Por Edmilson Palermo Soares
O descaminho (entrada, no país, de mercadoria lícita sem o pagamento de impostos) e o contrabando (entrada de mercadoria proibida ou falsificada) são os maiores “inimigos invisíveis” do mercado formal de vinhos no Brasil.
Esse fenômeno impacta diretamente a competitividade e a saúde do setor.
Em 2026, com o aumento da fiscalização digital, os números ficaram mais claros, mas o prejuízo ainda é bilionário.
Prejuízo financeiro e evasão fiscal do descaminho
Estima-se que o Brasil perca entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões por ano em arrecadação de impostos apenas no setor de vinhos e bebidas destiladas devido ao mercado ilegal.
Enquanto o produto legal paga IPI, ICMS-ST, PIS/COFINS e taxas de importação (que podem dobrar o preço de uma garrafa), o produto de descaminho chega ao consumidor final por um preço que, muitas vezes, é menor do que o seu custo de compra no distribuidor oficial.
Isso força o lojista formal a reduzir sua margem para tentar competir, desestabilizando o fluxo de caixa de pequenos negócios.
Degradação da cadeia de empregos
O mercado ilegal não gera empregos formais, não paga encargos trabalhistas e não investe em treinamento.
Para cada milhão de litros que entra ilegalmente, o mercado formal deixa de contratar sommeliers, vendedores, logísticos e educadores.
Vinícolas estrangeiras podem desistir de ter representantes oficiais no Brasil se o volume de garrafas “cinzas” (ilegais) for maior que o das vendas legais, reduzindo a diversidade de rótulos disponíveis.
Risco à saúde e quebra de confiança
Vinhos de descaminho geralmente atravessam a fronteira em caminhões sem refrigeração, expostos ao sol e ao calor. O consumidor compra um vinho “famoso”, mas que está oxidado ou cozido.
O contrabando abre porta para vinhos falsificados (enchimento de garrafas premium com vinho barato).
Se um cliente compra um vinho ilegal “estragado”, ele pode passar a acreditar que aquela uva ou região não é boa, prejudicando o trabalho de educação enológica.
O impacto na distribuição de renda
O dinheiro do vinho ilegal geralmente alimenta o crime organizado e não retorna para as comunidades produtoras.
No mercado formal:
- O lucro de uma vinícola nacional sustenta a agricultura familiar.
- O imposto pago em Londrina financia a infraestrutura local.
- O mercado ilegal retira o incentivo para o enoturismo, já que o produtor perde a proteção de preço do seu produto.
O vinho com “Garantia de Procedência”, que é armazenado corretamente e tem selo do IPI não é apenas uma questão legal, é uma garantia de que o cliente sentirá o sabor real que o enólogo planejou.

Outros aspectos do descaminho
Além do impacto financeiro direto, o descaminho e mercado ilegal de vinhos atua como um “corrosivo” em várias camadas da sociedade e do setor gastronômico. O prejuízo é multissetorial e vai muito além do que se vê na etiqueta de preço.
Financiamento do crime organizado: Diferente do passado, onde o descaminho era visto como uma “pequena infração de fronteira”, hoje ele é uma operação sofisticada.
Logística do crime: As mesmas rotas usadas para o vinho ilegal são frequentemente utilizadas para o tráfico de armas e drogas. Ao comprar um vinho sem procedência, o consumidor final pode estar, indiretamente, injetando capital em organizações criminosas que desestabilizam a segurança pública.
Poder de corrupção: O alto lucro do mercado ilegal de bebidas (que já se equipara ao do cigarro em algumas regiões) aumenta a capacidade de corrupção de agentes públicos nas fronteiras, enfraquecendo o Estado.
Falsificação e Adulteração: Com o aumento das apreensões (que passaram de 40 mil garrafas só no primeiro semestre de 2025, no RS), descobriu-se que muitos vinhos são “montados”. Usa-se garrafas e rótulos originais com líquidos adulterados, que podem conter substâncias tóxicas ou excesso de metanol.
Ausência de Controle Sanitário: Vinhos legais passam por análises laboratoriais rigorosas antes de serem comercializados. O vinho ilegal ignora qualquer norma de higiene, podendo causar desde intoxicações leves até danos permanentes.
Os números de 2025/2026 são impressionantes:
- Evasão Fiscal: A perda fiscal acumulada com o mercado ilegal de álcool no Brasil equivale a aproximadamente 12% de todo o orçamento do SUS (Sistema Único de Saúde) em 2024.
- Custo da Fiscalização: O governo precisa deslocar recursos massivos da Polícia Federal e Receita Federal para combater o contrabando, recursos que poderiam ser usados para o combate a crimes violentos ou infraestrutura urbana em cidades como Londrina.
Desestímulo à Inovação e Sustentabilidade
No mercado formal, as vinícolas brasileiras estão investindo pesado em ESG (sustentabilidade ambiental e social) e novas tecnologias de vinificação.
Quando o mercado ilegal domina uma fatia grande (estimada em bilhões de reais), as vinícolas formais perdem margem de lucro para reinvestir em máquinas mais modernas ou em práticas de agricultura regenerativa.
O pequeno produtor boutique não consegue competir. O mercado ilegal nivela o preço por baixo, impedindo que o consumidor entenda o valor real de um vinho feito com ética e cuidado.
Pense bem se o que você está economizando na compra de um vinho não está lhe causando mais prejuízo.
Um brinde!
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
Leia todas as colunas do Mundo do Vinho
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.


