Herança é sua e ninguém deve decidir por você

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Por Telma Elorza

“Depois de anos de inventário, recebi minha parte da herança do meu pai. Não é um valor que me deixou milionária, mas dá para resolver parte da minha vida. O problema é que, enquanto o inventário estava rolando, eu me casei. E, agora, meu marido quer que eu use esse dinheiro para comprar um apartamento. Só que eu queria guardá-lo para montar um negócio para mim, mais para frente. E isso virou uma briga enorme entre nós e com a família dele. Estão todos contra mim, me pressionando a gastar o dinheiro num bem imóvel, esquecendo meus sonhos. O que faço? Estou muito errada em querer investir em mim?”

Amiga, senta que vamos conversar seriamente. Há uma frase muito repetida quando alguém recebe uma herança: “esse dinheiro caiu do céu”. Mas não caiu. Ele veio carregado de histórias, perdas e, como no seu caso, de anos de espera, burocracia, desgastes e, às vezes, até brigas familiares. Esse dinheiro representa, principalmente, uma memória afetiva, aquilo que seu pai lhe deixou depois de passar a vida toda construindo um patrimônio. Na maioria das vezes, esse patrimônio foi construído com muito suor e dedicação.

Por isso, já posso afirmar tranquilamente que você não está errada em querer investir em você. Eu acredito que seu pai gostaria muito disso. Tenho certeza que ele adoraria ver o esforço do trabalho dele ajudando você a construir sua vida profissional.

“Ah, mas um bem imóvel é um investimento para vida também”. Sim, é, mas não gera renda. Antes de pensar em sair do aluguel, será que não é interessante pensar crescer profissionalmente como você está fazendo? Abrindo seu próprio negócio, você pode estar multiplicando esse dinheiro.

Acho justíssimo que isso aconteça. Você não quer gastar esse dinheiro com viagens, bolsas e sapatos, muito menos com procedimentos estéticos. Quer guardar recursos para construir algo para o futuro que pode lhe render muito mais que um apartamento (se souber como fazê-lo, claro, mas depois explico).  

E por que isso incomoda tanto algumas pessoas? Porque existe uma expectativa social e cultural, especialmente sobre as mulheres, que seus recursos estejam sempre disponíveis para atender projetos coletivos da família. Entrou o 13º. salário, bonificações, prêmios de produtividade? “Vamos pintar a casa, fazer uma viagem familiar, comprar roupas para os filhos”. Entrou herança? “Vamos comprar um apartamento e deixar de lado esse seu sonho besta”! Quando um homem decide investir recursos para abrir uma empresa, todo mundo o chama de empreendedor. Quando é uma mulher que quer fazer o mesmo, frequentemente tentam induzí-la a priorizar outra coisa. É comum demais.

Mas pensa comigo. Se você comprar um apartamento com sua herança apenas para acabar com a briga, provavelmente vai se sentir infeliz. Sabe-se lá quanto tempo vai levar para conseguir um valor considerável para começar seu negócio. O imóvel estará lá, mas a sensação de ter abandonado um sonho continuará ocupando espaço na sua vida.

Pressão para gastar a herança? Red Flag!

Agora, vamos falar de outra questão importante. Pressão para fazer algo com dinheiro nunca é uma boa conselheira financeira. Grandes decisões patrimoniais envolvem calma, planejamento e informação. Quando uma escolha nasce da culpa, do medo de irritar alguém ou da chantagem emocional, as chances de arrependimento são enormes.

E vale observar uma grande RED FLAG aí. Quando seu marido descarta seus sonhos sem nem pensar duas vezes, está faltando com respeito a você e suas opiniões.

Ele até pode discordar da sua decisão, porque isso faz parte da vida do casal, mas transformar essa divergência em uma mobilização da própria família contra você? Isso é algo que merece reflexão.  Num relacionamento saudável, os sonhos de ambos devem ter o mesmo peso, serem respeitados e até, se possível, planejados juntos.

Antes de tomar decisões (não se deixe perturbar por toda pressão em cima de você), faça contas, converse com um planejador financeiro, avalie as possibilidades do negócio que você quer criar, vá no Sebrae, consulte opiniões técnicas. Só não entregue a direção da sua vida na mão de outras pessoas, mesmo que ela seja seu marido.

Seu pai deixou a herança para você! E uma grande oportunidade de construir algo seu. E isso vale mais que qualquer apartamento que foi comprado para agradar outros.

Ah, e um detalhe importante. Pela legislação brasileira, os bens recebidos por herança, em regra, não entram na conta conjunta do casal sob regime de comunhão parcial de bens (o mais comum). O artigo 1.659 do Código Civil  estabelece que os bem recebidos por sucessão (herança) permanecem patrimônio particular de quem os herdou. Ou seja, a herança é só sua e você deve decidir por ela.

Mas, se no fim das contas não aguentar a pressão e resolver comprar um apartamento, inclua cláusulas na escritura deixando claro que o bem está sendo comprado com uma herança e, portanto, deve ter incomunicabilidade com os bens do casal. Melhor consultar um advogado que ele explica tudo certinho. Nesse caso, seu marido pode até tê-la convencido, mas o bem ainda é só seu.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora recebeu uma herança e quer investir o dinheiro em um negócio próprio. Mas o marido tem outras ideias
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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