Por Marcelo Minka
Danny Boyle ressurge com um apocalipse íntimo, filmado com iPhones dentro do caos e editado com fúria. Logo no início do filme surge a imagem de uma ilha isolada, onde o tempo parece ter parado desde o surto do vírus da raiva, 28 anos atrás. É ali, naquela atmosfera tensa e cheia de sombras, que Extermínio 3: A Evolução (ou 28 Years Later) de Danny Boyle (Trainspotting, 1996) e Alex Garland (Ex Machina, 2014) inicia sua jornada: um retorno ao pós-apocalipse que se recusa a ser apenas mais um filme de zumbis, e que chega aos cinemas de Londrina com vigor e muitas camadas a serem desvendadas.
O filme abre com Alfie Williams (debut) como Spike, um garoto de 12 anos vivendo em uma comunidade isolada e quase medieval, protegida por muros e tradições. Seu pai, interpretado por Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos, 2016), o instrui na caça aos infectados, uma cena que mistura rituais e violência, e que mostra que a sobrevivência virou rito de passagem. Quando Spike e sua mãe Isla, vivida por Jodie Comer (Killing Eve, 2018), decidem atravessar a ponte para encontrar o enigmático Dr. Kelson, interpretado com inquietante frieza por Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste, 2014), a narrativa ganha corpo: o que esperavam ser vestígios de civilidade logo se revela um mosaico de violências, igrejas pagãs e infectados mutantes.
A direção de Boyle, agora reencontrando o roteirista Garland e o cinegrafista Anthony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário?, 2008), preserva seu estilo inquieto: as câmeras — muitas vezes smartphones iPhone 15 Pro Max — capturam movimento, respiração e o pulso desta sociedade dilacerada, em cenas que alternam câmera-lenta e agitação, em momentos quase documentários. Em vez de estranhos efeitos de explosão, há elegância visual nos planos onde a câmera busca o rosto humano entre o pânico e a esperança.
Os diálogos são econômicos. O horror visceral, não. A atmosfera é toda construída na luz filtrada, nos silêncios interrompidos por gritos e nos corpos que atravessam o plano — vivos ou mortos. Alfie Williams impressiona pela naturalidade: seu Spike não é herói, é criança perplexa que cai em seus primeiros traumas reais. Jodie Comer oferece um retrato comovente de mãe debilitada, enquanto Aaron Taylor-Johnson entrega um pai endurecido pela dor. Ralph Fiennes domina o médico misterioso, pouco afeito à empatia, mas essencial para o tom filosófico do filme.
Extermínio 3 não se limita a carne sendo devorada

Porque, ao contrário de muitos filmes de zumbi, A Evolução não se limita à carne sendo devorada; ele engaja em debates contemporâneos — isolamento, medo, controle. O Brexit sussurra nas metáforas de fronteiras eretas, ao passo que as imagens de rituais pagãos e comunidades fechadas funcionam como crítica à fuga em tribos autorreferentes. Há tensão entre o desejo de cura e a repetição de padrões violentos; a câmera de Boyle registra esse limiar entre a vida que insiste em existir e a indignidade que a destrói.
Em termos técnicos, é quase impossível ignorar o impacto de usar celulares como câmeras principais: a textura muda, há uma sensação de urgência e crueza, como se o espectador estivesse ali, respirando o mesmo ar poluído de medo. Anthony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário?, 2008) entrega planos que variam entre lindos e grotescos, e a montagem de Jon Harris (Extermínio 2, 2007) explora o contraste entre o silêncio e o estrondo — o que torna o filme um exercício de sensações, não apenas de narrativas.
Por fim, há o uso da trilha sonora do grupo escocês Young Fathers (Trainspotting 2, 2017), que insiste em preencher vazios e tensionar pausas, reforçando a sensação de que a qualquer momento algo pode explodir — ou desmoronar.
Quando as luzes se acenderem, talvez saíamos com o coração acelerado, ainda sob a sombra de Spike olhando para o lado escuro do mundo. O que resta após a morte coletiva? Talvez apenas a pergunta silenciosa: e se os mortos não fossem os infectados — mas nós mesmos, presos em nossos muros sociais e mentais? Extermínio 3 não apenas estraga, mas nos obriga a encarar o espelho da nossa revelia civil.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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