Calça fuseau: vale o hype?

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Por Ana Paula Barcellos

Sempre fico com a sensação de que há tendências que insistem em nos assombrar. E, pra mim, é o caso da legging fuseau – sim, o nome certinho é “calça fuseau” ou “fuseau pants” em inglês, mas aqui no Brasil, a gente sempre chamou de “calça de pezinho” ou simplesmente fusô. Aquela peça com alça no calcanhar que prende o tecido no pé, como se fosse uma âncora contra o vento.

A calça fuseau está de volta, repaginada. Mas será que vale a pena usar?
Foto: Biamar

Eu me lembro vividamente dela da minha infância nos anos 80 e 90, quando era sinônimo de aulas de ginástica no Sesc, educação física ou looks de fim de semana despretensiosos. Achava feia na época, e olha que eu era só uma criança! Pois bem, ela está de volta, e não mais confinada às academias ou pistas de esqui. Agora, invade as ruas, desfiles e feeds de Instagram, prometendo substituir até a calça jeans. Mas, será que essa revival merece atenção ou um simples “não, obrigada”?

A calça fuseau surgiu nos anos 1920, originalmente como uniforme para equitação e esqui. O nome vem do francês “fuseau”, que significa “fuso”, referindo-se ao formato afunilado e ajustado às pernas, como um fuso de fiar. Projetada para atividades esportivas, ela foi popularizada por estilistas como Emilio Pucci nos anos 1950 e 1960, que a adaptaram para o ski fashion, com tecidos elásticos que abraçavam o corpo sem restringir movimentos.

Nos anos 1980, explodiu como ícone da era aerobics, graças a influências como Jane Fonda e suas aulas de ginástica televisionadas. Era o auge do fitness mania: leggings justas com alças para manter tudo no lugar durante pulos e alongamentos. Aqui no Brasil, virou febre nas academias e no streetwear casual, misturada com polainas e tops fluorescentes. Sumiu um pouco nos anos 2000, voltou discreta por 2017/2018, mas agora, em 2025, designers como Miu Miu e Balenciaga a resgataram, elevando-a a status de “essencial urbano”.

A função original era puramente prática: a alça sob o pé impedia que a calça subisse durante exercícios intensos, como cavalgar, esquiar ou dançar. Em esportes de inverno, evitava que neve entrasse nas botas; na equitação, mantinha as pernas firmes nas selas. Era uma solução engenhosa para o desconforto, priorizando funcionalidade sobre estética. Mas, fora do contexto esportivo, perde o sentido.

Fuseau repaginada para pior

Hoje, vemos modelos de fuseau com alças cavadíssimas – quase como um V profundo no calcanhar – combinadas com mules abertos ou sandálias de dedo. Pavoroso! Imagina: o tecido esticado expondo o arco do pé, criando uma silhueta que parece um erro de costura. Em vez de elegante, vira um híbrido estranho entre legging e meia-calça rasgada. Quem aprova isso? Celebridades como Kendall Jenner e influencers no street style de Nova York, aparentemente. Mas, na vida real, em corpos comuns, o resultado é desastroso: alonga as pernas de forma desproporcional, destaca imperfeições e grita “desconforto” a cada passo.

Foto: Versus Deseo

E aqui entro na minha teoria favorita: a Síndrome de Calça Saruel. Sabe aquelas peças que, por mais que tentem vender como “democráticas” ou “versáteis”, simplesmente não ficam bem em ninguém? A saruel – aquelas calças folgadas no cavalo, como se você estivesse usando uma fralda fashion – é o exemplo clássico. Surgida na cultura oriental como vestimenta confortável para climas quentes, foi apropriada pelo Ocidente nos anos 2000, prometendo liberdade de movimento. Mas, na prática? Encurta as pernas, alarga os quadris e transforma qualquer silhueta em algo amorfo. Ninguém sai ganhando: magras parecem desnutridas, curvilíneas viram caricaturas. É a síndrome de itens que priorizam o “conceito” sobre a realidade do corpo humano.

Outro exemplo perfeito é a calça harém, que nada mais é que uma variação da saruel com nome ainda mais bizarro – como se evocasse imagens de palácios otomanos, mas entregando só pregas e volume desnecessário. Febre nos anos 2010, graças a tendências boho-chic, ela ganhou elásticos nos tornozelos e tecidos fluidos, mas o resultado? Uma ilusão de ótica que faz as pernas parecerem curtas e o tronco alongado, como um gnomo fashion. Não bastava ser feia; tinha que ter um nome que soa exótico e machista. A fuseau entra nessa categoria: fora do esporte, vira uma armadilha estética. Com mules? É como misturar óleo e água – o casual atlético com o chique aberto resulta em caos visual.

No fim das contas, modas cíclicas como essa nos fazem questionar: por que resgatar o que já foi esquecido por bons motivos? Talvez seja nostalgia, ou a eterna busca por conforto pós-pandemia. Mas, é aquilo: nem toda tendência merece espaço no armário.

Foto principal: Ndmais

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide @yopaulab

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