Por Suzi Bońfím
Um dia destes encontrei o jornalista e professor Chico Amaro, em um evento em Londrina, e comentei que tinha nos meus arquivos a fita cassete do programa de rádio produzido, sob a supervisão dele, no 8º semestre da faculdade de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, em outubro de 86. O professor, prontamente, anotou meu celular e no outro dia me passou o contato do técnico em eletrônica Marcos Vieira, para que eu pudesse resolver o problema: digitalizar o conteúdo da fita cassete quase 40 anos depois.
Mandei uma mensagem explicando o meu interesse e envei a fita para Marcos que se dispôs a avaliar o material. Dois dias depois, recebo o arquivo em MP3 do programa de 19 minutos produzido por mim, Lenir Brizzi e Cássio Ventura, o Tinim (não sei por onde anda), gravado no Núcleo de Tecnologia Educacional da Universidade Estadual de Londrina (UEL): Há vida na velhice. Lembro que, ao definir o título do programa, o professor Chico Amaro apontou duas intenções: Há vida, no sentido de existir e A vida, sobre como ela acontece.
Fiquei emocionada ao ouvir o material e relembrar este período especial das nossas vidas. Foi como entrar em uma máquina do tempo com a linguagem e o som de vinil de músicas de Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Zé Ramalho na trilha sonora. Sem entrar no mérito da qualidade do produto final, com certeza, tivemos sorte na definiçao dos personagens do programa.

A velhice em 1986
Um dos idosos entrevistados, na época, foi o aposentado Luiz Mendonça, 89 anos, que mesmo com 11 filhos, morava sozinho porque não queria contrariar os princípios deles e para manter os seus costumes antigos. Ele cuidava da saúde com homeopatia e espantava a solidão lendo muito, fazendo ginástica antes do banho gelado e patinando de madrugada. “Eu sentiria solidão se não gostasse de literatura. Leio até as 24 horas ou mais e pratico a patinação. Ponho os patins nos pés e saio de madrugada porque não tem movimento de carros”, contou seu Luiz Mendonça.
Na época, também entrevistamos um idoso que não queria ter 20 anos de novo e estava tranquilo com a aposentadoria que recebia: “Hoje está melhor do que quando eu tinha 20 anos. Naquele tempo, só me preocupava com trabalho, agora, se não trabalhar o ordenado dá pra eu viver folgado”, garantiu.
No programa, o relacionamento e o sexo foram apontados como essencial para a vida dos idosos. Um exemplo foi o do casal Antônio e Angélica que encontramos na praça do Aleijadinho. “Eu me sinto velho, mas se eu ficar sozinho, me sinto mais morto, mais apagado ainda. Ter uma companheira dá forças”, disse o seu Antônio. E Angélica concordou com ele, “ a gente não pode ficar sozinha”. Já o sexo foi considerado por eles como sendo com mais liberdade. “Temos mais responsabilidade, não tem mais o que perder”.
Velhice não é doença
Do ponto de vista físico, a partir dos 65 anos, idade que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pessoa era considerada idosa, o geriatra Wesley Vilas Boas, afirmou que é a melhor fase do ser humano.
“Velhice é um estado de espírito, não é doença. Assim como existe segregação racial, existe segregação do velho. A terceira idade é a fase mais importante da pessoa porque ela conseguiu chegar lá. Acumulou experiências, têm mais tempo pra passear e se divertir do que quando estava na fase adulta, sem tempo pra nada”, disse o geriatra que apontou também a necessidade de prevenção das doenças do coração como a aterosclerose e o câncer, as mais comuns, segundo ele.
Já a psiquiatra Sandra Vargas Nunes falou de alterações nesta fase como na memória. “As lembranças que se perdem com o envelhecimento são as lembranças recentes. Esta volta ao passado é de uma maneira progressiva e uniforme”, constatou a psiquiatra. Segundo ela, a velhice também acentua características da sua personalidade. “Se você sempre foi uma pessoa preocupada com dinheiro, quando ficar velho isso será mais intenso”, explicou
Quando o assunto é sexo, a psiquiatra afirmou que ele não acaba. “A pessoa idosa do sexo masculino vai demorar mais tempo para ter uma ereção do que o jovem, que tem rapidamente. Em compensação, o idoso vai manter a ereção por mais tempo. O mesmo acontece com a idosa, a lubrificação que dá a excitação é um pouco menor, mas a contratação do músculo dura um pouco mais. Não é só declínio, o organismo arrumou um meio de compensar isso”, ressaltou.
A velhice hoje
Relembrar o trabalho acadêmico de conclusão de curso e hoje estar envolvida profissionalmente com o tema no O LONDRINE̅NSE, ao lado minha sócia, a jornalista Telma Elorza, amiga desde os tempos da faculdade, reforça a minha convicção de que nada acontece por acaso.
A realidade da velhice há 40 anos, se comparada com os dias atuais, tem diferenças visíveis. Entre elas, garantias constitucionais e o número de pessoas com mais de 60 anos bem maior do que no século passado. Além disso, os idosos estão vivendo muito mais. As estimativas apontam que a população desta faixa-etária atualmente representa cerca de 15% dos brasileiros e, até 2050, serão 30%.

Como é a vida do velho de hoje e como a sociedade está se preparando para este novo cenário são alguns dos questionamentos da série de entrevistas no O LONDRINE̅NSEPOD sobre o envelhecimento, que estamos produzindo. Eu e Telma Elorza, em plena fase da envelhecência, fomos em busca de algumas respostas sobre o que a gente está vivendo como mulher e profissional em um mercado de trabalho onde o etarismo é cada dia mais cruel. Não nos sentimos velhas como a sociedade ainda insiste em taxar.
A série DE REPENTE 60, como envelhecer com qualidade de vida está saindo do forno e você não pode perder. Em breve.
Suzi Bońfím

Jornalista, formada na UEL, por quase 30 anos morou em Cuiabá -MT. De volta a Londrina-PR, vive a fase R de reencontros e renovação, respirando novos ares.
Atua em assessoria de imprensa, rádio e tv. É sócia do O LONDRINE̅NSE e entrevistadora do O LONDRINE̅NSEPOD.
Instagram @suzi.bonfim
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Uma resposta
Que delícia ler teu texto, Suzi! Voltei no tempo aqui. Quarenta anos se passaram e tivemos a sorte de entrar para o time das pessoas que abordamos no TCC, né? Nunca esqueci o que disse a psiquiatra entrevistada, de que na velhice recordamos as coisas mais antigas, mas vamos perdendo as memórias mais recentes. Assim, me lembro com muita saudade desse trabalho, de você, do grande Chico Amaral, de todas as pessoas envolvidas. Assim como me lembro do primeiro dia que fui à escola, aos 6 ou 7 anos de idade. Mas, o que será mesmo que comi no almoço??? O mais legal dessa profissão é o quanto aprendemos com ela. Melhor ainda quando usamos esse aprendizado, como você faz agora. Parabéns!