Curvas e diversidade real com Karoline Vitto na London Fashion Week

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Por Ana Paula Barcellos

A recente participação da designer brasileira Karoline Vitto na London Fashion Week, com sua coleção de outono/inverno 2026 intitulada “Thaw” (Degelo), trouxe um sopro de ar fresco — e necessário — ao debate sobre corpos na moda. As imagens que circulam nas redes capturam exatamente o que torna o trabalho dela tão impactante: modelos de diferentes tamanhos, etnias e silhuetas desfilando com a mesma confiança, vestindo peças que celebram curvas, dobras e volumes reais.

Em um momento em que a indústria escolhe regredir para padrões de magreza extrema — impulsionados por discursos que normalizam o uso de medicamentos emagrecedores como Ozempic e canetas semelhantes —, Vitto optou por um posicionamento claro e corajoso. Sua passarela não foi apenas um desfile: foi uma resposta direta à pergunta que ela mesma lançou no release da coleção: “Onde foram parar todas as modelos curvy?”

Elas não foram a lugar nenhum. Elas estavam lá, caminhando com confiança, em looks que misturam tecidos fluidos, recortes ousados, armações metálicas e drapejados precisos, todos construídos para valorizar o corpo como ele é.

A designer catarinense, radicada em Londres há anos e apoiada pelo BFC Newgen, sempre colocou o corpo no centro do processo criativo. Sua marca homônima, fundada em 2020, trabalha com uma cartela de tamanhos ampla (de XS a 3XL) e silhuetas esculturais que dialogam com a sensualidade e a força feminina sem cair em estereótipos.

No desfile de fevereiro de 2026, isso se traduziu em vestidos brancos de malha que abraçam o corpo, peças pretas com aberturas estratégicas, acessórios metálicos que funcionam como joias arquitetônicas e uma estética que mistura glamour cru com atitude contemporânea. Modelos como Fernanda Liberti (amiga de longa data da designer) e outras mulheres de corpos diversos trouxeram autenticidade à passarela, mostrando que inclusão não é tendência passageira, mas possibilidade real e necessária.

O timing de Karoline Vitto

O que mais impressiona é mesmo o timing. Enquanto parte da moda global volta aos anos 90/2000 com silhuetas esquálidas, Vitto reforça que diversidade corporal não é “radical” — é padrão que deveria ser adotado por todos. Seu trabalho questiona: por que ainda precisamos lutar por visibilidade quando o corpo real é a maioria? E mais: como a moda pode continuar relevante se ignora a pluralidade que existe fora das passarelas?

Para além da estética de Vitto, há uma reflexão profunda sobre representatividade e saúde mental. Em um mundo onde a pressão por corpos “perfeitos” (ou seja, cada vez mais finos) afeta milhões, ver uma brasileira ocupando espaço na LFW com modelos que representam mulheres reais é inspirador. É um lembrete de que moda pode — e deve — ser ferramenta de empoderamento, não de exclusão.

Karoline Vitto não está apenas vestindo corpos; está vestindo identidades, histórias e resistências. E, nesse degelo que ela propõe, talvez a indústria toda precise derreter velhos padrões para dar lugar a algo mais humano, mais honesto e, sim, mais bonito na sua diversidade.

Foto principal: Freepik

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.

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