Por Suzi Bońfím
Os professores da rede estadual do Paraná realizam uma Semana de Luto e Luta em Defesa da Vida, um protesto contra as condições de trabalho da categoria. A mobilização é marcada por uma dor profunda: a perda da professora Silvaneide Monteiro Andrade, do Colégio Estadual Jayme Canet, também em Curitiba, vítima de um infarto dentro da escola na última sexta-feira (30).
De acordo com colegas da instituição, Silvaneide, que lecionava Língua Portuguesa, estava sendo pressionada por resultados relacionados ao uso das inúmeras plataformas digitais impostas pela Secretaria de Estado da Educação (Seed). Era mais um dia comum de cobranças por dados, índices e relatórios quando ela sofreu o mal súbito — e não resistiu.
A morte de Silvaneide não é um caso isolado. É o retrato de um modelo de gestão que transforma a rotina pedagógica em um campo de estresse e adoecimento. Professores e equipes escolares enfrentam um verdadeiro bombardeio de exigências: plataformas como LEIA, Redação Paraná, Matemática Paraná, Quizizz, Agrinho, Recomposição da Aprendizagem, simulados quinzenais, Semana Tech, Desafio Paraná Online, entre outros. Uma avalanche de burocracia que vem travestida de “inovação educacional”.
A cobrança não para por aí. Diretores, pedagogos e demais gestores são monitorados semanalmente pelas tutorias da Seed e pelos Núcleos Regionais de Educação, com foco nos dados gerados por plataformas como o Power BI. São dezenas de indicadores: frequência, uso das plataformas, rendimento, relatórios de estudantes com notas abaixo de 40 pontos, entre outros. Tudo isso com metas rígidas, como a de manter 85% de frequência mínima — acima do que prevê a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que estipula o limite de 25% de faltas.
Até quando o luto e a luta?
Estamos diante de uma política que ignora a realidade da sala de aula e impõe metas inalcançáveis. O resultado? Professores adoecem, se sentem amedrontados, acuados e desmotivados. A relação pedagógica com os alunos se desgasta. E a educação, que deveria ser um espaço de crescimento e criatividade, se transforma em um ambiente de medo e pressão.
Até quando vamos assistir calados a esse cenário? Até quando vamos tolerar que a escola pública seja submetida a uma lógica de produtividade cega, onde o que importa não é a aprendizagem, mas os números nas planilhas?
O governo do Estado tem promovido verdadeiros desmontes sob o pretexto do “custo-benefício”. A militarização das escolas, as parcerias com empresas privadas, a padronização do ensino — tudo isso aponta para um modelo que silencia, controla e robotiza.
É hora de reagir. É hora de repensar que tipo de educação queremos para nossos filhos. Uma educação voltada para formar cidadãos críticos e criativos — ou apenas reprodutores de conteúdo, adestrados para alimentar gráficos?
Silvaneide não pode ter partido em vão. Que sua memória nos lembre, todos os dias, que sem dignidade para os educadores, não há futuro possível para a educação.
Suzi Bońfím

Jornalista, formada na UEL, por quase 30 anos morou em Cuiabá -MT. De volta a Londrina-PR, vive a fase R de reencontros e renovação, respirando novos ares. Escreve sobre o que acredita por um mundo melhor. Instagram @suzi.bonfim
Leia mais colunas Na minha opinião…
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

