Nossos deputados não estão preocupados com o trabalhador

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Por Telma Elorza

A gente tá vivendo um momento revelador no debate sobre direitos trabalhistas, em pleno ano eleitoral. Enquanto milhões de trabalhadores sonham com o fim da escala 6×1 e com uma jornada de 40 horas semanais –  minimamente mais humana – , 176 deputados federais decidiram seguir o caminho oposto. Eles apoiaram uma proposta que cria brechas para jornadas de até 52 horas semanais e ainda empurra o fim da escala 6×1 só para daqui a 10 anos.

DEZ ANOS!

Entre os parlamentares que assinaram a proposta estão nomes de deputados do Paraná: Luiz Carlos Hauly, Luísa Canziani, Luiz Nishimori, Beto Richa, Pedro Lupion, Sérgio Souza, Felipe Francischini, Geraldo Mendes, Paulo Litro,  Vermelho e Sargento Fahur, que certamente vão concorrer à reeleição neste ano. Um grupo que, na prática, mandou um recado bastante claro ao trabalhador paranaense: “queremos mais é que vocês se fodam”.

Nesse cenário, chama a atenção a atuação e apoio a esse absurdo dos deputados londrinenses. De Luísa Canziani, jovem, de um nova geração política, esperava-se ao menos um pouco de sensibilidade diante de um debate que envolve saúde mental, dignidade humana e modernização das relações de trabalho. Por ser mulher, poderia se identificar com as trabalhadoras que fazem das tripas coração para dar conta de tudo. Do Hauly, um político de carreira, experiente, que conhece as transformações econômicas do país, deveria compreender que produtividade não se mede em horas espremidas.

E o engraçado é que o discurso usado para defender esse tipo de medida que prejudica o trabalhador é sempre parecido. Falam em “modernização”, “flexibilização”, “segurança econômica” e “preservação de empregos”. Mas todos nós sabemos que a realidade é bem outra.

O que está sendo defendido, com essa proposta, é a manutenção de um modelo de trabalho que adoece física e mentalmente milhões para que empresários tenham cada vez mais lucro.

A escala 6×1 é brutal para quem vive nela. Principalmente para trabalhadores do comércio, supermercados (você viu o lucro da rede Muffato no ano passado? Mais de R$ 20 bilhões e ficou em 6º lugar do Ranking Abras entre as 30 maiores redes de supermercado no Brasil. Tadinhos, vão quebrar ao reduzir a escala), telemarketing, serviços gerais, indústrias e outros segmentos.

São pessoas que praticamente entregam a vida inteira ao trabalho e recebem, em troca, apenas um dia para tentar resolver tudo: descansar, limpar a casa, cuidar dos filhos, fazer compras, visitar parentes e recuperar o corpo do cansaço físico e mental. Mas não recuperam.

Luísa Canziani e Luiz Carlos Hauly assinaram a proposta que prejudicam os trabalhadores, criando brechas para jornadas de até 52 horas e fim da escala 6x1 só daqui a 10 anos
Foto: Imagem gerada por IA/ChatGPT

Deputados e empresários fora da realidade do trabalhador

Há outro detalhe que muitos deputados e empresários – os que vivem reclamando da dificuldade de encontrar funcionários dispostos a ter uma jornada exaustiva por um salário mínimo e jogando a culpa no Bolsa-Família – se recusam a admitir.  Essas narrativas não explicam a realidade, em um cenário próximo do pleno emprego em vários setores.

Muita gente simplesmente percebeu que vale mais a pena empreender informalmente ou com MEI, vender pela internet, fazer entregas, dirigir aplicativo ou buscar qualquer outra fonte de renda do que aceitar jornadas exaustivas por salários irrisórios.  O problema não é a “falta de vontade de trabalhar”. O problema é que cada vez menos pessoas aceitam trocar saúde física e mental por uma renumeração que mal paga aluguel e supermercado, depois de 44 horas de trabalho. Não é o trabalhador que não quer mais ser CLT. Ele só não quer se matar trabalhando.

O mais impressionante é que o mundo inteiro já começou a perceber que jornadas menores não significam menos produtividade. Islândia e Reino Unido tiveram experiências amplamente documentadas mostrando exatamente o contrário: trabalhadores menos exaustos produzem melhor, adoecem menos e permanecem mais tempo nos empregos. No Brasil, não. No Brasil, trabalhador bom é trabalhador que faz longas horas, recebe pouco e não tem direitos. Uma mentalidade bem escravocrata.

E a proposta apoiada por esses 176 parlamentares piora ainda mais o cenário porque amplia o poder de acordos individuais entre patrão e empregado. Na teoria, parece liberdade contratual. Na prática, significa colocar um trabalhador vulnerável negociando sozinho contra empresas muito mais fortes economicamente. Isso é imposição disfarçada de negociação.

Outro aspecto revoltante é a tentativa de empurrar a implementação das mudanças por uma década. Quem trabalha em escala 6×1 sabe que dez anos equivalem a uma eternidade. E tudo isso para preservar um modelo que já dá sinais claros de esgotamento.

O argumento de que reduzir jornada “quebraria o país” também não se sustenta historicamente. Disseram a mesma coisa quando surgiram férias remuneradas, 13º salário, licença-maternidade e limitação de jornada. O Brasil não acabou. A economia não implodiu. O que aconteceu foi avanço civilizatório.

A resistência atual ao fim da escala 6×1 revela mais sobre a mentalidade de parte da elite política do que sobre a economia em si. Existe um setor do Congresso que simplesmente não consegue enxergar dignidade como prioridade. Para esses grupos, qualidade de vida do trabalhador sempre aparece depois do lucro imediato.

E talvez seja exatamente por isso que o debate tenha ganhado tanta força popular. Porque o brasileiro cansou de sobreviver em função do trabalho. Cansou de aceitar como normal viver permanentemente esgotado.

No fundo, essa discussão não é apenas sobre horas trabalhadas. É sobre qual tipo de sociedade o Brasil quer ser e quais os políticos deve eleger.

Foto principal: montagem com fotos do Portal da Câmara dos Deputados

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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