Por Ana Paula Barcellos
Sim sim, de novo. O neon está voltando com tudo, em todas as cores, com o limão gritando na frente, claro. A Miu Miu, rainha do ugly chic que a Miucha Prada ama, jogou pesado nas passarelas de 2023, 2024 e claro que ele veio dar pinta no desfile de outras grifes esse ano. A pergunta que segue intrigando é: Por que o neon fascina, mas ainda patina na hora de ser aparecer nos looks do dia a dia?


O neon é aquele conhecido mais ou menos, que chega na festa fazendo barulho: ninguém ignora, mas nem todo mundo quer dançar junto ou ficar perto. Pois nos anos anteriores, a Miu Miu trouxe o neon como protagonista, misturando tons de limão, pink choque e laranja aceso em peças que gritam “olha pra mim”, “me usa”. Pense em saias plissadas com blusas de lã em cores que parecem saídas de um marcador de texto, combinadas com acessórios que misturam o nerd e o cool. É o ugly chic no talo: aquele feio que é tão intencional, tão bem pensado, que vira chique. Miucha, claro, sempre teve faro pra tendências que desafiam o óbvio.

Mas por que o neon tá voltando?
Primeiro, eu digo que é mais um grito de liberdade contra a onda “neo-conservadora”. Depois de tantos tons neutros e minimalismo, muita gente quer mais. A moda quer poder mais. O limão, especialmente, é o rei dessa rebelião: fresco, ácido, impossível de ignorar. Deve aparecer em vestidos, tênis, até em bolsas de grife. É a cor que diz “tô aqui, e daí?”. Além disso, o neon passa pedindo respeito porque tem história: dos anos 80, com sua vibe clubber, aos anos 2000, com o sportswear coloridão. Agora, ele volta repaginado, com cortes sofisticados e combinações que equilibram o exagero. A Miu Miu, por exemplo, jogou limão com cinza, neon com tweed, criando um diálogo entre o extravagante e o clássico.



Ainda assim, a trend segue enfrentando o paradoxo: todo mundo acha o neon o máximo, mas pouca gente usa de verdade (eu mesma praticamente ignoro). Por quê? Porque é corajoso demais, ousado demais? Vestir neon é se expor, é aceitar que vão te notar – e nem sempre é isso que a gente quer. No Brasil, onde a moda ainda flerta com o discreto no dia a dia, um look limão total pode parecer excessivo, até agressivo. Tem também a questão prática: neon não é versátil. Combina com o quê? Como usar sem parecer que tá indo pra uma rave ou garimpou no figurino da “Um maluco no pedaço?” Mesmo quem ama a trend nas passarelas ou no Insta da Miu Miu hesita na hora de abrir o armário.


Ainda assim, o neon vem conquistando, aos poucos, mais espaço. No street style, ele aparece em detalhes: uma bolsa, um tênis, um cinto. É como se as pessoas quisessem flertar com a tendência sem se jogar de cabeça. Por isso acho mesmo e friso que a Miu Miu vai ser das grandes referências, se não A referência, porque facilita isso, oferecendo peças que misturam o neon com shapes clássicos, tipo um casaco de alfaiataria com um forro pink choque. É o ugly chic dizendo: “pode ser ousado, mas também continua sendo você”.
No fim, o neon é mesmo mais um grito de rebelião (e mesmo sem curtir tanto ou usar, eu agradeço). Ele volta porque a gente precisa de cor, de energia, de um tapa no excesso de neutralidade e no conservadorismo. Mas aderir? Aí é com quem tem coragem de brilhar no naipe letreiro. E você, vai de limão ou fica no bege?
Foto principal: Arezzo
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.
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