Por Telma Elorza
Londrina vendeu e ainda quer vender a imagem de uma cidade próspera, organizada e símbolo de desenvolvimento no interior do Paraná. Uma espécie de vitrine do progresso invulnerável e de uma sociedade dinâmica e bem estruturada, com bons indicadores econômicos, um forte setor de serviços e fama de qualidade de vida. Afinal, a segunda maior cidade do estado não poderia ser diferente, né?
Mas basta caminhar hoje pela região central para perceber que essa narrativa não passa disso, uma propaganda “para inglês ver” e que está ruindo diante de uma realidade cada vez mais evidente: Londrina enfrenta uma grave crise social, que escancara o crescimento da população em situação de rua, o aumento da vulnerabilidade urbana e uma sensação coletiva de abandono à própria sorte.
Não se trata apenas de uma questão “estética”, como alguns setores da sociedade insistem em reduzir. O problema não é a “sujeira visual” ou o desconforto comercial causado pela presença desses vulneráveis no Centro. O verdadeiro drama é muito mais profundo.
Estamos diante de uma falência progressiva das políticas públicas de prevenção social, destinada às pessoas de menor poder aquisitivo de Londrina. O corte dos R$ 17 milhões no orçamento da Secretaria de Assistência Social para este ano já se faz sentir. E nenhum dinheiro para preencher o buraco veio, como foi prometido.
Londrina figura entre as seis cidades paranaenses com maior número de pessoas vivendo nas ruas – 932 pessoas em situação de rua – segundo dados de 2025 da própria Secretaria de Assistência Social. Outros quatro mil atendimentos ligados à mesma vulnerabilidade social foram feitos pelo Serviço de Atenção à População em Situação de Rua (SPSR), no ano passado.
A rede de acolhimento é insuficiente para a demanda. São 11 unidades de acolhimento com cerca de 290 vagas. O Centro Pop tem capacidade para atender entre 80 e 90 pessoas por dia. Mas, mesmo assim, Londrina aprovou a lei nº 14.042, que institui o fluxo para Avaliação e Internação Involuntária em Londrina. Com um CAPS AD sucateado, sem vagas em hospitais psiquiátricos, dependendo de clínicas particulares e comunidades terapêuticas.

Enquanto os comerciantes reclamam e os moradores sentem-se inseguros, o poder público oscila entre ações paliativas e operações de impacto temporário, como ocorreu semana passada.
O problema é que empurrar essa população de rua para longe das áreas nobres e centrais não resolve absolutamente nada. Apenas desloca a miséria de endereço.
Para mim, parece que a cidade vive um ciclo de higienização social, disfarçada de ordem pública, quando o que falta é estratégia de longo prazo. Abordagens pontuais, recolhimento ocasional e medidas emergenciais não substituem investimentos em tratamento, moradia assistida, capacitação profissional e políticas públicas multisetoriais permanentes. Ou seja, falta investir em Assistência Social, Saúde Mental, preparação para o trabalho, geração de empregos. Falta tudo, na verdade. Só sobram cortes nos orçamento.
Vulnerabilidade na dimensão econômica
Mas a administração pública esquece de uma coisa importante: a dimensão econômica que o avanço da vulnerabilidade traz. Ela afeta diretamente o comércio, o turismo, a valorização imobiliária e percepção externa da cidade. Londrina corre o risco de comprometer sua competitividade regional se continuar permitindo que o problema cresça sem soluções estruturais. Que empresa de grande porte viria para Londrina, onde não há nem incentivos fiscais para isso? Eu mesma entrevistei recentemente um vice-presidente de uma montadora chinesa que busca lugares para instalar fábricas no Brasil. Londrina foi totalmente descartada como opção.
E se não bastasse tudo isso para preocupar, a população começa a dar sinais aceitar barracas improvisadas, crises de dependência química no meio da rua e deterioração urbana como parte inevitável da paisagem – o famoso “fazer o quê, né?”. Um perigoso sinal de anestesia social. Reconhecer que seres humanos vivam nessas condições e não fazer nada é, por si, só uma forma de violência institucional.
A meu ver, Londrina precisa decidir se vai apenas continuar tratando os sintomas ou vai bater o pau na mesa e enfrentar as causas. Porque segurança pública não se resolve com só com policiamento, assistência social não se resolve com abrigo emergencial e desenvolvimento urbano não se sustenta quando parte significativa da população vive em condições precárias de forma invisível.
O desafio exige coragem política, gestão eficiente e menos discurso superficial para redes sociais. Mas parece que nossa atual administração só sabe sobre o último.
Hoje, o maior problema de Londrina talvez não seja apenas a população em situação de rua, mas a incapacidade coletiva da sociedade civil, organizada e da administração pública de enfrentar a questão com seriedade, humanidade e inteligência.
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
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