O extraordinário encontro em Wroclaw, na Polônia 

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Por André Luiz Lima

Gosto de ser brasileiro e, especificamente, londrinense, nesta terra fértil, vermelha, cheia de nutrientes do norte do Paraná.

Londrina, cidade de grande miscigenação que abriu portas dentro de mim com a possibilidade de vários olhares.

Cresci em uma mistura racial de várias etnias, aproximadamente 19, que me ajudaram a traçar meus sonhos ainda quando era criança, e fui fiel a eles, Parecia que seguia o conselho do francês Albert Kahn: “Saia, corra e veja o mundo! Esqueça tudo o que você aprendeu, mantenha os olhos abertos”. E por aí foi André, reunindo grandes pessoas com suas histórias, seus olhares de proteção, se inspirando e desmistificando crenças

Em uma dessas enigmáticas ações da vida, eu estava ministrando um curso de Teatro e Imagem no Festival Internacional de Mulheres nas Artes, no Rio de Janeiro, e os sonhos se cruzaram como por encanto.

Para quem acredita em Gnomos, vamos lá!

Sempre quis ir à Polônia, e não sabia quando chegaria a oportunidade.

Enquanto me organizava para o Festival, me deparo com um currículo impressionante de uma atriz polonesa, que nunca havia estado no Brasil e iria fazer o curso comigo.

Nesse momento, fiquei em silêncio, percebendo a riqueza do que iria viver e me preparei para as trocas. Para tudo a gente se prepara, é o que sempre digo para meus alunos, e não foi diferente comigo.

Foto: Acervo Pessoal

Anna Skubri vinha especialmente para o festival, sendo sua primeira vez desse lado do continente. Além do curso, apresentaria seu primeiro monólogo, “Unhas Quebradas Sobre Marlene Dietrich”. A performance foi um sucesso, apresentada em diversos festivais em polonês, inglês, grego moderno e espanhol.

Falei da aluna, mas na realidade, não sei quem ensinou mais para quem, mas posso dizer que eu aprendi muito. Lembrei-me que o meu primeiro contato com a cultura polonesa havia sido na Warta, um Distrito de Londrina, onde se instalaram em 1953. Anna é polonesa, atriz, marionetista, premiada, passou seis anos em Atenas, estudando artes e colaborando com os teatros Helix e Stoa.

Ficaria horas aqui falando do seu curriculum e talento, mas a principal qualidade, ao meu ver, é sua alta sensibilidade humana, fruto das artes e do meio onde vive, em Wroclaw. Nos tornamos cúmplices, companheiros de nossas diferenças tão iguais, que sempre comento nos meus textos. A partir dos encontros, buscamos respostas para questões internas na tentativa de lidar com as adversidades da vida e simplesmente ser.

E não é que fui para a Polônia quatro meses depois do nosso encontro no Rio? Estava na Europa, peguei um voo barato em Bergamo, na Itália, direto para Wroclaw, cheguei à noite, era inverno, muita neve, parecia que estava em um filme. Anna me recebeu com alegria e já sabíamos da importância do encontro.

Foto: Acervo Pessoal

Eu levava na bagagem a essência da construção do presente para Anna, tão necessária de quem vem de uma cultura forte em tradição e passado, precisando se localizar no agora para dar sentido à vida. Em contrapartida, Anna vem carregada de histórias necessárias para a construção do meu agora, seguimos a jornada da persistência, muita paixão, confiança, podendo se aconchegar, sem julgamentos.

A cidade polonesa de Wroclaw, chamada de Breslávia quando pertencia a Alemanha, parece ter saído literalmente de um conto de fadas. Além de ser linda, construída sobre várias ilhas, tem mais de 200 gnomos escondidos pelas ruas. Essas pequeninas criaturas míticas feitas em bronze brincam de esconde-esconde com os visitantes. Nasceram como um símbolo do movimento de oposição ao comunismo, Alternativa Laranja, no final da década de 80 e estranhamente se tornaram um ícone oficial da cidade em 2001.

Fiquei fascinado com a forte história do passado, a cultura, o artístico em todos os sentido. Dentre eles, o sensível pintor e diretor Tadeusz Kantor, a escola laboratório de Stanislavski, os grandes teatros, a nova e velha arquitetura destruída pela guerra, que ainda me deixa de queixo caído, a descoberta de novos sabores. Pessoas bonitas, clima de inverno, os rios congelados, em um conjunto de trocas de delicadezas, afetos tão necessários naquele momento.

Enquanto andávamos pelas ruas, pensava em várias questões e no valor de confiar no nosso poder interno diante das dificuldades. Lembrando que o que acontece com os outros acontece com qualquer um de nós e isso é natural da vida, tanto para o bem quanto para o mal.

Cuidar com muito zelo o que a vida nos traz, colocando o coração no nosso melhor, fazendo a parte que nos toca, sem estarmos em dívida com a vida. Essas foram as minhas várias reflexões pelas ruas de Wroclaw em meio a Gnomos, sorrisos e sensações.

Foto: Acervo Pessoal

O melhor da arte dos encontros com Anna foi quando eu voltava para meu Hostel em uma noite fria, entre becos iluminados, como nos filmes de Óscares, e Anna me diz o texto que me acompanha diariamente. “Podem tentar acabar com tudo, mas a vida brota, André”. As coisas que estão à nossa volta são passageiras, pessoas, lugares, nossos corpos, mas a vida brota.

E assim voltei para o Brasil, depois desse encontro cercado de tantas imagens, subjetividade, belezas e felicidade pelo aprendizado.

Nesse ano de 2022, a vida brotou para Anna e fui convidado para seu casamento com o grego Panagiotis, onde desejos se tornaram realidade na arte dos encontros!

Eu acredito em Gnomos!

Viva a Vida, André!

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.

Foto: Acervo pessoal

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