Por Telma Elorza
“Estou casado, porém minha esposa se tornou uma mulher tóxica, que se intromete na minha relação com minha mãe, idosa e sozinha. Minha mãe necessita, muitas vezes de ajuda na casa dela e sinto essa necessidade em ajudar. Minha esposa não entende isso. As duas já tiveram um bom relacionamento, porém ficavam de fofocas e leva e traz sobre minha vida, ao ponto de eu não gostar e interferir. Hoje, o resultado é esse conflito. No entanto, não me sinto a vontade em deixar minha mãe, principalmente em algumas necessidades dela. Eu sou o provedor da casa, minha esposa é escandalosa, faz chantagens emocionais, quer ser autoritária e distorce as coisas, tornando a convivência difícil. O que faço?”
Caro leitor, senta que vamos ter uma longa conversa. E, para começar, eu vou pressupor (já que você não disse nada sobre isso) que você é filho único e que sua mãe não tem mais a quem recorrer em caso de dificuldades. Porque essa conversa só vale nesse caso. Se, por outro lado, sua mãe tem outros filhos, sua mulher está certa e você está errado. Ponto. Entendidos? Então vamos lá.
O primeiro passo é entender que casamento raramente desanda de uma hora para outra. Normalmente, é um acúmulo de pequenas coisas e tensões mal resolvidas e, no seu caso, tem um ingrediente clássico, o conflito entre mãe e esposa.
Isso é quase um “clichê” das relações familiares.
Entenda, você não está errado em querer cuidar da sua mãe. Ela é idosa, está sozinha e precisa de apoio. Isso não é só um dever moral, mas também um vínculo afetivo legítimo. Ignorar isso para manter a casa em paz seria, no mínimo, covardia emocional.
Só que também não dá para ignorar completamente o lado da sua esposa.
Quando você descreve sua mulher como “tóxica”, “escandalosa” e manipuladora, pode haver verdade nisso, mas esse tipo de rótulo costuma simplificar demais um problema que é mais complexo.
Pessoa não ficam difíceis do nada. Muitas vezes, esse comportamento vem da insegurança, da sensação de perda de espaço e até do ciúmes (sim, isso existe, mesmo que ninguém goste de admitir).
No início, elas se davam bem, conversavam, trocavam confidências. Em algum momento, isso virou fofoca e “leva e traz”, como você disse e isso o incomodou. Mas será que era fofoca mesmo? Ou apenas reclamações e desabafos delas sobre você?
Você cortou esse tipo de coisa. Fez bem? Não sei. Não sei o tipo de conversa que elas tinham. Estou me guiando pelas suas palavras – e elas representam só o seu lado. Mas, ao meu ver, ao cortar esse canal de comunicação entre elas, talvez tenha deixado um vazio mal resolvido. E isso virou conflito.
Esposa perdeu espaço na sua vida?
O que eu vejo agora é que, do lado da sua esposa, pode existir a sensação que ela perdeu espaço na sua vida ou que sempre ficará em segundo plano, em relação a sua mãe. Principalmente porque, quando você assume o papel de provedor, em vez de fortalecer a relação, às vezes cria uma dinâmica de poder meio torta. Tipo “eu trago o dinheiro para casa, você deve aceitar tudo o que eu faço”. E ela pode tentar “compensar” sendo mais controladora; “ah, não vou aceitar ordens suas”.
Você parece estar carregando o mundo nas costas – provedor, filho presente, mediador de conflitos e ainda tendo que lidar com uma pressão emocional – e isso cansa. Nestes casos, a tendência é endurecer o olhar sobre o outro “que não está sendo compreensivo e nem ajudando”.
Como resolver tudo isso?
Primeiro, pare de tratar como uma disputa entre o “certo (como você se vê) e errado (como vê sua esposa)”. Não é nada disso. É só uma questão de limites mal definidos.
Você precisa conversar, com calma, com sua esposa e deixar claro que ajudar sua mãe não está em negociação. É algo que você precisa fazer.
Mas, junto com isso, vem o segundo ponto: estabelecer limites também com sua mãe. Ajudar não significa estar disponível 24 horas, se anular nem permitir dependência total. Existe uma linha bem definida entre cuidado e sobrecarga. E você precisa enxergar onde está pisando.
O terceiro ponto é ouvir sua esposa precisa ser ouvida de verdade. Não é só ser “tolerada”. Em vez de rebater quando ela explode, tente entender o que está por trás. Pergunte, com sinceridade, “o que exatamente a incomoda nisso tudo”? Escute sem interromper, sem ser impaciente. Pode vir coisas que você não vai gostar, mas que, provavelmente, vão esclarecer muito a situação.
É preciso também estabelecer regras claras de convivência, entre todos. Nada de fofoca, nada de intermediários, nada de mensagens atravessadas. O que for problema, se resolve diretamente, conversando, com respeito.
E isso vale para você também. Não adianta querer só paz. Sendo bem honesta, se há chantagem emocional constante e distorção de fatos, isso passa de um simples conflito e entra num padrão de relacionamento desgastante. Nesse caso, seria bom buscar terapia de casal, que não é luxo, mas uma ferramenta poderosa para entender a dinâmica estabelecida.
Na minha opinião, você não precisa escolher entre sua mãe e sua esposa. Mas precisa escolher que tipo de postura quer ter. Você é alguém que reage ao caos ou alguém que organiza tudo, mesmo que isso exija conversas difíceis?
Porque evitar conflito pode até trazer silêncio por um tempo, mas não traz paz de verdade.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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