Você usa roupa gasta ou furada?

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Por Ana Paula Barcellos

Certa vez, uma moça entrou em uma clínica de estética na Gleba, em Londrina, vestindo um macacãozinho cheio de furinhos charmosos. A massagista, com bom humor, deu aquela chamada carinhosa: “Menina, esse macacão tá pedindo aposentadoria!”. Ela riu, rebateu no mesmo tom e disse: “Eu amo ele, não vou parar de usar por causa de uns buracos”.

Eu tenho dois vestidos longos que já viram dias melhores. Batidinhos, mas super confortáveis. Quando vou fazer massagem, drenagem ou qualquer procedimento que envolva creme, óleo ou deitar na maca, eles são meus escolhidos. Práticos, macios, e o principal: não fico nem um pouco preocupada se ficarem melados. Se sujar, lava e volta pro ciclo. E também não dou a mínima pros olhares alheios.

A gente deveria aposentar uma peça perfeitamente usável porque ela tem um desgaste, um remendo, um furinho discreto? Ou isso é mais um sintoma daquela pressão louca por perfeição que a moda fast fashion nos vendeu?

Recentemente, deparei com um post que caiu como luva nessa conversa. No perfil @fash_rev_brasil (Fashion Revolution Brasil), eles publicaram um carrossel com a legenda “DESINFLUENCIANDO VOCÊ”. No slide 6, a frase certeira: “Usar sapatos com a sola gasta, roupas antigas e com pequenos remendos ou ajustes é normal.”

Sinal de afeto pela peça de roupa

Buraquinhos na roupa é motivo de descarte automático? Talvez você deva repensar ´porque pode estar sendo vítima da pressão fast fashion
Fotos: IA/Freepik

Exato. Normal. E necessário, diria eu, numa sociedade obcecada por aparência impecável, onde trocar de guarda-roupa a cada estação virou “normal” também. Vivemos num sistema que glorifica o consumo desenfreado: compre, use duas vezes, descarte, repita. Enquanto isso, o planeta afunda em lixo têxtil e as pessoas se sentem inadequadas por usar a mesma blusa favorita há três anos.

Um remendo bem feito, um conserto caprichado ou até um furinho que a gente decide abraçar não é sinal de desleixo. É sinal de afeto pela peça, de consciência do valor real das coisas, de resistência a essa lógica do descartável. É, no fundo, um pequeno ato revolucionário no armário.

Claro, tem limite, e tem contexto também – uma entrevista de emprego ou evento formal pede um certo polimento, ok. Mas no dia a dia? Num rolê casual, na academia, na massagem, no mercado? Sem frescura.

Ah, e uma ressalva: não é pra vender no brechó aquela calça puída, remendada e com mancha discreta por R$ 30 achando que é “vintage premium”. A gente já sabe como é… combinado? Que tem uns brechós por aqui que perdem a mão!

E você, já levou bronca (ou deu) por causa de uma roupa “velhinha”? Ou tem aquela peça que você ama justamente pelos sinais de vida que ela carrega?

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.

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