Por Edmilson Palermo Soares
O Vale do Itata é um dos terroirs mais fascinantes, autênticos e vibrantes do Chile.
Localizado cerca de 500 km ao sul de Santiago, na região de Ñuble/Biobío, Itata representa o “berço” do vinho chileno, combinando vinhedos centenários com uma revolução moderna de enologia minimalista.
Itata é a região vinícola mais antiga do Chile. Foi lá que os padres jesuítas e espanhóis plantaram as primeiras videiras de Vitis vinifera por volta de 1550 (famoso “marco zero”, em locais como Guarilihue).
Durante séculos, dominou a produção nacional com vinhos camponeses rusticamente elaborados em cubas de madeira (fudres) ou ânforas de argila (tinajas), conhecidos popularmente como vinhos pipeños.
A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, o modelo francês de corte bordalês (Cabernet Sauvignon, Merlot) assumiu o protagonismo nos vales centrais (como Maipo e Colchagua).
Em 1939, um forte terremoto em 1939 abalou a infraestrutura local. Itata acabou relegada ao ostracismo, sendo vista por décadas apenas como uma região de vinhos de mesa baratos e a granel.
No final dos anos 2000, um grupo de enólogos e geólogos visionários (como Pedro Parra, François Massoc e vinícolas como a De Martino) “redescobriu” o tesouro escondido de Itata: milhares de hectares de vinhas velhas centenárias, sem irrigação e conduzidas em pé-franco (sem enxerto). O vale tornou-se o centro do movimento de vinhos naturais, artesanais e com foco em terroir no Chile.

Características geográficas e terroir de Itata
- Clima: Mediterrâneo fresco e úmido. Diferente do calor seco do Vale Central, Itata recebe forte influência do Oceano Pacífico e possui pluviosidade mais elevada (mais de 1.000 mm/ano).
- Secano Interior (Dry Farming): A maioria das videiras antigas sobrevive exclusivamente com a água das chuvas do inverno, sem irrigação artificial (dry farming). Isso força as raízes das plantas a irem muito fundo na terra em busca de umidade e minerais.
- Solos graníticos antigos: O grande diferencial de Itata são os seus solos de quartzo e granito alterado de milhões de anos (da Cordilheira da Costa). Esses solos conferem aos vinhos uma acidez vibrante, textura de taninos muito fina e forte caráter mineral/salino.
- Manejo tradicional: O plantio em sua maioria é em cabeça/taça (gobelet), com densidade baixa, adaptado para permitir que o cavalo e a enxada façam o trabalho agrícola tradicional entre os morros e pinheirais.
Principais uvas
Em Itata, as uvas tradicionais camponesas superam as variedades internacionais clássicas:
- Cinsault: A grande estrela tinta da região, introduzida na área após o terremoto de 1939 para melhorar os vinhos locais. Produz tintos de cor clara, extremamente perfumados (frutas vermelhas silvestres, florais), de corpo leve a médio e acidez alta.
- País (Listán Prieto): A primeira uva trazida pelos espanhóis no século XVI. Tradicionalmente usada no vinho Pipeño, hoje gera tintos leves, muito rústicos, com notas de terra, ervas secas e alta textura de boca.
- Moscatel de Alexandria: A uva branca símbolo da região. Em Itata, não gera vinhos apenas doces; produz brancos secos incrivelmente aromáticos (jasmim, cítricos), além de ser a base perfeita para vinhos laranjas (com macerado de cascas).
- Semillon e Carignan: Vinhas antigas dessas variedades geram vinhos brancos e tintos estruturados e gastronômicos.

Principais vinícolas e produtores
A cena em Itata divide-se entre pequenos produtores locais patrimoniais, enólogos de projetos autorais e vinícolas consagradas do Chile que compraram terras lá:
Pedro Parra y Familia: Fundada pelo renomado consultor de solos “Dr. Dirt” (Pedro Parra), focado em extrair a máxima expressão do granito em vinhedos de Cinsault e Pais.
De Martino: A grande pioneira corporativa a engarrafar o potencial moderno da região, famosa por resgatar a vinificação em ânforas de argila (tinajas) sem uso de madeira.
Clos de Luz / Pandolfi Price: Produtores focados na expressão elegante de vinhas velhas (incluindo surpresas como Chardonnay e Pinot Noir de clima frio em zonas de Itata).
Vinos de Patio: Coletivo de jovens produtores/enólogos locais de Guarilihue focado na produção natural e artesanal.
Rogue Vine / Garage Wine Co.: Projetos focados na intervenção mínima, preservação das famílias camponesas e expressões puras das uvas autóctones.
Projetos de grandes vinícolas: Roberto Henríquez, Montes (linha Outer Limits), Torres Chile (linha La Causa) e Morandé (Adventure).

Vinhos mais importantes e emblemáticos
Se você deseja explorar o que há de melhor no Vale do Itata, estes rótulos são referências mundiais do terroir:
De Martino Viejas Tinajas Cinsault: O vinho divisor de águas da região. Fermentado e estagiado em ânforas de argila antigas, sem carvalho. É puro suco de fruta vermelha com mineralidade fluida e acidez brilhante.
Pedro Parra “Imaginador” Cinsault: Um dos Cinsaults mais pontuados da América Latina pela crítica internacional (como Robert Parker e James Suckling). Mostra a elegância e a profundidade que o solo de granito confere à uva.

Pedro Parra “Hub” ou “Trancura”: Vinhos de parcelas específicas (Cru) que mostram como solos graníticos diferentes alteram a estrutura do vinho.
Pandolfi Price “Los Parientes” Chardonnay: Prova que Itata também faz brancos elegantes e minerais de classe mundial fora do eixo das uvas tradicionais.
A Los Viñateros Bravos “Granitico” (Cinsault / Pais): Vinhos feitos por Leonardo Erazo, celebrando a viticultura ancestral sem filtros nem produtos químicos.
Torres La Causa / Miguel Torres Tenaz Cinsault: Rótulos que ajudaram a projetar comercialmente a região para o mercado externo.
Um brinde!
Foto principal: Pedro Parra y Familia
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
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