Por professor Renato Munhoz
Nos últimos anos, a palavra “antirracismo” foi domesticada. Tornou-se slogan, adesivo, camiseta. Mas o que nos inquieta — e deve mesmo inquietar — é: quando deixaremos de celebrar apenas as intenções e partiremos, de fato, para as ações concretas que transformam o espaço escolar em ambiente antirracista?
Não basta afirmar que “a escola é para todos” se ela continua a reproduzir uma lógica silenciosa de exclusão, de apagamento e de negação da experiência negra. É preciso que os educandos negros sejam chamados, com urgência, a serem protagonistas de suas histórias, sujeitos do processo educativo e não apenas corpos tolerados, objetos de políticas paliativas.
Como lembra Silvio Almeida, “o racismo estrutura a sociedade”. E se estrutura a sociedade, estrutura também a escola: define currículos, organiza afetos, disciplina corpos. Não há neutralidade possível. A escolha é entre manter as estruturas ou subvertê-las. E uma educação antirracista é, necessária e urgente.
A educação como lugar de superação e não de manutenção do racismo
O Mapa da Violência de 2023 revelou que 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros. Dado cruel, mas que deve ecoar nos corredores escolares: a escola ainda não é um espaço seguro e afirmativo para esses jovens. Ela muitas vezes é extensão da rua, que os criminaliza, que os silencia, que os invisibiliza.
O que significa, então, ser antirracista na escola? Significa criar currículos que rompam com a narrativa eurocêntrica que ainda predomina; significa garantir que referências negras estejam presentes nas aulas de História, Literatura, Ciências, Filosofia; significa, sobretudo, propor práticas pedagógicas que estimulem a valorização das identidades negras e o fortalecimento de sua autoestima.
Como bem escreveu Frantz Fanon: “o negro não é apenas negro, ele é negro em relação ao branco”. Ou seja, a identidade negra tem sido historicamente construída sob o signo da subalternidade, e cabe à educação promover a descolonização dessa subjetividade. A Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira, foi um passo importante, mas ainda muito tímido diante da potência que pode e deve ter uma educação antirracista.
Para além da presença, o protagonismo negro
Precisamos parar de contar apenas números de matrículas de estudantes negros e começar a contar histórias de protagonismo. Não basta que haja negros na escola: é preciso que eles ocupem os espaços de fala, que sejam reconhecidos como intelectuais, que tenham suas culturas e saberes valorizados.
Bell Hooks nos ensinou que “ensinar é um ato de resistência”. Então que resistamos! Que resistamos à tentação de transformar a luta antirracista em mais um conteúdo a ser “passado”, domesticado e esvaziado de sua radicalidade. Que entendamos que uma educação antirracista não é um apêndice do currículo, mas um princípio organizador de todo o projeto pedagógico.
Como está nossa escola? Como estão nossas salas de aula? Quantos autores negros nossos alunos conhecem? Quantos professores negros ocupam postos de destaque? Quais memórias e epistemologias são celebradas e quais são esquecidas? São perguntas desconfortáveis, mas que precisam ser feitas.
Por uma escola que convoque transformação antirracista

A educação que queremos — e que precisamos — não pode se contentar com boas intenções ou frases motivacionais nas redes sociais da escola no Dia da Consciência Negra. É preciso trabalhar cotidianamente para romper com o ciclo da invisibilização, que se expressa tanto na ausência de referências quanto na naturalização de violências simbólicas e materiais.
Em 2020, durante as mobilizações do Black Lives Matter, Angela Davis nos lembrou: “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Isso significa ação, movimento, desconforto. E a escola deve ser o lugar privilegiado desse desconforto criativo, desse tensionamento permanente das estruturas que sustentam o racismo.
Mais do que formar bons alunos, precisamos formar cidadãos críticos, capazes de compreender as raízes históricas e estruturais do racismo e, mais ainda, capazes de combatê-lo.
Por fim, se a escola é espaço de formação de sujeitos, que ela forme sujeitos livres, plenos, inteiros — e que jamais permita que a cor da pele continue a ser marcador de destino, como tem sido historicamente.
Como professor, afirmo: mais do que nunca, urge pensar e fazer uma escola antirracista. Não amanhã, não no próximo projeto pedagógico, não no próximo governo. Agora.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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