“Mas você não vai falar sobre o estilo da rainha Elizabeth II?”

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Por Ana Paula Barcellos

Quando eu era criança, assim como tantas crianças, ficava fascinada com o universo das princesas e príncipes da Disney. Ainda fico! Tenho minhas memórias afetivas, sou apaixonada por algumas das animações e os figurinos, mesmo os dos desenhos, são um show à parte, né?

Mas eu cresci, virei adolescente, e como boa apaixonada por História que sempre fui (sou historiadora de formação, inclusive), comecei a ler tudo que aparecia sobre o mundo real das rainhas e princesas. E foi um choque! É como ler os originais dos contos de fadas dos Irmãos Grimm, né? Você percebe que o que você acha que sabe e conhece não é real, ou pelo menos não aconteceu exatamente da forma como ensinaram. Pois bem…

Eu devorei tudo o que tinha disponível na época sobre os reis e rainhas da Inglaterra e suas dinastias. E foi eita atrás de eita! Todas as invasões, a exploração de tantos africanos, todas as colônias; aquelas joias da coroa, tão lindas, e cheias daqueles diamantes que representam o sangue de tanta gente, que representam a dominação do colonizador! As relíquias de outros países roubadas e expostas como troféus, o apoio ao nazismo! Naquele momento, eu também entendi o que significa ser uma princesa de verdade e fiquei horrorizada: elas vivem como prisioneiras, uma vida de aparências! Nada a ver com o mundo de sonhos da Disney.

As joias da coroa inglesa também são símbolos de opressão. Foto: Wikimedia

Então, tudo isso pra responder, com muito respeito e carinho, às pessoas que questionaram o fato de eu nunca falar sobre o estilo das mulheres da realeza – principalmente a inglesa. Por que nunca falei de Princesa Diana e seu estilo icônico, que rompia protocolos? Porque nunca falei dos afamados conjuntos da Rainha Elizabeth II? Que eram bem legais, aliás. Bom, pelo mesmo motivo que nunca falei dos vestidos perfeitos da Evita Perón.

Se conservação ambiental sem consciência social é jardinagem, o exercício da Moda sem consciência social é corte e costura. A gente fala tanto de consumo consciente, da produção que explora e precariza o trabalho de milhares de pessoas mundo afora, como enaltecer como símbolo máximo de estilo pessoas que colaboraram e colaboram, ou estão inseridas em um contexto que massacra e explora pessoas?

Evita Perón usava alta costura enquanto o povo argentino vivia na pobreza. Foto: Pinterest

Evita se vestia lindamente de Dior enquanto seus descamisados viviam na pobreza, muitas vezes extrema (“Eu vesti apenas uma rainha, e foi Evita”, disse Dior). Rainha Elizabeth II usufruiu de todas as benesses de ser a monarca de um reinado que foi construído em cima de sangue dos povos colonizados, escravizados e massacrados pelos ingleses. Diana parece ter conseguido fugir um pouco do script, mas, ainda assim, estava inserida nesse contexto e também usufruiu dele e de tudo o que veio com ele. E, se em muitos casos, é possível separar o estilista ou designer de sua criação, assim como se faz com o artista e sua obra, nesse caso já é demais, né?

O reinado de Elizabeth II ainda foi profundamente marcado pelo colonialismo. Foto: Reprodução

A gente vive inserida em um sistema que não deixa muito espaço para a igualdade e o exercício da consciência crítica, né? Quem pode pagar por roupas certificadas, não confeccionadas com mão de obra escrava? Os brechós são uma boa nesse sentido também, mas a pessoa trabalha a vida toda e não pode comprar uma blusa nova? E como ser ecologicamente correta o tempo todo se a gente passa a maior parte do tempo lutando pra sobreviver?

Então gosto de pensar que posso, pelo menos, continuar com esses pequenos atos de resistência. Dar visibilidade a uma Moda que seja a mais inclusiva possível, a mais sustentável possível, a mais honesta possível e, sim, a mais engajada possível, que seja coerente com o que eu digo. E isso inclui as pessoas que a gente escolhe como símbolo de elegância, referência de estilo.

Mas voltemos à nossa programação normal: semana que vem vou trazer dicas sobre peças básicas para ter no guarda-roupa e assim ter opções bacanas para todas as ocasiões e estar sempre bem vestida ou vestido – pagando pouco, claro! Não perca!

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.

Foto principal: Reprodução

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