo;
- Realizar atividades artísticas que envolvam materiais concretos, como argila, pintura e artesanato;
- Criar momentos de leitura silenciosa e apreciação literária;
- Desenvolver exercícios de atenção plena e observação da natureza;
- Estimular jogos cooperativos e brincadeiras tradicionais que favoreçam a interação presencial;
- Propor diários reflexivos nos quais as crianças possam registrar emoções, descobertas e aprendizados.
Essas atividades não pretendem negar a tecnologia, mas equilibrá-la. O desenvolvimento humano precisa tanto da inovação quanto da experiência concreta; tanto da conexão digital quanto do encontro presencial; tanto da informação quanto da reflexão.
A educação do futuro talvez não dependa apenas de ensinar novas competências tecnológicas. Dependerá também da capacidade de preservar aquilo que nos torna profundamente humanos: a escuta, o diálogo, a sensibilidade, a contemplação e o cuidado.
Em uma sociedade cada vez mais conectada, talvez o maior desafio seja justamente este: ensinar nossas crianças a não perderem a conexão consigo mesmas, com os outros e com o mundo que as cerca.
Porque nenhuma tecnologia será capaz de substituir a experiência de um olhar atento, de uma conversa verdadeira ou de uma infância vivida com presença e significado.
Professor Renato Munhoz
Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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